4 de outubro de 2002

4 Out 2002: Mais do mesmo

1. O novo director clínico do Hospital da Guarda nem um mês cumpriu. Chegado ao dia de pagamento, Alberto Duarte conferiu que as promessas do ministro não lhe valeram de muito e renunciou ao lugar. Não foi pelo burburinho gerado em torno da nomeação e dos alegados privilégios que lhe iam ser concedidos que o médico se arrependeu, foi por um motivo bastante mais raso: na folha de vencimento não constava – e nem podia constar, pelos vistos – o pagamento de horas extraordinárias, um dos vários expedientes que reivindicara para aceitar o cargo sem se sujeitar a «perdas e danos». O que neste caso significava manter o rendimento mensal na ordem dos mil e quinhentos contos, que auferia nas diversas empreitadas que mantinha enquanto médico especialista. Como, afinal, não lhe foi garantido ganhar o mesmo, bateu prosaicamente com a porta. Embora se possa dizer que teve uma atitude coerente e lógica, Alberto Duarte não saiu pela porta grande. Ninguém porá em causa a legitimidade do vencimento que está habituado a receber todos os meses, contando com o salário de especialista, com todos os complementos e mais com o livre exercício de clínica privada. Mas já é discutível a forma como pôs as coisas quando o convidaram a assumir a direcção clínica do hospital. Se já tinha plena consciência de que podia perder dinheiro e liberdade de movimentos, alguém o obrigava a aceitar? Se o regime de excepção causou o alarido que se sabe entre o corpo clínico, havia necessidade de se expor? Só pode haver uma explicação: Alberto Duarte deixou-se consumir pelo perfume agridoce do poder. O lugar não é grande coisa – e depois deste episódio sê-lo-á cada vez menos – mas a tentação de pôr e dispor, de nomear e demitir, de premiar e punir terá sido mais forte do que todas as hesitações mal resolvidas. É a única justificação possível. Claro que ele sempre poderá fazer-se passar por penitente e jurar que nada mais o moveu do que o altruísmo e o desejo de trabalhar para um hospital melhor. Mas isso nem o PSD lho permitirá. Como consta que foi Pedro Albuquerque quem sugeriu o nome (provavelmente para se livrar, ele próprio, de uma indigitação que parecia assentar-lhe como uma luva), Ana Manso não tardará a pôr a correr que só as nomeações propostas pelo PP lhe causam problemas – e sacode, pensará ela, a água do capote. Claro que os danos vão muito para além disso. Agora é preciso saber se o nome que se segue tem estofo para esmoer a condição de quarta ou quinta escolha – e por muito menos dinheiro. E atendendo à existência do voluntarioso grupo de contestatários na equipa clínica, que foi parte activa neste processo, não restam ao Ministério da Saúde muitos caminhos: ou nomeia o novo director sem os consultar e terá, dentro de dias, mais do mesmo; ou chama-os delicadamente à responsabilidade de sugerir um nome (ou, pelo menos, um perfil), reduzindo-lhes a margem de objecção – embora diminuindo também o campo de manobra do futuro titular, além da própria autoridade da directora do hospital. Mas nesta altura do campeonato, o que importa é conseguir sentar toda a gente à mesa e alcançar o assentimento. Quem o conseguir merecerá a designação ao Nobel da Paz.

2. O novo director da Segurança Social da Guarda rescindiu o contrato com vários técnicos que ali prestavam serviço mas, menos de 24 horas depois, foi obrigado a voltar com a palavra atrás – não tinha competências atribuídas para admitir ou despedir quem quer que fosse. Os partidos que alternam no poder deviam distribuir obrigatoriamente um manual de procedimentos aos boys que nomeiam para lugares públicos. Para perceberem, eles próprios, o que vão para lá fazer ao certo.

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