6 de agosto de 2002

6 Ago 2002: Zhao Weng, aliás, João Manuel

Agostinho da Silva dizia de Portugal que a plenitude do Espírito Santo concorria com a bênção de se ter construído, à beira do Atlântico, o cais que nos sagrou para todo o futuro do mundo. O meu amigo João Manuel pensa algo semelhante, embora a matriz cultural lhe coloque os ensinamentos de Confúcio e Lao Tse no lugar das graças do Espírito Santo, que lhe parecem um tanto exóticas.
João Manuel chama-se, na realidade, Zhao Weng. Nasceu em Xangai no mesmo ano e no mesmo mês em que eu nasci na Guarda, em Dezembro de 68. E, quais almas destinadas, acabámos por travar conhecimento num Outono em Pequim, vai para quatro anos. Eu vivia em Macau e visitava a cidade dos imperadores pela primeira vez. Ele, ex-estudante de Português, era o contacto de um amigo comum e um anfitrião desejoso do convívio com nativos da língua de Camões.
João Manuel é o nome adoptado – um «aliás», como se diz naquelas. Eu próprio possuía, naquele tempo, o meu «aliás» chinês (Loi Si Do), o que originou, no imprescindível ritual de troca de cartões de visita, o caricato de eu o tratar pelo nome português e ele a mim pelo chinês.
Reposta a verdade dos factos, fiquei em desvantagem: chame-se Zhao ou João, ele fala a minha língua de forma impecável, muito ao invés de mim em relação à dele. O rigor gramatical e a eloquência do vocabulário são notáveis. Era preciso ir a Pequim, não digo para ouvir falar bom português mas pelo menos para lembrar expressões muito nossas, caídas em desuso ou abafadas por estrangeirismos. Disse-me, por exemplo, que me levaria aos famosos estanqueiros da Rua Liu Li Chang e de Xiu Shui. E levou-me. Só que eu chamar-lhes-ia num caso antiquários e noutro armazenistas.
De facto, a Universidade de Línguas e Literaturas Estrangeiras de Pequim, muito prestigiada nos meios diplomáticos, não brinca em serviço. Lecciona todas as línguas oficiais do mundo – mesmo todas! – e mais uns quantos dialectos expressivos. O curso de português tem a duração de quatro anos intensivo e é acompanhado pela mesma equipa docente do primeiro ao último dia. Só ao quarto ano é que volta a admitir caloiros. E cada curso não aceita mais de quinze alunos, pelo menos nas línguas consideradas difíceis. O português é uma delas, devido à complexidade da gramática. Os professores habilitados (chineses na quase totalidade) são poucos – mas bons, a avaliar pelo resultado que João Manuel exibe.
Este contacto com a língua e com a cultura lusas aconteceu por acaso. Ao ingressar na universidade, Zhao, que ainda não imaginava vir a chamar-se João, indicou o inglês como primeira opção, porque julgava ter no já familiar uso desta língua alguma vantagem. Puro engano. Não foi admitido porque os vícios que levava da aprendizagem autodidacta contrariavam a filosofia da formação que ali é ministrada. Os mestres criam a obra a partir da pedra em bruto, com paciência e perseverança, nunca pegam em trabalho começado. Tal é o sentido do ensino do Português, em Pequim.
Há males que vêm por bem, diz o aforismo muito nosso. Quando o conheci, Zhao admitia que o diploma de Língua e Cultura Portuguesas seria uma carta de alforria. Dadas as relações privilegiadas entre Portugal e China no quadro da transição de Macau, as próprias instituições da República Popular estavam a absorver uma grande parte dos diplomados.
Zhao iniciara os estudos em 1988 mas um ano depois a universidade encerrava, na crise provocada pelo movimento estudantil pró democracia, que culminou nos acontecimentos de Tian An Men a 4 de Junho de 1989. Perguntei-lhe se esteve lá, se assistiu ao massacre. Respondeu-me com uma evasiva: «Em Maio fui visitar os meus familiares em Xangai». A conversa torna-se num jogo de sombras.
Na tristemente célebre praça, os heróis daquela Primavera só já existem no imaginário do visitante. O local parece apropriar-se do nome, que significa à letra Praça da Paz Celestial. Há velhos que praticam Tai Ke, a «ginástica do espírito», crianças que lançam papagaios de papel, turistas ruidosos e soldados que ao nascer e ao pôr-do-sol hasteiam e arriam a bandeira nacional, num ritual empolgante.
Qualquer pessoa se sente ali minúscula. Obra de Mao, tal como a avenida de mais de trinta quilómetros que a atravessa, a praça é gigantesca e está ladeada pelos edifícios sobranceiros do Museu da Revolução, do Grande Palácio do Povo, do antigo Palácio Imperial e do mausoléu do «grande líder». Mas o maoísmo não passa já de um relicário, que resiste como pode no país que inventou o paradoxo da economia socialista de mercado e regista uma das mais elevadas taxas de crescimento económico do planeta.
Voltemos a Zhao. Na pele de João Manuel, já tinha lido Camões, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Mário de Sá Carneiro e Sofia de Mello Breyner, pelo menos. Em português e em chinês. A universidade dispõe de um acervo assinalável de literatura portuguesa traduzida, nuns casos por acção dos próprios investigadores, noutros por iniciativa editorial tomada a partir de Macau.
Desde que foi criado, há mais de trinta anos, o curso de português formou um total de cerca de três centenas de pessoas. Uma grande parte ingressou na carreira diplomática, arte na qual a China dá cartas. É impensável que uma embaixada em qualquer parte do mundo não tenha quadros que falem fluentemente a língua do país.
Aos trinta anos, João Manuel era já um alto quadro numa empresa estatal ligada ao Ministério do Comércio Externo e da Cooperação. Por falar português tinha estado destacado três anos em Cabo Verde e dois em São Tomé. Agora costuma escrever-me maravilhas de Moçambique, onde exerce há dois anos o cargo de adido comercial. Em Portugal chegou a viver oito meses, a trabalhar na área da cooperação económica. E foi aqui que deu de caras com um mistério que nem toda a sabedoria oriental consegue desvendar: como pode a pátria dos Descobrimentos ser tão fechada sobre si mesma e tão estreita de vistas? Perguntava-me disto a propósito do relacionamento comercial unilateral, do mercado português inundado de made in China, em contraste com a falta de iniciativa no sentido inverso. E indignava-se: «Vocês não vêm que este é o maior mercado do mundo? Que a compra de um produto vosso por um por cento da nossa população é um negócio para valer milhões?!» O quê, por exemplo?: «O vosso vinho e o vosso azeite». Não, nós não vemos sequer um negócio da China.
Ficamos assim. E à noite, numa animada ceia no afamado «Rei das Sopas» de Pequim (sopas de cobra, que as boas maneiras obrigam a sorver ser esgares), Zhao recorda outras características dos portugueses, umas boas, outras nem tanto. Que temos um estranho fascínio em dizer tudo o pensamos. Que somos conversadores e bem dispostos. Que discutimos muito. Que nos queixamos de tudo. Que contamos anedotas.
E as mulheres portuguesas, o que as distingue? João Manuel medita por instantes. E sai-se com esta, que nenhum de nós terá, sequer em poemas, alguma vez pensado: «Têm a simpatia, a doçura e os gestos de ternura breve»...

Sem comentários: