1 de novembro de 2002

1 Nov 2002: A mão que embala o berço

1. Nem sempre a mão que embala o berço é a mais forte. Às vezes parece desajeitada e rude. Terminado o folhetim da nomeação do director clínico do hospital da Guarda, percebe-se agora melhor que houve mão remota a empatar o processo. A mesma mão que José Cunha nunca quis ir beijar – porque, sendo sobretudo boa pessoa, não se achou sujeito a fazer o papel de lorpa. A mão que, movida por tal afronta, fez o que pôde para protelar e inviabilizar a nomeação do médico. A mão que terá ordenado à direcção do hospital a indicação para Lisboa de outros nomes para o lugar, à revelia da cadeia hierárquica de Coimbra. A mão que, por ter feito isso, arranjou no presidente da Administração Regional de Saúde do Centro um parceiro abespinhado no jogo do braço-de-ferro – e acabou vencida. A mão hospitaleira, que concede aposento ao principal elemento do Conselho de Administração do hospital. A mão influente, que nomeou os restantes de modo a satisfazer promessas de emprego e saldar favores antigos. A mão que prometia pôr o hospital na ordem – com o resultado que se vê.

2. A grande maioria das pessoas está-se literalmente nas tintas para as discussões anuais do orçamento de Estado, das grandes opções do plano, do PIDDAC e dessas coisas. Não é que o deve e haver do Estado tenha deixado de constituir uma questão política e social essencial – dela depende uma grande parte do ciclo económico anual e, em última análise, da condição financeira de todos nós, contribuintes. No entanto, desinteressamo-nos notavelmente do assunto, o que só pode ter uma explicação: nisto de receitas públicas e impostos cada um de nós tem a mesma preocupação basilar, que consiste em assegurar a gama possível de subterfúgios, para que, quando estiver completa cada etapa fiscal e formos chamados a declarar ganhos e perdas, tenhamos forma de não pagar impostos a sério. Sim, nós – uma boa parte dos contribuintes individuais e o grosso das empresas. Sinta-se ofendido quem estiver imaculado. Esta será, também, a razão pela qual os sucessivos governos se permitem apresentar, ano após ano, presumíveis tratamentos de choque, levando em troca o desinteresse e a descrença geral. Os que vão pagar a conta são tão poucos que a placidez comum nunca se sente por aí além ameaçada. Se assim não fosse, o orçamento agora apresentado pelo Governo seria suficiente para causar um levantamento popular.

3. Mas há pessoas cujas responsabilidades transformam a indiferença em corpo de delito. Mais tratando-se de um debate que determina toda uma linha de acção e investimento público, condicionando o desenvolvimento das regiões. E pior perante uma realidade que só se tornará contornável pelo empenho e pela discussão: é que o distrito da Guarda surge, de novo, entre os últimos contemplados pelo PIDDAC, com uma redução significativa do volume de investimentos em relação ao ano passado. Há projectos que não chegam a figurar e há outros que desaparecem, simplesmente. O que fazem os quatro deputados pelo distrito? Quase nada. O que farão quando o orçamento for votado? Os do PSD votarão a favor; os do PS votarão contra. Como fizeram o ano passado, em papéis invertidos. A troca de um voto por um queijo Limiano, há dois anos, foi a representação burlesca do sistema político. Mas, seja dita a verdade, ainda ninguém inventou melhor.

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