23 de novembro de 2002

23 Nov 2002: O nome das coisas

É positivo que a coordenadora nacional do Plano para a Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil assuma pessoalmente o «caso» da Guarda e dirija, com o vigor que demonstrou na entrevista que concedeu anteontem à Rádio Altitude, o grupo de trabalho que acaba de ser formado.
Sabe-se agora que isso aconteceu por diligência do próprio Presidente da República (afinal a Presidência Aberta teve pelo menos este efeito prático) e que Sampaio até designou uma assessora, a ex-secretária de Estado da Educação Ana Maria Bettencourt, para o representar nos trabalhos.
Não é que as duas escolas envolvidas – a de São Miguel e a da Sequeira – não conheçam a realidade ou os organismos representados localmente não estejam em condições de agir no terreno. A direcção da Escola da Sequeira mostrou-se, aliás, incomodada com o que aqui escrevi há duas semanas e esclareceu [em carta no último «O Interior»] que não promove a separação de alunos em função da origem ou do contexto social e que não há turmas «rurais» nem turmas «urbanas» – nem, presumivelmente, a tradicional «turma dos repetentes». Ainda bem.
Mas a segregação não radica necessariamente no método de gestão: está enraizada no próprio sistema, que se espartilha numa tabela universal e não leva em conta as especificidades. Arrumar os «casos problemáticos» numa ou em várias turmas seria pedagogicamente uma brutalidade – para os alunos como para os professores. Gerir a inserção transforma-se, por outro lado, numa façanha: é ter de ensinar a mesma matéria a um grupo onde coexistem o adolescente que mora a dois passos da escola, em meio social médio ou alto e em ambiente familiar tranquilo, que tem hábitos de leitura e meios de acesso à informação; e o adulto precoce, que madruga para as tarefas do campo, convive num meio social difícil, adquiriu hábitos alimentares em que o consumo de álcool é tido como admissível, nunca leu um livro e dificilmente saberá para que serve um computador. Provavelmente este detesta a vida que leva. Mas também não é a escola que o realiza. Cedo desiste, por imperativo familiar ou em função do insucesso acumulado. O que é isto, senão segregação?
É claro que localmente pouco se poderá fazer para inverter esta realidade. O ideal seria educar por objectivos, facultar uma formação compatível com a aptidão, aligeirar as imposições, promover uma via profissionalizante de ensino. Mas as escolas não podem alterar os programas nem os métodos, mesmo que a realidade social o determine.
Por isso é que a criação do grupo de trabalho contra a exploração do trabalho infantil na Guarda é uma boa notícia. Catalina Pestana, a coordenadora nacional, não é mulher para se ofender com o nome próprio das coisas. Conhece a realidade, sabe onde residem as vulnerabilidades e garante que nos últimos quatro anos, desde que o programa existe, já foram resgatados centenas de adolescentes ao abandono escolar, noutras regiões do país.
Como? Concedendo às escolas os meios para promover programas especiais de aprendizagem, até um limite ponderável de escolaridade, encaminhando depois esses alunos para uma formação profissionalizante que lhes permita adquirir competências numa vocação. E, até lá, ir sensibilizando as famílias para um direito fundamental: o direito de ser criança, de ter sonhos, fantasia, ilusões. Um direito que deve estar acima de todos os outros, por muito que os costumes não se discutam.
«O Interior»

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