13 de dezembro de 2002

13 Dez 2002: Quem quer o lugar?

Há um vício antigo na vida política local que não pode deixar de ser assinalado: é o de avançar às arrecuas, ficando sempre no mesmo sítio. Um ano de gestão autárquica, desde as últimas eleições, confirma este paradigma. É claro que doze meses num mandato de quatro anos não permitem tomar o todo pela parte. Mas, no caso da Guarda, não existem indícios de grandes rasgos para o futuro, a menos que Maria do Carmo Borges nos surpreenda – e se surpreenda primeiro a si própria com outro ânimo que não aquele, esvaído, que exibe agora, em que evidencia uma postura de fim de ciclo. Ainda há dias afirmou, em público, que não voltará a recandidatar-se. É verdade que o desabafo não é original: já o tinha deixado escapar antes das eleições do ano passado. Mas há razões para crer que desta vez pode estar a ser menos fingida do que primeira. A ter saído em Dezembro, mesmo por opção, tê-lo-ia feito pela porta baixa: a obra realizada era escassa e resumia-se, no essencial, a mera bricolage desgarrada. Descer do comboio a meio da viagem, com a uma série de projectos importantes em marcha – Polis, Plataforma Logística, etc. – era o mesmo que entregar o ouro ao bandido. Agora, pelo contrário, há razões para crer que ela queira reformar-se dentro de três anos, logo que consiga resolver o maior dos embaraços, que é a sua própria substituição. Aquilo que nesta altura mais deve começar a atormentar Maria do Carmo Borges é chegar a 2005 e ver-se obrigada a recandidatar-se, por falta de interessados. Daí a insistência, nas entrevistas que deu nas últimas semanas, no anúncio da retirada e no carácter irreversível da decisão. É uma espécie de aviso à navegação, a tentar criar o facto político que leve outros a posicionarem-se com tempo e com espaço. Porque, de facto, ela já percebeu que ao ter ganho as eleições passadas conquistou tacitamente as próximas. E esse é o receio que a persegue, por paradoxal que esta relação pareça. Mas é simples de perceber. Nos próximos três anos a Plataforma Logística tomará forma, o Polis terá obra feita, a Sala de Espectáculos acabará de ser construída e a Biblioteca será inaugurada. Isto para mencionar apenas as obras que estão em curso. Cortar as fitas será uma festa, colher os louros será uma honra – com inegável legitimamente. Mas, em alguns casos, o pior poderá vir a seguir. O programa Polis chegará ao fim: alguém tem ideia de como se fará – e de quanto custará – a manutenção das infra-estruturas previstas para o parque urbano do Rio Diz? A Sala de Espectáculos será inaugurada: alguém pensou já no modelo de gestão e nos custos da dinamização de um empreendimento daquelas dimensões? Os elefantes brancos costumam nascer assim, por ausência de planeamento atempado. As culpas desta aparente navegação à vista repartem-se por vários agentes, políticos e técnicos. A própria oposição na Câmara da Guarda parece já ter desistido de sê-lo: anteontem apenas um de três vereadores compareceu à discussão do orçamento e do plano de actividades para 2003, se é que de discussão se tratou. Um ano depois, Maria do Carmo Borges anuncia que passa o lugar – mas quem o quer?
«O Interior»

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