8 de novembro de 2002

8 Nov 2002: O puto Leonel

Não discuto os costumes, que são ancestrais e têm raízes no meio. Mas choca-me o quotidiano do Leonel – e o destino de todos os Leonéis. Aquele miúdo que se levanta às quatro da manhã para mungir ovelhas e acarretar lenha antes de apanhar o autocarro escolar não pode ter tempo para ser menino. Aquele garoto que regressa a casa depois do sol-posto e ainda vai ajudar no amanho do gado não pode ter disposição para rever a matéria. Aquele puto que passa a correr pelo sono antes de despertar para os dias iguais não pode ter sonhos nem quimeras, vontade nem ilusão. Provavelmente está numa turma entre pares, entregue à condição de «caso problemático» e sujeito ao absentismo dos professores – a escola, frequentada sobretudo por estes alunos das periferias, tratou de pôr os «urbanos» a bom recato. Esta é a realidade que as televisões ampliaram, numa espécie de «expedição à selva» em que Sampaio se prestou a abrir a porta do Mercedes ao Leonel por troca de um banco no autocarro. Foi o folclore costumeiro da Presidência Aberta, que serviu, ao menos, de alerta para uma realidade social emoldurada pelo trabalho infantil, pelas dificuldades familiares e pelo insucesso escolar. E agora? Alguém voltará a preocupar-se com o futuro do Leonel? Alguém irá sensibilizar os pais do Leonel para o papel da escola e importância do que lá aprende? Alguém irá verificar se a turma do Leonel é objecto de segregação? Ou o puto só deu jeito para ir na procissão?
«O Interior»

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