11 de outubro de 2002

11 Out 2002: Para quê?

Oportuna ou não, a permanência do Presidente da República durante uma semana no distrito da Guarda – confirmada que está a «Presidência Aberta» para o período de 26 de Outubro a 3 de Novembro – obriga-nos pelo menos a sair do estado de letargia em que nos mantém este estatuto, por vezes cómodo, de «vítimas da interioridade».
É claro que o conceito já se presta ao folclore do costume, alimentado autarcas, deputados, representantes do poder central e demais «forças vivas». Ouvi-los-emos nas boas vindas, nos jantares e nas sessões solenes, nos passeios com o povo e nas visitas guiadas. Ouvi-los-emos, pelos dias fora, em Marialva ou em Foz Côa, em Pinhel ou no Cântaro Magro, em Castelo Mendo ou em Gouveia. Ouvi-los-emos, soberbos e bem postos, nos salões nobres ou nos recintos polidesportivos, nas praças ou nos santuários.
É fácil antecipar fielmente o que iremos ouvir: que a estada presidencial nos enche de orgulho; que rejubilamos com o estatuto de capital da nação por uma semana; que continuamos atirados ao esquecimento; que sofremos como ninguém o centralismo.
É tudo muito verdade. Mas, tal como Soares em 1988, o que Sampaio virá encontrar serão ruas engalanadas, estradas com asfalto novo, edifícios pintados de fresco, mobiliário a estrear, jardins recompostos e obras feitas à pressa e a qualquer preço.
Realmente, é boa educação de quem recebe apresentar a casa arrumada e expor a melhor baixela. Mas é também dever do visitante, se vier por bem e estiver minimamente a par dos constrangimentos do anfitrião, pô-lo à vontade, pedindo-lhe, com cordialidade e franqueza, que não se acanhe nem faça cerimónia, porque ser pobre não envergonha. E a verdade é que para apreciar as paisagens, conhecer o património e provar os comeres não é necessário fazer uma «Presidência Aberta» – basta vir, de qualquer maneira, que será bem recebido e nunca esquecerá.
Mas Jorge Sampaio deve vir preparado, isso sim, para exercer sem floreados e como lhe compete uma verdadeira magistratura de influência e, em certo sentido, determinado a partir a loiça. Porque não lhe faltarão motivos para intervir: das carências que qualquer um enumera às insuficiências que os sucessivos poderes tiveram a obrigação de acautelar mas não acautelaram; da inércia dos dirigentes à penúria da classe política; da falta de estratégica à fuga dos investimentos; da escassez de oportunidades à evasão da massa crítica.
O Presidente da República tem o compromisso e a responsabilidade de alertar para tudo isso, exigindo que a solidariedade nacional se torne num desígnio consequente.
Que mais não seja pelo respeito que é devido à auto-estima de quantos vão ficando – e que acreditam, apostam, investem e resistem.
Se não for para chamar as coisas pelos nomes, esta «Presidência Aberta» não passará de uma versão opulenta das Festas da Cidade.
E o tempo, como se vê, já não está para grandes romarias.

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