15 de novembro de 2002

15 Nov 2002: A raposa apresada

O processo do matadouro teve o fim esperado e a moral da história confirma aquela que é, aos olhos inocentes dos laicos, a razão de existir dos políticos: enganarem-se e enganarem-nos. Esta noção vulgar não deixa de ter algum fundamento empírico, diante de condenações como a acaba de ser sentenciada aos factos que remontam à época em que Abílio Curto era presidente da Câmara e da sociedade gestora da obra. Mas o ex-autarca é capaz de ter razões para repisar o desabafo que lhe ficou como distintivo quando o detiveram, no já longínquo ano de 1995: «Alguém me está a tramar!». Não que justiça não tenha sido feita, na presunção de que todos os factos apurados são verdadeiros e estão provados. Mas é verdade que a montanha pariu um rato e quem se tramou foi ele, condenado a cumprir um ano e meio de prisão efectiva (que só não é de três anos e meio porque entre os factos e a sentença ocorreram duas amnistias) e a devolver 91 mil contos ao Estado. Walter Gameiro também acabou condenado mas isso pouco o deve ralar – o antigo fiscal do projecto vive nas Américas, é um homem assumidamente ocupado para se absorver em tais minudências e, aliás, só à segunda tentativa (depois de ter declarado, por intermédio do advogado, que o «desconhecimento» o impedira de comparecer à primeira audiência, tendo com isso adiado o início do julgamento) é que se dignou vir à Guarda, por uma vez sem exemplo. Pelo contrário, Custódio Simões, tido como a peça-chave de todo o processo, surpreendeu ao sentar-se no banco dos réus à primeira chamada, aparentemente de livre vontade e sem medidas de coacção que prevenissem um regresso antecipado e possivelmente providencial a Cabo Verde, onde vive de negócios. Acabou – et pour cause? – absolvido. Os dinamarqueses também nunca chegaram a ser maçados. E houve os que, embora acusados, se libertaram pela lei da morte, tal foi o tempo de espera até ao julgamento. Abílio vê-se assim com as sobras do caso, sujeito a uma pena efectiva que só o expediente do recurso permitirá protelar – na mira de que a proverbial demora da Justiça permita que a decisão se arraste pelo tempo suficiente até vir mais uma amnistia ou uma prescrição. Claro que nada disto anula o essencial do acórdão do Tribunal: houve crime, de facto, e o projecto do matadouro foi um forró indecente, um autêntico fartar de vilanagem. O que é estranho é que Abílio Curto se tenha deixado apresar por tão evidentes indícios e acabe, sozinho, a penar as culpas. Não é o que espera de uma raposa com pergaminhos.

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