18 de dezembro de 2003

18 Dez 2003: Despenalizar não é obrigar a fazer

Felizmente existe outra Igreja – ou existe, melhor dito, uma parte hoje submergida da Igreja – que mantém intacta a esperança e resiste no diálogo com a sociedade. O bispo do Porto disse, numa entrevista ao último Expresso, que é «contra a penalização do aborto», defende como solução única «a criação de condições sociais para que as famílias possam criar os seus filhos» e não concorda com a existência, como se de um desfecho do problema se tratasse, de «instituições onde se colocam crianças indesejadas», porque as crianças «devem viver e ser amadas pelos pais». Ou seja: tudo se condensa numa opção moral, à mercê das condições, dos valores e dos sentimentos individuais. Isto é diametralmente o oposto da obrigação moral, que se escuda no dogma e recusa o contraditório. A surpresa reside no facto de ser um destacado dirigente eclesiástico a dizê-lo. Porque a Igreja, neste pontificado, recuou meio século. Pode a figura do Papa ser simpática e, nesta altura da vida, inspirar compaixão e deferência, que isso não reabilita João Paulo II de ter mantido uma instituição separada do mundo dos homens e de a ter tornado fundamentalista e bolorenta. O que vale, em nome da fé, são as bolsas de resistência a este obscurantismo. O bispo do Porto provavelmente apenas tornou público o que irá na alma de muitos dos seus pares. Mesmo há cinco anos, no referendo à despenalização do aborto, o que a Igreja disse, em voz alta, foi «votem não!» e, em voz baixa, «não votem!», ainda que, doutrinariamente, o que a instituição pretendesse fosse um não rotundo e definitivo, que não obteve. Lá no íntimo, nem os partidários da argumentação vitalista radical, nem a direita mais hipócrita e bafienta – como aquela que defende a aberração de passar a mandamento constitucional a noção de vida humana desde a gestação – recusam a lei em vigor. Aceitam implicitamente o aborto em caso de violação, de doença da mãe ou de malformação do feto. Assim como admitem as causas psicológicas. E praticam a contracepção. Soluções que são absolutamente condenadas pela doutrina que dizem defender. Também é improvável que desejem a condenação de mulheres que provocaram a interrupção da própria gravidez, como as sete que são agora julgadas em Aveiro ou as 16 que foram absolvidas há dois anos na Maia – de um total de 11 mil que própria Direcção-Geral da Saúde estima que, só no ano passado, teriam praticado o aborto clandestinamente. Com certeza que não são só mulheres que votam à esquerda ou que não têm por hábito assistir à missa. O bispo do Porto, sendo quem é e dizendo as coisas da maneira como as disse, só provou que não faz como Frei Tomás, que nesta como noutras matérias sociais é o modelo eleito dos comportamentos da Igreja. Passados cinco anos, talvez a sociedade portuguesa esteja mais madura para debater o problema com integridade e sem medo do divino castigo. É bom que esta questão vá de novo a referendo. Provavelmente até precisamos de uma causa que agite as consciências e acuda à prostração em que o país caiu. O essencial é que se perceba aquilo que ficou por explicar na última vez: despenalizar não significa obrigar a fazer. Se há quem o faz, é porque toma uma opção delicada e presumivelmente muito difícil sob todos os aspectos. O mínimo que pode exigir é ter condições – e paz.
«O Interior»

13 de novembro de 2003

13 Nov 2003: Novelas de periferia

Advinha-se novo caso nos costumes deste país, a pretexto da inauguração do estádio do Futebol Clube do Porto, daqui a três dias. O homem que manda no clube decidiu aplicar o velho princípio de que à boda e ao baptizado só vai quem é convidado. E como bom cacique já ajeitou uma «lista negra», à cabeça da qual aparecem o presidente da Câmara por não ter decretado a utilidade municipal do futebol e de todos os interesses incorporados; o presidente da Assembleia da República por não ter reconhecido a utilidade política da deslocação de uns deputados, na hora de serviço, a uma final europeia disputada pelo clube; e todos os que, de um modo ou doutro, estorvam o sacrossanto princípio da colectividade-nação. Ou da colectividade acima da própria nação. Por acaso o «templo» aonde se vai fazer o «baptizado» foi pago, em boa porção, por cada um de nós – em nome de um desígnio nacional que lhe dará préstimo durante dois meses, no máximo, findo os quais o Estado restituirá à posse exclusiva de um clube, sem quaisquer contrapartidas económicas nem garantias de usufruto comunitário, um estádio onde investiu milhões. Este e mais nove. Mas não é o trejeito de país endinheirado que atrapalha as consciências. Aquilo que verdadeiramente inquieta a auto-estima dos poderes é o figurar, ou não, na lista dos convidados para as festas. Já o Cardeal de Lisboa tinha ficado desgostoso por terem chamado um frade franciscano à bênção do novo estádio do Sporting, clube do coração de sua eminência. Foi mais rápido a expressar esse desapontamento do que a denunciar eventuais indícios de miséria franciscana neste país. Para evitar a recapitulação dos melindres, o Benfica fez da inauguração da «Catedral» um exercício de diplomacia genuína, dispondo os lugares na fila de honra a contento de todas as partes. Mas agora o Futebol Clube do Porto, fazendo valer um resquício separatista, numerou os convites e provocou um ataque de nervos no seio da lista de precedências do Estado. O mal não está no gesto, está na importância que lhe é dada. Pacheco Pereira já definiu o tom certo para tratar com estes abencerragens do provincianismo que saltam ao caminho: sendo o acto que é, basta ir o secretário de Estado do ramo. Mas que os tenha no sítio e sublinhe, na hora da discursata, o essencial: que a obra está ali porque todos nós a pagámos. É isto que tem ficado por dizer em todas as cerimónias do género. Para que o país pense, enfim, naquilo que é essencial e não se perca nestas novelas de periferia.
«O Interior»

23 de outubro de 2003

23 Out 2003: E fazer greve de fome?

É legítimo protestar contra uma diminuição drástica na dotação financeira do Plano de Investimentos da Administração Central para o distrito da Guarda? É uma obrigação. É válido assumir sentimentos de “descontentamento e revolta” perante a “injustiça flagrante” de ficar com uma fatia “dramática” do Orçamento de Estado? É um dever. É aceitável zurzir o Governo, os representantes locais do Estado e os deputados da situação por “injustiça”, “má-fé”, “camuflagem da vergonha dos números”, “seguidismo em relação ao poder central”, “incompetência” e “ausência de poder reivindicativo”? É um direito. Que o diga Ana Manso. Foi a deputada do PSD quem afirmou isto e muito mais – com alguma razão, reconheça-se – contra o PIDDAC de 2001. Estava o PS no Governo e tudo quanto se propunha investir no distrito da Guarda não passava de 92 milhões e meio de euros. Menos oito milhões, portanto, que no ano anterior. Ana Manso e Álvaro Amaro, então deputados da oposição, acusavam os socialistas de “atirar areia para os olhos das pessoas” e vergastavam o governador civil (que era, na altura, Fernando Cabral) e os deputados do PS pelo “escândalo” de terem deixado o distrito ficar em penúltimo na distribuição do «bolo» – bastante atrás de Castelo Branco e de Bragança e, claro, a muitos milhões de distância de Viseu. Passado um ano, protestaram com ainda maior vigor. Eram ambos candidatos a presidentes de câmaras (Ana Manso na Guarda e Álvaro Amaro em Gouveia) e diziam sobre o PIDDAC para 2002, o Governo, os deputados e os boys o que Maomé não disse sobre o toucinho. Apesar de o distrito ter subido, nesse ano, de penúltimo para antepenúltimo na relação dos investimentos a haver por conta da Administração Central (com um simbólico aumento de dois milhões e meio de euros), continuavam cobertos de razão.
Nisto dá-se a derrocada do PS e a ascensão do PSD ao poder. Ana Manso, agora deputada pela maioria, ascende ao estatuto de presumível – e provavelmente não mais do que isso: presumível – eminência parda, fazendo crer que pode, quer, manda e domina. Mas ao cidadão comum basta que ela consiga ser coerente consigo própria e persuasiva com o novo poder, para que a justiça que antes clamou para o distrito seja por fim reposta.
E o que temos? Logo de começo, cinco milhões de euros menos no PIDDAC para o corrente ano e o retorno a penúltimo na tabela. Com o previsível pretexto de, por ser o primeiro orçamento da era pós-PS, ainda importar efeitos do desvario.
E agora? Agora é o descrédito absoluto. Para 2004 este governo consegue destinar ao distrito da Guarda o pior orçamento dos últimos dez anos. É proposta uma redução líquida de quinze milhões euros, o que representa um corte de quase o triplo daquilo que a ministra das Finanças tinha fixado como meta de restrição ao investimento público.
Com a excepção de Portalegre, somos o distrito mais penalizado do eixo da interioridade: em comparação, Bragança recebe mais 37 milhões de euros; Vila Real mais 34 milhões; Viseu mais 53 milhões; Castelo Branco mais 23 milhões; Évora mais 24 milhões; e Beja mais 82 milhões. E apenas três destes distritos – Vila Real, Viseu e Castelo Branco – têm maior população que o da Guarda (sendo pacífico que esse é um critério ponderável).
O que nos faltou? O de sempre: liderança, influência, poder, reivindicação, respeito. Ana Manso pode engolir tudo quanto proferiu há dois anos e há três: afinal fez pior. Por isso ainda não teve a coragem de dar a cara: não há como explicar o inexplicável. Não é da conjuntura, certamente. E também não é, decididamente, culpa dos que estiveram antes: há cem anos já D. Carlos declarava que “esta choldra é ingovernável” e houve muitos governos depois disso. Se não tem uma justificação razoável, o melhor é a líder do PSD remeter-se ao silêncio e à patente ineficácia. E os dirigentes do PS, que esta semana vieram classificar de “humilhante” o orçamento, têm razão mas também é recomendável que não façam ondas. Se há acusação recíproca em que os dois partidos estão rigorosamente certos é a de que, por junto, o que fizeram por este distrito foi absolutamente nada ou pouco mais.
Só há, assim de repente, uma maneira de ambas as partes salvarem a honra: faltando vinte dias para a aprovação do orçamento e sendo quatro os deputados pelo distrito, vão a tempo de reclamar, exigir, negociar ou mesmo extorquir coisa que se veja. Em função daquilo que o orçamento reservar para o distrito na derradeira versão, cada um votará em consciência – mandando às malvas a disciplina partidária. Pode dar-se o caso de os deputados do PS votarem a favor da proposta do Governo, se ela for justa para os interesses da Guarda; como podem os deputados do PSD votar contra, a manter-se tal como foi apresentada.
No limite, se ninguém desse importância à tentativa (porque a realidade aritmética é que quatro votos não chumbam o orçamento), sobrar-lhes-ia uma saída radical e potencialmente mediática: fazer greve de fome, num corredor do Parlamento, até que houvesse o compromisso de aumentar o investimento público no distrito.
Já foi experimentado uma vez – em nome de um queijo – e deu resultados extraordinários. É certo que se tratou de uma representação burlesca do sistema político. Mas, seja dita a verdade, ainda ninguém inventou melhor. Irão os deputados pela Guarda surpreender-nos?
«O Interior»

18 de outubro de 2003

18 Out 2002: Bandeiras desbotadas

Ou o hospital da Guarda acerta rapidamente na receita para sarar as próprias feridas ou não conseguirá conter a infecção e, quando der por ela, encontrará o corpo já de tal forma mazelado que será difícil isolar a causa – e o tratamento tornar-se-á doloroso.
O tempo passa e nada: a equipa que devia estar a conduzir os destinos hospital continua por formar, porque o lugar de director clínico está outra vez deserto. José Cunha pode não ser, afinal, o médico bonacheirão que muitos supunham disponível, por militância e bom feitio, a transigir na condição de «reserva de excepção» para o cargo, se não encontrassem mais ninguém.
Como se está a ver, ele não é necessariamente assim. E, vendo-se apertado entre as movimentações a montante (o esforço de pacificação do corpo clínico, que resultaria na criação de uma equipa directiva sobre a qual o próprio teria reduzida margem de escolha) e as resistências a jusante (a falta de consenso com o PP em relação ao nome), Cunha poderá, simplesmente, optar por seguir a sua vida, tranquilo e indulgente – e livre de aborrecimentos.
Nisto vão decorridas duas semanas desde que Alberto Duarte resignou, ao cabo de pouco mais tempo, ao lugar. Mas há outros prazos que se esgotam. Prendem-se com promessas, protestos, anseios, disputas. E com bandeiras eleitorais que já se vêm desbotadas ou a meia haste.
A Pediatria está reduzida, desde Terça-feira, a um especialista: Luísa Pedro meteu baixa médica (e talvez não volte, visto que a esperam nos próximos dias no hospital das Caldas da Rainha) e outro clínico presta serviço em regime de apoio temporário.
Qual será o futuro desta unidade e de outras que sem esta estar a funcionar correrão riscos (como a maternidade e a neonatologia)? Que é dos pediatras que se diziam ansiosos por virem para a Guarda? Virão depois – virão quando? Virão?
Há um antigo provérbio chinês que diz: negociar é como mastigar cana-de-açúcar. Começa-se pela raiz (que é algo amarga) e continua-se pelo caule, que sabe progressivamente a doce. E como o que é doce nunca amargou, espera-se que a «mastigação» dos novos senhores deste hospital entre depressa no talo da planta. Pior seria se tudo isto fizesse lembrar uma peça de fruta que dá um trabalhão a descascar e depois não tem nada para comer.
«O Interior»

16 de outubro de 2003

16 Out 2003: A entrevista

Não é tanto pelo caso em si. É mais pela andança que deu. No fim-de-semana passado tive doze preciosos minutos de entrevista com o juiz Rui Teixeira para a Rádio Altitude, que correu o país. Não revelo o segredo por inteiro. Só admito que a oportunidade resultou, também, de compromissos: com o Clube Escape Livre (organizador da última edição da “Land Rover Rota Histórica”, em que o juiz participou), que acedeu a intermediar o contacto mediante a minha palavra e a da rádio de, mesmo sabendo antecipadamente da presença de Rui Teixeira, não a tornar pública; e com o próprio magistrado, com quem assumi o acordo de cavalheiros de tentar não tocar no tema da Casa Pia e de só divulgar a entrevista a partir da tarde de domingo, quando ele já estivesse a milhas. A conversa foi gravada às oito da manhã de Sábado, numa sala do hotel, com os omnipresentes seguranças de vigia à porta. Cordato, simples, bem-humorado, rematou a conversa com uma intuitiva verdade: “você leva aí um grande «furo»!”. Claro que não estávamos propriamente num encontro de anjinhos: nem ele ia convencido que falara apenas para os noticiários da Rádio Altitude; nem eu pensava noutro destino para a entrevista que não fosse, também, fazê-la render para dar visibilidade nacional à minha rádio. E lá fomos: ele para o todo-o-terreno no Vale do Côa; eu a fazer uma cópia de segurança e a negociar com a TSF e com o «Público» (os primeiros «contemplados») um tratamento à maneira, dada a exclusividade da «bomba». Só que uma estação de televisão também «pescou» o juiz no passeio, no dia seguinte. E fez durante toda a tarde um espavento, a garantir que tinha um «exclusivo». E não tinha. Para acabar com as manias, contactei uma estação da concorrência para ceder, se a quisessem para essa noite, a nossa entrevista. É uma aventura, telefonar para a televisão pública num domingo à tarde. A telefonista, a produtora, a colega, só um momento, a secretária da agenda. O editor do Telejornal? Nem pensar. Mas temos uma entrevista ao juiz Rui Teixeira, podemos cedê-la (ou ter a «cortesia», como se diz), porque há outra estação a dizer que a tem em exclusivo. “Rádio quê? Altitude? Da Guarda? Isso é na Serra da Estrela, não é?”. Pois. “Olhe, deixe o seu contacto”. No dia seguinte, mal a TSF abriu o noticiário da manhã com as declarações de Rui Teixeira à Rádio Altitude, foi aquela a primeira estação de televisão a telefonar para a Serra da Estrela (telefonaram todas a pedir o mesmo, incluindo a que julgava ter o «exclusivo»): queria a entrevista. Vivi um momento de deleite mordaz: expliquei-lhes que só a não tiveram antes porque não quiseram. Quinze minutos depois, ainda nem era hora de expediente, ligava-me, sem cerimónias, a conhecida directora-adjunta da estação. A forma como tinha sido atendido na véspera era grave, ia ter repercussões internas, e fazia questão de me pedir pessoalmente desculpas. Mas o dia ainda me reservava muitas surpresas. Telefonaram-me de um diário a perguntar a que horas passaríamos as declarações do juiz e qual era a frequência da rádio. Para quê? “Vamos tentar apanhá-la em Lisboa. Ou acha que não é possível?”... De outro jornal pediram-me autorização para transcrever a entrevista e ofereceram-me um cargo de correspondente, que educadamente declinei. Recebi ainda duas propostas para a rádio vender a gravação “a qualquer preço”. E atendi um responsável editorial de um semanário popularucho, enraivecido, que só queria que lhe respondesse, a título pessoal, a duas perguntas. Uma: “afinal, o Rui Teixeira é um gajo recatado ou é só um gajo porreiro, que dá entrevistas quando quer e a quem bem lhe apetece?”. Pareceu-me um gajo recatado, que faz o que entende. Outra: “E como é que uma merda de uma rádio local, desculpe lá a expressão, consegue a puta da entrevista e a malta aqui anda há meses atrás do gajo?”. Talvez porque não fazemos jornalismo de merda, acho eu, desculpe lá também o termo. Ainda faltava o tablóide que, depois de passada a gravação por telefone aí pela décima quinta cortesia do dia, quis fazer uma breve sobre o entrevistador. Idade, quantos anos de profissão, filhos, vícios, como é que consegui a entrevista e etc. Pediu-me também que recordasse «sinais particulares» de Rui Teixeira. Foi aí que me espalhei fatalmente: não soube identificar a marca de cigarros que o juiz fumava. O jornalista insistiu – mas só consegui lembrar-me de duas palavras que tinha a vaga ideia de ter lido no maço: «fumar mata». O meu perfil acabou por não vir publicado com a entrevista. E naquele dia deitei-me cedo, cansado e com uma fortíssima dor de cabeça. E a pensar que, por não prestar atenção aos detalhes essenciais, talvez nunca passe da cepa torta.
«O Interior»

25 de setembro de 2003

25 Set 2003: Um dia sem carros e trezentos e muitos sem coragem

Há uma lição a tirar do Dia Europeu sem Carros na Guarda, que é a seguinte: a cidade pode passar bem sem eles. É certo que tempo não esteve convidativo para o giro, a informação foi parca e mal distribuída, o comércio esteve isolado da iniciativa, houve gente que afastou sem cerimónia as barreiras e viram-se mais «regimes de excepção» do que seria desejável e veículos estacionados nos lugares do costume e às horas de sempre. Mas também é verdade que se provou, mais uma vez, que o trânsito automóvel é dispensável na maioria das ruas e praças onde esteve interdito. Em primeiro lugar porque há percursos alternativos que permitem circundar, sem grandes demoras, a zona antiga. Em segundo porque não existe vivência comparável à de uma cidade assim: livre, tranquila, devolvida às pessoas. Enquanto princípio, o «dia sem carros» parece exemplar. Não é só pelo lado ecológico da questão. É sobretudo pela consciência da falta de uma centralidade urbana que reconcilie os cidadãos com o espaço. Que pode, como também ficou provado, alargar-se a zonas fora da mancha medieval, fechando ao trânsito não apenas o centro histórico mas também a Misericórdia e o Largo Frei Pedro, até ao Jardim José de Lemos, criando um amplo corredor pedonal. É óbvio que estaria em causa algo mais do que a mera colocação de sinais de trânsito proibido. Seria necessário mexer na paisagem, transformar as velhas ruas em aprazíveis calçadas, inventar recantos, revitalizar espaços, criar utilidade, impor imaginação. Não seria uma decisão pacífica, evidentemente. Mas todas as cidades onde já se optou por fechar o trânsito em zonas assim tiveram em comum dois registos opostos: uma forte polémica, antes de concretizada a intervenção; e uma aceitação generalizada, depois de concluída a obra. Mas é claro, também, que algo deste género só será viável na Guarda quando houver estacionamentos a montante e a jusante. Como em variadíssimas outras coisas, basta o exemplo de Viseu para concluir que o princípio é bem sucedido. O problema é que, no nosso caso, isto tanto é válido dito agora como já o havia sido há um ano e há dois, nas anteriores comemorações do Dia Europeu sem Carros. O grave é que passaram os três anos e a Câmara, principal promotora do evento, nem um só lugar de estacionamento criou; nem uma só viela fechou ao trânsito; nem um só esboço de reanimação urbana mostrou ser capaz de iniciar nas zonas onde uma vez por ano obriga as pessoas a andar a pé. À terceira tentativa, este dia só já pode ser encarado com uma operação de demagogia e hipocrisia política. Porque a seguir continuará tudo na mesma: a Rua do Comércio, encerrada durante o Verão, reabrirá ao trânsito, à força de abaixo-assinados; a Praça Velha não deixará de ser um vergonhoso depósito de automóveis; e a construção de um silo-auto, sob o Jardim José de Lemos ou noutro lugar qualquer, nunca passará de um esquisso. Daqui a um ano teremos outro dia europeu sem carros. E, até lá, mais trezentos e muitos dias sem coragem.
«O Interior»

18 de setembro de 2003

18 Set 2003: A dor de cabeça

É provável que o presidente da Administração Regional de Saúde do Centro tenha voltado a munir-se de aspirinas. Há um ano desabafava que o Hospital da Guarda lhe provocava dores de cabeça maiores do que, por junto, os restantes trinta hospitais e a centena de centros de saúde que tem a cargo. Mas depois de achado um director clínico, contratada meia dúzia de pediatras, montado um TAC e resolvidas umas minudências, julgou poder dormir descansado. Quando perguntava como andavam as coisas, asseveravam-lhe que corria tudo no melhor dos mundos. Recebia uma porção de cartas, denúncias, reclamações e duplicados de participações a manifestar sintomas do contrário mas tentava-se a crer no diagnóstico que a administração do hospital lhe passava: eram jogos florais sem consequência, organizados pelo grupo dos comunas do costume. Nada que pudesse comprometer substancialmente a harmonia reinante ou impedisse o patrão da saúde na região de declarar, como o fez há poucas semanas, que este hospital não voltara a causar-lhe cefaleias nem insónias. Parece que atraiu um achaque: nos dias seguintes percebeu que aquilo que se passa no hospital da Guarda é paz podre. O rastilho do serviço de radiologia era só um de muitos. O incêndio acabou por pegar neste por culpa, sobretudo, de uma boçal ausência de frontalidade: em vez de aclararem com a directora do serviço as desconfianças que persistem pela sua ligação ao sector privado, escolheram desautorizá-la dentro da própria unidade; em vez de admitirem que nunca se fariam rogados a conceder-lhe a licença sem vencimento (como concederam), deixaram que a médica caísse na ingenuidade de retirar o pedido, por incentivo do director clínico; em vez de lhe confessarem que a simpatia que nutre pelo PS também fez dela o elo mais fraco neste processo, preferiram retirar-lhe o tapete sem cerimónia nem satisfação. Resultado: puseram uma boa parte do corpo clínico a exigir explicações e a ameaçar com pedidos em bloco de licenças sem vencimento, greves de zelo e saídas para outros hospitais. A administração declara que não ter nada a ver com o assunto e deposita-o nas mãos do director clínico, qual bomba-relógio. Este foge ao confronto, escudando-se na dificuldade de agenda. Percebe-se que vai ser a primeira vítima da «chicotada psicológica» que está a ser preparada a pretexto de uma reorganização anual da equipa directiva (e, segundo as más-línguas, para criar um emprego de vogal). Acabaram as melhoras do presidente da Administração Regional de Saúde. Daqui para diante, vai precisar de uma grande dose de auto-medicação para conter a cefalalgia aguda. E perguntam: o que teremos nós a ver com estas tricas? Temos tudo. Em primeiro lugar porque se trata de um serviço público. Em segundo porque anda toda a gente a falar do hospital novo, do terreno para o hospital novo, da cor das paredes do hospital novo, sem que se observe a questão essencial: para que precisamos de um hospital novo?
«O Interior»

21 de agosto de 2003

21 Ago 2003: Responsabilidade, estranho termo

Eis um estranho termo para os nossos costumes: responsabilidade. As desgraças e adversidades que se sucedem em Portugal, das cheias às vacas loucas, de Entre-os-Rios aos incêndios, arrastam consigo duas consequências típicas. A primeira é o festival de acusações, o circo político e mediático, a orgia das promessas, o desassossego de mostrar serviço. A segunda virá quase de seguida: tudo cairá num irreparável esquecimento, logo que não seja notícia. Deixem chegar a rentrée dos partidos, do futebol, do Big Brother e da pedofilia. Ninguém mais reparará no manto negro que cobre o país. Às primeiras chuvas, lá para Outubro, não se falará no assunto. E tudo o que ficar por reparar – vidas inteiras queimadas, no sentido real ou simbólico do termo – só será lembrado num próximo ano igual ou pior, quando for necessário fazer mais um exercício de expiação pelas medidas nunca concretizadas, pelas leis nunca regulamentadas, pelas promessas nunca cumpridas. Em resumo: pela sinistra ausência de responsabilidade. Que se advinha já hoje, à medida que o calor amaina e a época dos incêndios entra na velocidade de cruzeiro até ficar oficialmente encerrada e o Estado liquidar, a públicos e a privados, a factura dos meios que foram afectos a mais esta safra. Vale a pena, daqui a meio ano, ver quantas mortes terão sido ressarcidas e quantas vidas terão sido reconstruídas – e por meio de quê e de quem. Vale a pena, antes disso, ver quantas detenções de presumíveis incendiários agora efectuadas não se terão resumido à inconsequência de um acto isolado ou inimputável. Vale a pena, na próxima Primavera, ver se alguma coisa terá mudado na política florestal. Porque as pragas, sejam de Verão ou de Inverno, caem rapidamente no esquecimento. Portugal habituou-se, há décadas, a conviver com insuficiências, falhas, erros, corrupções e incompetências. Adaptou-se à ausência de um poder público forte e justo e de um poder privado fiscalizado. E, sobretudo, criou uma série de resistências e acostumou-se a dar a volta por cima apenas com a imaginação, o sacrifício e a generosidade individuais, quando falham as competências que deviam ser exigidas aos poderes estabelecidos. O país renascerá das cinzas naturalmente, deixando à vista a resignação mas também a capacidade de improviso daqueles que agora são obrigados a recomeçar do nada, alheios às discussões sobre os serviços que não funcionaram, as prevenções que não foram feitas, os alertas que ninguém levou em conta. Nestes episódios cíclicos da nossa tragédia, as personagens heróicas são, como sempre, os bombeiros. Podem ser indiciados de muita coisa. Porventura, até, de falta de preparação e erros tácticos. Mas quem somos nós para acusar gente que arrisca a vida a troco de nada? Mesmo que o sistema enferme de ineficácia, é o único que temos – e sobrevive de mão estendida e quase só à custa do voluntariado e da carolice, num país que não se digna criar corpos de bombeiros profissionais como forças de segurança pública. Quem pode, assim, atirar a primeira pedra?
«O Interior»

3 de julho de 2003

3 Jul 2003: O trivial

À porta de uma escola profissional de Viseu centenas de candidatos improvisam um parque de campismo. Hão-de ficar o tempo que for necessário para garantir um lugar elegível na lista dos novos alunos. Há anos que é assim. Na segunda noite, o número de interessados já triplica as vagas disponíveis. Justifica-se o insólito acampamento pela crescente procura de um ensino profissionalizante de um modo geral e pelo prestígio desta escola em particular. Em Portugal há cursos superiores em excesso, criados à desgarrada e sem fundamento nas necessidades do mercado. Oitenta por cento dos desempregados são recém-formados. Outros sujeitam-se a trabalhos que não têm nada a ver com a especialização na qual investiram tempo e dinheiro. O Expresso publicou, na semana passada, um retrato do ensino superior desenhado por um conjunto de empresários de primeira linha de diferentes sectores de actividade do país. Os «barões» do mercado de emprego concorrem no diagnóstico: as universidades vivem isoladas e não se preocupam com as necessidades reais; a criação de licenciaturas sem estudo do mercado gera frustração pela falta de saídas profissionais; deve apostar-se não apenas no “saber” mas no “saber fazer”. A agravar o cenário surge a prontidão que impera nas «universidades» e nos «institutos superiores» que não têm pudor em aceitar alunos com nota zero, tentando prolongar a própria agonia. Para nosso mal, instituiu-se o anátema de «privadas do interior» para designar estes estabelecimentos, onde o que se pratica é a venda de títulos académicos, mesmo que os candidatos tenham o grau mínimo de qualificação. As quarenta instituições onde isso é possível – de um incrível total de 116 universidades e institutos privados que existem no país – funcionam em maioria nos distritos do interior. A crescente oferta no sector público (que também baixou a fasquia, embora não para níveis tão escandalosos) fê-las ir à busca dos despojos para sobreviver, desfazendo-se de critérios como a qualidade ou a exigência. Temos o exemplo do único instituto superior privado na Guarda. O seu máximo responsável, molestado pelas notícias sobre as notas de acesso (entre zero e 1,5), veio contrapor que um péssimo aluno no secundário pode revelar-se um promissor estudante no superior. É uma teoria demasiado evidente: faltaria que, pagando para frequentar (por impossibilidade curricular de ingressar nos estabelecimentos que exijam nota positiva) e fazendo o favor de ajudar a sustentar o sistema, o discípulo não tivesse pelo menos garantida uma classificação auspiciosa. A imoralidade prossegue até ao termo da carreira académica. Por isso é que vão longe os tempos dos alunos às centenas (e das primeiras «fornadas» moderadamente apuradas): à fase do lançamento seguiu-se fulminantemente a do desinvestimento, na mira do lucro fácil, como aconteceu com outras «galinhas dos ovos de ouro» que a instituição criou. A massa estudantil desse instituto encontra-se reduzida a pouco mais de uma dúzia de maduros que buscam um título académico que os ponha a bem com o estatuto social ou com as exigências documentais da progressão nos serviços – são quase todos funcionários ou dirigentes públicos e, é compreensível, não fazem muita gala em admitir que frequentam um bacharelato em relações públicas.
Não se pode aferir, sem a ter visto a funcionar, a qualidade técnica e pedagógica da gorada Escola Profissional da Guarda. O mercado é que dita a sorte em função do desempenho e dos resultados – foi isso que traçou a agonia do referido instituto e de tantos, semelhantes, no país. Mas o ensino profissional é necessário. Há profissões cada vez mais requisitadas, que não se aprendem nas universidades e asseguram taxas de emprego superiores. E há uma crescente procura, que levou à exclusão de mais de metade dos interessados nos cursos profissionais, no último ano lectivo. É provável que a escola que estava a ser criada na Guarda tivesse êxito, até por ser a primeira na região centro nos últimos seis anos. Falhou, não porque o projecto fosse considerado mau, mas porque lhe foi recusado o financiamento público – exclusiva fonte de rendimento das mais de duzentas em funcionamento no país. O pior é que tudo isto é trivial, parece trivial e acaba por ser considerado trivial. A instalação do Tribunal Administrativo em Castelo Branco (facto que, em rigor, não nos adianta nem atrasa) causou quase um abalo sísmico entre as forças vivas locais. A exigência feita por Viseu para a criação de uma universidade irritou a Câmara, que reclamou também uma (que se afigura racionalmente improvável). Mas ninguém se indigna com o chumbo que inviabiliza a abertura de uma escola profissional que estava pronta a funcionar. Uma de duas: ou os cooperantes – Associação Augusto Gil, Câmara e Associação Comercial – não confiam uns nos outros; ou, sendo de suspeitar que alguém teve influência bastante para travar o financiamento, a principal promotora do projecto não está para levantar grandes ondas porque também já foi do tempo de dogmatizar que «enquanto a Câmara não for nossa, não vai mais um tostão para a Guarda». Pouca coisa mudou, desde esse tempo. Só os políticos: eram melhores, mais atrevidos.
«O Interior»

30 de maio de 2003

30 Mai 2003: O pensador no seu labirinto

– Já valeu a pena ter vindo!
Olha, pasmado, para a torre sineira da igreja. Detivera-se, numa afeição quase pueril, por causa de um ninho de cegonha. Não é que a ave pernalta estivesse fora de época ou de trajecto. Sempre aconteceu assim, chegarem nesta altura – quando estava no fim a estação das chuvas e as poeiras de Maio saravam as frieiras. O que nunca tinha visto era um ninho levantado na torre da igreja rica, a tal que o ouro do Brasil fez maior do que a aldeia, tornando-a no único vestígio que consegue perpassar, no horizonte de quem se acerca, o renque de mata espessa que parece guardar a terra na sua quietude, como que a mantê-la abrigada do mundo. Ali está o homem que tinha conseguido desbravar um carreiro, sem contar que aquilo que o esperava do outro lado fosse um labirinto. Regressa num Domingo soalheiro àquele tempo que ficara como um tempo à parte de todos os outros, anterior ao tempo em que começara a ser interpelado pelo mundo. Da lenda da infância reconhece quase tudo: a paisagem, os sítios, as memórias. Menos o ninho da cegonha, à vista do qual se faz retratar, numa mítica exultação que o reconcilia com o lugar.
– Já valeu a pena ter vindo!
A aldeia existe, afinal. Ele pensava que era como a madeleine de Proust. Que, tendo as pessoas morrido ou ido embora, todo o lugar tivesse partido com elas, não restando senão paisagens. Mas, de súbito, há um som que ecoa no povoado e lhe toca fundo na alma, como se fosse o rumor invisível das falas da lembrança. Vem da mesma torre – e do sino que há oitenta anos já marcava o tempo daquela maneira. No compasso da melodia, todo o passado se faz presente. Eduardo Lourenço redescobre, então, o seu pequeno grande mundo, depois de oito anos de ausência. Agora, por fim, consegue cumprir o desejado passeio silencioso a São Pedro do Rio Seco, sem as honrarias que o intimidam, como da última vez, quando ali esteve a ser homenageado. Precisava fazer um regresso em sossego. Para, como Machado de Assis, atar as duas pontas das vida – a do nascimento e a do crepúsculo – num só nó.
Assim redescobre os sítios, as vivências, as paixões. Acede, em parte da viagem, a ter-me como visitante e a falar-me apaixonadamente sobre este lugar que diz estar sempre à margem do labirinto ou a explicar-me a sua visão mítica do destino português. Desse percurso pelo tempo de Eduardo Lourenço passo a guardar religiosamente duas horas de gravação (de que passei curtos mas expressivos extractos na Rádio Altitude, na última Segunda-feira) mas registo bastante mais: a luminosidade do pensamento, a erudição despretensiosa, a grandeza humilde. Uma lição de vida, por um homem sábio e modesto, que se diz atento aos outros e distraído de si.
A simplicidade, de facto, nunca é simples. E só está ao alcance de alguns.
«O Interior»

23 de maio de 2003

23 Mai 2003: Da bola

1. Ninguém tem nada com isso mas do meu círculo de familiares, amigos e conhecidos sou o único que não gosta de futebol, que não tem clube, que nunca terá olhado mais de cinco minutos para o mais empolgante desafio que pudesse ter passado na televisão, que não foi assistir ao Portugal-Noruega e que se esteve a borrifar ontem para o resultado do Porto em Sevilha – e tanto me dá que fosse o Porto como a Selecção. Há quem tente convencer-me, de modo recorrente, que isto configura um desvio insanável na minha personalidade e pode, numa decomposição de psicologia selvagem, acusar um lado gay. Preocupado com esta conjectura, já procurei afirmar-me num interesse clubístico. Como a Desportiva não arranca e o Mileu está na desgraça, tentei prestar alguma atenção ao Sporting. Não sei porquê, foi um feeling: há naquele clube um sentido de organização e qualquer coisa de cosmopolita que me agradam, mesmo que não saiba, sequer, dizer de seguida o nome de três jogadores. Mas ainda não tinha assente a preferência e já estava a ser insultado. Até o meu filho de quatro anos fez uma birra (diz-se do Benfica). Desisti e devolvi-me à matriz agnóstica. Sinceramente também não percebo donde pode provir uma preferência clubística. É-se de um partido político por aproximação ideológica, por opção programática ou, vá lá, por mera conveniência. Mas é-se adepto de um clube de futebol porquê? Seja o que for, funciona. Basta ler a quantidade de manifestações por escrito, na página ao lado desta na última edição do «O Interior», contra uma crónica de António Ferreira sobre pretensas razões para odiar o Futebol Clube do Porto. Os jornais e as rádios bem se esforçam para promover a discussões públicas – sobre política, sociedade, identidade, educação, desenvolvimento, futuro – e é tudo arrancado a ferros. Mas fala-se da bola e é página cheia.

2. Ainda assim, sou capaz de reconhecer que o não existir uma equipa de futebol que represente a Guarda a não ser nos campeonatos da bolinha é um sinal de incapacidade e um reflexo do estado da cidade. Tivemos a Desportiva. Serviu para tudo e a todos. Facilitou negociatas e cobriu lavagens de dinheiro. Auxiliou partidos e consagrou políticos. Chegou a ser tirocínio de candidatos à Câmara. Caiu quando deixou de servir aos mesquinhos interesses privados que se confundiam com a razão de ser do clube. Foi de usar e deitar fora. Tivemos o Mileu. Tentou ocupar um espaço vazio. Foi um acidente de percurso num clube de bairro. No dia em que uma equipa de futebol voltar aos campeonatos com a camisola da Guarda vestida, isso significará algo mais do que o início de um mero desafio de futebol – será o remate de um desafio à nossa própria auto-estima. A bola, neste caso, é o que menos interessa.

3. Mas os clubes vivem numa escandalosa dependência do subsídio e, à mínima contrariedade (ou quando os resultados não surgem), é para as câmaras que costumam virar-se, com uma mão estendida e a outra a apertar o gatilho. A realidade no distrito é perniciosa: aos dezanove clubes que participam com equipas seniores na primeira divisão distrital e na terceira nacional, as câmaras atribuem este ano, no conjunto, perto de um milhão de euros. Estes subsídios vêm contabilisticamente declarados como auxílios à formação, apoio ao desporto ou comparticipação às camadas jovens, entre outras metáforas que disfarçam a realidade que assenta no financiamento de equipas e campeonatos. Sem contar, claro, com tudo o resto: os estádios ditos «municipais», onde ninguém mais ousa pôr o pé; os funcionários; os transportes por conta. Política e bola são dois poderes que andam de braço dado – porque, em regra, o primeiro se submete aos desígnios do segundo na mira de receber em votos o preço de uma associação muitas vezes suspeita e quase sempre pouco saudável.

16 de maio de 2003

16 Mai 2003: A bem do próximo

Quem diz “radares.net” diz também “radares.com” ou “condutores.pt”, indo só aos que têm melhor apresentação. Mas há uma vastidão deles onde é só entrar e dispor. Ancorados no conceito constitucional do direito ao livre pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, fornecem-nos informação classificada como «serviço público»: a localização dos radares da polícia, a identificação dos carros à paisana que a GNR e a PSP usam na vigilância dos condutores e dicas sobre o modo de fuga. A comunicação é estática (na consulta ocasional dos conteúdos) ou interactiva (na subscrição de boletins diários por correio electrónico ou alertas de última hora por mensagens escritas para o telemóvel), o que pode revelar-se de uma utilidade impagável, se à hora certa e ao local apropriado chegar um aviso como este: «EN 17. Localidade da Carrapichana. Centro da localidade, limite 50km/h. Nissan Primera branco com radar móvel, atrás de um muro de pedra (muro do canil) numa curva, impossível ser visto». Ou como este: «IP 2. Saída Fundão-Covilhã. Saída da auto-estrada. Agente da BT à civil sentado numa cadeira de praia debaixo de uma ponte com radar fixo. À saída para rotunda estão outros a mandar parar». Ou este: «IP 5. Saída 26 para Porto da Carne. Nissan Sunny branco com radar fixo». Sei que, ao sair de casa e aventurando-me nas redondezas, terei estes anjos-da-guarda a velar pela minha carteira e pelo meu cadastro. E, bem vistas as coisas, pela minha segurança. É mais provável que me contenha a 50 quilómetros por hora na rua principal da Carrapichana por saber que há polícias escondidos detrás do muro do canil do que pela consciência cívica de que esse é o limite que estou obrigado a respeitar dentro das localidades. Do meu ponto de vista vai ali um condutor exemplarmente e imperiosamente cumpridor; do ponto de vista dos transeuntes da Carrapichana está ali uma estrada segura; do ponto de vista dos polícias está ali um dia perdido; e do ponto de vista destes altruístas incógnitos vai ali mais uma boa presa da caça à multa que consegue pôr-se a salvo. A primeira razão de existir deste big-brother é livrar-nos do predador. Não porque incite à desobediência, antes pelo contrário. Uma característica que estas fontes de informação têm em comum é o apelo, documentado com leis da República, ao cumprimento das regras da estrada. Nesse aspecto, arrumam num canto a Associação dos Cidadãos Auto Mobilizados e outras organizações sérias. Mas a coisa pára aí. Este conceito de «serviço público» inclui os truques para burlar os diferentes tipos de radares, indicando com preciosa exactidão as distâncias que efectivamente cobrem e a que velocidade “disparam”. E previne-nos contra as manhas da GNR: o Ford Fiesta vermelho com mais de dez anos que costuma estar parado na berma do IP5, de capot levantado, a fingir avaria (e a esconder um radar); as carrinhas Ford Transit brancas; o Toyota Corolla azul com um radar que «parece um agente com cabeça quadrada sentado no lugar do pendura»; ou o Volkwagen Golf cinza escuro «que costuma ser conduzido apenas por um agente, para não levantar suspeitas». Isto numa lista de quase duas centenas de veículos a patrulhar o país, identificados por modelo e matrícula. É difícil avaliar a veracidade da informação que se recebe assim. Mas não é difícil perceber que somos uma gente eternamente em conflito com a lei. Cá no fundo, um bando de vigaristas sem vergonha nem respeito pelo próximo. Mas há casos em que a vigarice é a bem do próximo.
«O Interior»

9 de maio de 2003

9 Mai 2003: Ah, Valente!

O meu candidato à Presidência da Câmara da Guarda é, provavelmente, Joaquim Valente. Que me perdoem, no PS, Álvaro Guerreiro, António Saraiva, Fernando Cabral e José Igreja e, no PSD, Crespo de Carvalho, que sonham ver o próprio retrato no cartaz. Já nem ponho como cenário que Maria do Carmo Borges e Ana Manso bisem o despique. Tenho visto piores ódios terminarem em sociedades anónimas e não me espantará que, nos dois anos que faltam, as duas abandonem a vida política, façam as pazes e obtenham juntas o franshising da Cortefiel e da Zara para os distritos da Guarda, Castelo Branco e Viseu, tornando-se empresárias de sucesso e nas maiores empregadoras do sector terciário na região. Maria do Carmo já anunciou que sai. E, na ausência da adversária a quem destinou quatro anos de marcação cerrada, uma nova candidatura de Ana Manso não teria jeitos de ser digna ou interessante. Acredito que, desta vez, a presidente da Câmara fale a sério: se há dois anos não teve outro remédio senão aligeirar o tabu e seguir em frente, agora o alfobre de candidatos que Esmeraldo Carvalhinho dizia ter para as últimas eleições autárquicas já medrou e está na altura da colheita. Obviamente, excluiu-se ele próprio da corrida. Ao contrário do que se possa conjecturar, Carvalhinho não quer ser presidente da Câmara, ou melhor, quereria mas tem a consciência de que não seria candidato para vencer. Correu para a presidência da concelhia do PS a tempo de se impor a novo mandato em lugar elegível (pressentindo que tentariam sacrificá-lo pela porta baixa) e passou o testemunho quando o poder (pelo menos o poder eleito) deixou de lhe interessar: daqui para a frente lavará as mãos e gozará o estatuto de rapaz novo e com boa reforma. A apuradíssima intuição política – que muitos achavam improvável – é, afinal, o que o tem distinguido dos pares. Talvez para triunfo de Esmeraldo Carvalhinho, Joaquim Valente foi arrancado desse alfobre e enxertado à força noutra leira, antes das últimas eleições. O que, vistas agora as coisas, nem foi o pior que aconteceu ao antigo número três da Câmara: a imolação em Celorico da Beira acabou por lhe dar uma aura de herói. Depois, a forma comedida como tem gerido o lugar na administração do Polis permitir-lhe-á sair a ganhar, seja qual for o resultado da revitalização urbanística que é suposto ter fim a poucos meses das eleições. Se a coisa correr bem, poderá com alguma legitimidade proclamar-se pai da ideia – e recordar que foi ele quem arrancou este investimento para a Guarda, por conta de longínquas e académicas noitadas de copos e miúdas com o colega de curso Pinto de Sousa, mais tarde conhecido por José Sócrates. Se correr mal, invocará a mesma coisa – mas lamentará que outros tenham gerido com tanta imperfeição as suas boas influências. Mas o que mais conta, agora, é a conquista recente da nossa auto-estima: um jogo internacional de futebol com transmissão televisiva. Praticamente todos os dirigentes políticos da Guarda passaram pelo tirocínio da bola, obrigatório para quem anseia dar nas vistas. Em 1989, quando o PSD escolheu o médico Raul Saraiva para candidato à Câmara, mexeu primeiro os cordelinhos para o pôr à frente da defunta Desportiva da Guarda, na busca de protagonismo. Mas nunca ninguém chegara aonde Valente chegou, como presidente da inócua Associação de Futebol da Guarda. Já tínhamos percebido que ele usa o cargo para se insinuar na alta-roda da tribo do futebol, em vez de ficar aqui a aturar as tricas dos matarruanos dos campeonatos distritais. Eis o resultado: como os próprios dirigentes da Federação reconheceram, o Portugal-Noruega só veio porque o homem da Guarda não lhes largou o juízo. E mal terminou, já prometeu trazer um Portugal-Espanha em selecções principais. Como o futebol induca e instrói, Joaquim Valente poderá ter, a fazer mais destas, toda a região na mão. Mas o que isto também revela são qualidades cujo reconhecimento é transversal a adeptos e a não-adeptos: a persistência, a organização, o talento empreendedor. Não se pode esperar melhor de um autarca. Faz lembrar Joaquim Morão, tido há décadas em Lisboa como um chato do caraças, que não sai de ao pé da porta dos ministérios. Assim se fez autarca-modelo, por tudo quanto realizou em Idanha-a-Nova e tem vindo a realizar em Castelo Branco. Modelo, ainda por cima, Joaquim Valente parece que já é: amigas minhas, a quem tenho manifestado esta teoria política, dizem que ele tem argumentos cuja apreciação obviamente me ultrapassa. Vai estando, então, na altura de lançar a discussão. Eu, se tivesse o costume de votar (coisa que deixei de fazer há anos), votava em Joaquim Valente.

2 de maio de 2003

2 Mai 2003: Voltará tudo ao mesmo?

É bem verdade que o pobre deve sempre desconfiar quando a esmola é grande. Não vai passado um mês desde a abertura da urgência pediátrica no Hospital da Guarda e já é notícia que pelo menos uma médica está de malas feitas. Uma de duas admitidas em concurso externo para o quadro – nem sequer é das recém-chegadas à profissão, que chegaram aqui constrangidas a aceitar uma colocação por exclusão de partes. Esta, ao que parece, está disposta a trocar um vínculo definitivo à Função Pública – que conquistou com a vinda para a Guarda, depois de ter cumprido o tirocínio num hospital do Norte – por uma situação contratual menos firme mas que, em contrapartida, a coloca a dois passos de casa, ao invés de percorrer centenas de quilómetros todas as semanas. Pelos vistos não é a única. Há pelo menos um caso mais de possível dissidência, mal estejam cumpridos os pressupostos com que outra das médicas acedeu a preencher um dos lugares criados ao abrigo do regime dos hospitais carenciados: ter-lhe-ão prometido uma vaga no hospital pediátrico de Coimbra, na unidade onde iniciara a especialização, como alvíssaras pelo «favor» de uma breve e apaziguadora passagem pelo Sousa Martins. O estranho é que tudo isto tenha vindo ao de cima em tão pouco tempo. Fica-se com uma impressão de paz podre, de incapacidade, de déjà-vu. E dá-se, inevitavelmente, razão àqueles que viam na neófita equipa da pediatria uma manta de retalhos, sem padrão nem nexo, tecida à pressa para fazer número e mostrar serviço. É claro que não seria justo ignorar o mérito da aparência: em poucos meses, o hospital da Guarda conseguiu trazer o maior número de sempre de pediatras e esforçou-se por operacionalizar o serviço. Mas as verdadeiras questões radicam na substância das coisas. Quem garante que esta equipa não ficará devassada pelo êxodo, voltando tudo ao mesmo? Agora percebe-se que os partidos do governo tenham passado com tanta discrição ao lado do assunto. O conselho de administração do hospital fez por conta própria a volta imperial, exibindo a urgência pediátrica à comunicação social como a mais gloriosa – e até aí improvável – conquista. E ninguém ouviu os dirigentes do PSD nas falas do costume, procurando capitalizar a promessa cumprida em comunicados e conferências de imprensa. Está explicado: faltou-lhes o ímpeto da convicção. O silêncio não é a encenação – é o embaraço.
«O Interior»

25 de abril de 2003

25 Abr 2003: Uma no cravo, outra na ferradura

1. Não se percebe se a demora na solução do problema da pediatria foi falta de jeito, ausência de coragem ou azar de conjuntura. Mas por fim o Hospital da Guarda tem o maior número de especialistas que alguma vez se imaginou e pôs a funcionar uma urgência pediátrica durante 24 horas, mais cedo do que o anunciado. É um mérito que não pode deixar de ser reconhecido e que tem no rosto hirto e na voz densa de Isabel Garção a protagonista primária deste sucesso, haja ou não virtudes difusas. Em menos de um ano, a directora do hospital operacionalizou o serviço, sabendo tirar franco proveito do estado de graça que a Administração Regional de Saúde lhe concedeu. Claro que há questões laterais que vão ficando sem resposta. Ninguém garante, por exemplo – nem mesmo as próprias –, que dentro de meio ano algumas das pediatras recém-formadas não regressem a casa, cumprido que estiver o tempo de permanência mínimo num hospital carenciado para obterem vínculo à Função Pública. Mas esse será só o desafio seguinte. O primeiro de todos – o mais difícil – está ganho. E enquanto o pau vai e vem, sobra tempo para abrir as janelas e deixar entrar o ar fresco que limpe o bafio e quebre o enguiço.

2. Ninguém será tão cândido ao ponto de acreditar que o hospital tenha aberto por mera casualidade sete vagas de quadro para auxiliares de acção médica e que também só por acaso seja esse, numa pesquisa a olho nu, o número de candidatos facilmente reconhecíveis das claques do PSD, incluindo primas e conterrâneos de figuras de proa do partido, inócuos dirigentes da jota e o próprio adjunto do governador civil – porventura o mais notório destes aspirantes a assistente de limpezas. Não está em causa, evidentemente, a dignidade de tal tarefa hospitalar. Pelo contrário: muitos dos que concorreram (e parece que passaram a centena) tomam-na como uma profissão honrada e, mais que tudo, anseiam que lhes seja dada uma oportunidade para a cumprirem com zelo e integridade, mesmo que pareça desprovida de relevo social. Mas também não é isto que procuram, certamente. Candidatam-se a auxiliares de acção médica – um silogismo que dissimula os trabalhos mais incómodos que há para executar num hospital – como a tudo o que lhes apareça, sem se fazerem rogados quanto ao conteúdo funcional da tarefa. Quem? Os desempregados de longa duração, os recém-formados sem colocação e os dispensados do sector têxtil, ainda à espera das apregoadas medidas de apoio social e de reinserção no mercado. Queriam um trabalho, um modo de auto-estima, um meio de subsistência. Cruzaram-se todos, na lista dos cento e muitos que concorreram a sete lugares de auxiliar no Hospital da Guarda. A esses devia ter sido explicado, com tangível decoro, que não valia a pena o incómodo. Que primeiro há que cuidar da prole. Que os lugares de nomeação não são eternos nem impermeáveis à incompetência. Que é premente obter para os nomeados, o quanto antes, a carta de alforria que os ponha a coberto da inutilidade futura. Que tudo não passa de um disfarce (bem menos recatado do que presumiriam à partida) para alcançarem, sem esforço e num jogo viciado, o inestimável vínculo ao Estado, de onde se farão requisitar, transferir, deslocar e promover – até que o azar lhes bata à porta, num dos inevitáveis ciclos pendulares da «alternância democrática». Na pior das hipóteses, sempre poderão agarrar-se aos lugares que agora estão prestes a extorquir, sujeitando-se à limpeza e ao transporte de doentes por algo mais do que o salário mínimo, até que cheguem melhores dias. A questão é que alguns deles – mesmo os que já levam larga experiência de serventia – nem a tanto aspirariam, se fossem opositores num concurso a sério. Quem disse que o governo social tinha acabado?
«O Interior»

4 de abril de 2003

4 Abr 2003: «Terapia» preocupante

A Polícia Judiciária passou revista à Aldeia SOS da Guarda e a uma quinta, nos arredores da cidade, que é utilizada nas actividades de tempos livres das crianças. A pacatez dos costumes foi abalada por revelações que fazem estremecer: há indícios de alegados maus-tratos, agressões e rituais diabólicos. É verdade que tudo não passa de suspeitas. E é certo, também, que os visados – o casal que dirige a Aldeia e um monitor de nacionalidade brasileira – não viraram a cara aos acontecimentos, tendo prestado esclarecimentos, por exemplo, à reportagem da Rádio Altitude que esta semana tornou o caso público. Negaram todas as conjecturas, mesmo as que pudessem ser associadas ao facto de um número invulgar de agentes da Polícia Judiciária – doze, no total – se ter apresentado, munido de mandado de busca às casas que actualmente acolhem perto que quarenta crianças e jovens abandonados ou sem família. Tudo não passará, segundo os responsáveis, de denúncia caluniosa, instigada por antigos residentes ou por outra gente que costumava gravitar na Aldeia, num esquema de tráfico de droga a que a instituição terá conseguido pôr termo há pouco tempo. A simples menção da existência desse problema dentro de muros já é preocupante. Mas pior é a revelação de alguns métodos usados pelo especialista de «terapia ocupacional» que surge como principal visado nesta história. O próprio admitiu ser seguidor de uma disciplina feita de maneiras rígidas, escudando-se, em tudo o mais, na autoproclamada condição de «perseguido em nome de Cristo». Mas os depoimentos de antigos e actuais residentes, que a Rádio Altitude tornou públicos ontem pela primeira vez, revelam uma moldura bem menos católica. Entre os castigos alegadamente impostos, contam-se práticas escabrosas que nenhuma «terapia» pode legitimar: testemunhos de crianças arrastadas pelos cabelos, sujeitas a trabalhos forçados debaixo de chuva ou atemorizadas com morcegos vivos introduzidos nos quartos. À medida que se avança nesta história, maior é a surpresa e maior é o desejo de descrença. Estamos a falar de crianças e jovens em risco, que procuram uma vivência em família, antes desconhecida ou interrompida de modo traumatizante. E de uma instituição cuja acção social tem que estar acima de qualquer suspeita. O mínimo que se pode esperar é que a investigação policial seja célere e consequente, para o bem ou para o mal. É provável que estejamos a assistir só ao começo de um longo folhetim, onde o mais difícil será distinguir a verdade da mentira, a realidade da especulação. O que nos faltava agora era ter um drama do tipo Casa Pia à beira da porta.

28 de março de 2003

28 Mar 2003: Salvem o burro

O burro não merecia tal dita. Foi albardado à vontade do dono e arrebanhado à força para uma campanha de alfabetização que dá do equídeo um traslado impróprio e infundado. E, pior que tudo, injusto. Agora é que a tonta liga protectora dos animais, a tal que bramiu contra o suplício do galo na Segunda-feira Gorda, devia escrever à presidente da Câmara da Guarda e às demais forças vivas. Porque uma coisa era o burro do PREC, o das campanhas de dinamização cultural dos idos de setenta, que deu voltas ao mundo no retrato a preto-e-branco com a tabuleta dos dizeres: «Eu também quero ser alfabetizado». Era uma época de devaneios. E o asno um oportunista da nova situação, como tantos. Porventura franco na desobriga da insciência mas, ainda assim, um vira-albardas torpe e ordinário. Outra coisa é o nosso burro – de outra geração, de melhor raça e de linhagem distinta. Ir buscar a inspiração à famigerada imagem do insurrecto jerico alentejano para também arrear o da Guarda com um letreiro é um insulto. E plantá-lo, da maneira como está, à porta da Câmara, a afilar para a Livraria Municipal, é uma desonra, maior ainda nestes dias em que chove até os burros beberem de pé. Sabem o que escreveram no dístico? Qualquer coisa como: «Não façam como eu, leiam livros». Que infâmia! Que ignomínia! Ò primeiro, este burro não é tão velho que não leia nem aprenda línguas. Como a própria presidente da Câmara esclareceu, o animal entrou ao serviço no último Natal (foi encomendado para fazer de burro no Presépio) e, que se saiba, existe um limite máximo de idade – e uma escolaridade mínima obrigatória – para ingressar na Função Pública. Ò segundo porque, se dela não faz parte, pelo menos convive hodiernamente com a elite do Paço da Cultura, de onde foi mandado para a esquina da livraria. Ou seja: ainda que permaneça oculto na arrecadação (com a vaquinha e as demais figuras) só não se deixa embrenhar naquele ambiente privilegiado se for mesmo burro. Tem a oportunidade de aprender a preparar uma boa programação cultural, assistir a ensaios, percorrer exposições e devorar quantos exemplares quiser da Agenda Cultural. Não é como esses burros que falam mal da política cultural da autarquia. Até por isso, o jumento merece todo o respeito. E também porque pertence a um ramo em vias de extinção do ancestral mamífero perissodáctilo. Sendo uma espécie protegida, maior é a obrigação de o manter a coberto da doença. Se existisse visão estratégica, a Câmara, em vez de um, teria adquirido vários. E como há fundos comunitários para a preservação de espécies ameaçadas, resolvia o buraco orçamental. Porque, como a própria presidente declarou na entrevista que concedeu sobre os trabalhos do burro, o importante é potenciar os recursos disponíveis. Deixe-se ir sempre nas conversas do albardeiro e depois queixe-se. Lá diz o povo: burro morto, cevada ao rabo.
P.S. – Obrigado ao burro, mesmo de papel. A guerra é lá longe.
«O Interior»

21 de março de 2003

21 Mar 2003: Quatro coisas

1. Uma coisa, aceitável, é duvidar dos critérios de preferência assumidos pelo Ministério da Saúde. O terreno escolhido para o futuro hospital da Guarda podia estar no rol dos improváveis lógicos, por uma série de razões. Tem vistas para o cemitério novo (não é, convenhamos, a cercania apetecida) e fica localizado numa zona de duvidosa expansão. E expansão quer dizer acessos, proximidade, integração. Dê-se a volta que se der, o crescimento da cidade é feito no sentido da estação e da Sequeira. Basta levar em conta o erro crasso já cometido com a construção do Instituto Politécnico: quase duas décadas depois, a Quinta do Zambito permanece num gueto, desgarrada da cidade. Maior sentido fará, por isso, que um complexo hospitalar seja projectado para a periferia do núcleo urbano, embora num local de previsível desenvolvimento, com bons acessos e bem servido por transportes públicos. Como se fez, por exemplo, na Covilhã e em Viseu – e como se faz pelo país fora. Porque um hospital não tem que funcionar como uma instituição de bairro, que precise de estar à mão. Aliás, um hospital nunca pertence verdadeiramente à cidade que lhe dá nome, mas a toda uma região que serve. Deve, por isso, estar próximo dos eixos viários de saída, fugindo ao tráfego de centro urbano. Vistas assim as coisas, a Quinta da Maúnça, já que se tornou num elefante branco para a Câmara, podia ter sido a escolha razoável, até pela vizinhança das duas auto-estradas que formarão, não tardará muito, a verdadeira cintura rodoviária da Guarda.

2. Outra coisa, lógica, é achar que, tendo a Câmara terrenos próprios onde só seria necessário construir acessos e infraestruturas, não faria sentido comprar a terceiros. Muito menos por sugestão – ou imposição – do próprio Governo, que exige contenção e proíbe o endividamento das autarquias. Este hospital necessita, dizem os técnicos, não menos de oito hectares. Quando pode custar uma área assim? Escrever milhões será exagero?

3. Outra coisa, conjecturável, é a teia de interesses que já se formou em torno deste negócio. Seria interessante averiguar quantas transacções de terrenos situados nas proximidades do Torrão terão sido iniciadas só desde que o ministro anunciou a localização do hospital. E quantas vezes o proprietário da parcela escolhida já terá usado a divulgação pública da decisão como garantia de “lucros emergentes” junto da banca e de credores. Mais. Seria, até, um acto de utilidade pública apurar quem comprou o quê e quando – bastará ter como referência os últimos doze meses – no perímetro ou nas imediações de cada um dos terrenos apontados como possíveis para a localização do hospital. Este podia ser, aliás, um exercício de lógica aplicável também a outras obras, como a Plataforma Logística ou as estradas projectadas (a variante da Sequeira, a alameda da VICEG e outras). As ilações seriam, provavelmente, embaraçosas.

4. Outra coisa, previsível, é a forma como a Câmara sai mal desta história, acabando vítima do espavento que armou. Seis terrenos para quê? Bastaria reduzir a metade as possibilidades – o Parque da Saúde por opção política, a Quinta da Maúnça por não ter custos e uma terceira, a adquirir, para desempate – e obrigar o Ministério a escolher uma. Mas não. Maria do Carmo Borges foi alargando a oferta e subindo a parada. Ficou célebre a declaração na Assembleia Municipal: a Câmara endividar-se-á, se fosse preciso. Agora, só pode queixar-se de si própria. E por maior que seja a legitimidade do protesto contra a forma como a decisão foi anunciada (num comício do PSD e antes de ter sido dado conhecimento à própria autarquia) a imagem que passa é o rompimento de uma promessa. É como se o anfitrião pedisse aos convidados para jantar que escolhessem o restaurante – e a seguir dissesse que «não gosto desse aonde querem ir e não me consultaram, por isso não pago!». Com estes tiros no pé, que a presidente da Câmara dispara, bastaria a Ana Manso manter-se calada para alcançar aquilo que deseja.
«O Interior»

7 de março de 2003

7 Mar 2003: Maria da Fonte

Qual Maria da Fonte, Ana Manso armou-se contra todos os que são falsos à ideia de um distrito uno e indivisível, do Douro à Malcata. É justo reconhecer que, desta vez, a líder distrital do PSD surpreendeu pela positiva. Habituados à fala arruaceira e a conferências de imprensa onde debitava monólogos inúteis, vemo-la agora, por fim, mostrar que também sabe dar substância às coisas. O documento que apresentou no início da semana foi a primeira orientação conjunta dos municípios do distrito sobre a criação de comunidades urbanas. Ao tê-lo feito assinar pelos presidentes de doze das catorze câmaras, excluindo apenas os eleitos pelo PS (um porque não quis, outra porque não soube), Ana Manso alcançou o improvável: uniu, à volta do conceito de inviolabilidade das fronteiras do distrito, quem até já se tinham manifestado de maneira diferente. O presidente da Câmara de Manteigas e da Associação de Municípios da Cova da Beira, por exemplo, é o principal promotor de uma reunião marcada para o dia 20 em Belmonte, com as vinte e cinco câmaras dos distritos da Guarda e de Castelo Branco, para defender uma comunidade intermunicipal. O de Aguiar da Beira afirma-se disponível para pertencer a uma futura área metropolitana de Viseu. O de Gouveia e o de Fornos de Algodres também não enjeitam a ideia. E o de Foz Côa declara-se mais transmontano do que beirão. Mas assinaram todos a declaração de princípios que a dirigente do PSD agora exibe como um troféu. Reclamam um distrito unido, na base do qual se formará uma comunidade urbana liderada pela Guarda. Tê-lo-ão feito de ânimo leve, convencidos de que não passava de uma folha inconsequente e condescendendo em ajudar a deputada noutra das suas tropelias contra o PS e a «inimiga»? É possível, sabendo eles de antemão que o município apontado como capital da putativa província foi o único mantido propositadamente à margem da iniciativa. Percebe-se que Ana Manso procurou surpreender Maria do Carmo Borges, tentando chamar a si o protagonismo do processo – não fosse a presidente da Câmara mexer-se e antecipar-se na liderança que a adversária a pode agora acusar, com alguma legitimidade, de não possuir. Ou seja: fica a ideia de que tudo se resumiu à trica partidária, em que nenhum dos intervenientes deixará de pensar e dizer, à primeira oportunidade, da maneira que lhe der na real gana – diferente, se for necessário, da que ficou escrita neste «documento dos doze». No dia seguinte, em Manteigas, viu-se qual era a real valia dos argumentos: o secretário de Estado da Administração Local, autor do esboço da lei que prevê comunidades urbanas e intermunicipais, respondeu que os distritos são coisa do passado, que nada têm a ver com os novos eixos sociais, económicos e afectivas que se formaram dentro do território. Um dos subscritores da véspera era o anfitrião da visita. E não disse que não, antes pelo contrário.
«O Interior»

28 de fevereiro de 2003

28 Fev 2003: Afectos compulsivos

Com o compromisso normalmente associado a actos para inglês ver, a Câmara da Guarda atirou para detrás das costas, na última sessão, os estudos prévios para a construção de um parque de estacionamento debaixo do Jardim José de Lemos, pedindo aos técnicos que continuem a imaginar a melhor forma. A proposta – um tanto voluntariosa – de um engenheiro de trânsito e do vereador do pelouro foi agendada mais por complacência do que por convicção, já que ocupara horas de trabalho de um serviço da autarquia. Mas ao perceber que a ideia suscitava interesse a presidente da Câmara ficou apavorada e propôs arrumar o assunto. Pelos vistos, Maria do Carmo tem «razões afectivas» que a poderão levar, se os técnicos insistirem, a barricar-se no jardim, pondo-o a coberto de qualquer investida de requalificação. É bom que se diga, sem rodeios, duas coisas. A primeira é que, independentemente dos afectos, o Jardim José de Lemos é um espaço feio, incaracterístico e caduco, a precisar de reforma. No Inverno é um lamaçal, no Verão é poeirento e falta-lhe o essencial para assumir a centralidade que o local merece: espaços de lazer, organização e animação. A segunda vem como consequência: onde agora está o jardim podia estar uma praça devidamente equipada, assumida como autêntico – e, de certo modo, majestoso – centro cívico da cidade. Com espaços verdes, desde logo. Mas também com tudo o que falta para lhe dar vida e utilidade. E, é claro, integrado num plano de requalificação urbana que fechasse ao trânsito as ruas que o circundam, que passariam a fazer parte da própria praça. A circulação automóvel seria subterrânea, com acessos em cada extremo, também para entradas e saídas do parque de estacionamento – que podia ter vários pisos abaixo da superfície, dispondo de centenas de lugares. Outras cidades próximas, como Covilhã e Viseu – sempre a ingrata comparação – acabaram por encontrar soluções deste género, resolvendo em boa parte (com fórmulas modernas, engenhosas e úteis) o problema do estacionamento no centro. Na Guarda, pelo contrário, o que vemos é uma enorme falta de coragem e uma medonha ausência de rasgo, disfarçadas de «afectos». Os mesmos afectos que mantêm – e manterão por muitos anos, não vale a pena ter ilusões – fechadas na gaveta outras ideias, como a revitalização do centro histórico, com o encerramento ao trânsito e o reordenamento paisagístico da Praça Velha e das vielas medievais. Por isso não adiantará apressar os estudos para o que quer se seja, no Jardim José de Lemos ou noutra qualquer parte do centro da cidade. O afecto manter-nos-á compulsivamente agarrados às arvorezinhas, aos caminhos de terra batida, aos vendedores de gelados e ao obelisco dedicado à guerra dos avozinhos. Sem esquecer os estratégicos e utilíssimos urinóis subterrâneos, recentemente inaugurados, onde não há, sequer, uma rampa para deficientes. O problema, quando se fala de «requalificação urbana» para a Guarda, é que não existe uma ideia concreta e global do que isso possa significar, tal como não há um grau de exigência muito grande. Veja-se o caso da avenida e do largo da Estação: terminados os trabalhos, o pavimento da estrada tornou-se desigual, o jardim caiu no abandono, o lajedo das imaginadas áreas de lazer ficou irregular, os ladrilhos de balneário com que foram revestidos os dois lagos artificiais já começaram a cair. No fundo, o planeamento desta cidade é como o de uma moradia com dois palmos de jardim ao redor, do qual se cuida quando sobra tempo: hoje um arbusto, amanhã uma roseira, noutro dia um candeeiro. Já nem faltam, sequer, os leões de barro a ladear os portões – basta entrar na Guarda pela rotunda do Torrão para perceber que o conceito foi aplicado, em forma de letra.
«O Interior»

7 de fevereiro de 2003

7 Fev 2003: A justiça do marquês

Esta semana ouvi alguém dizer que o Marquês de Pombal, se cá voltasse, acharia enormes mudanças no país mas se entrasse na sala de audiências de um tribunal sentir-se-ia como em casa. A Justiça parou no tempo: mantém inalterados os rituais, não mudou o embrulho nem evoluiu na substância, faz gala da sobrançaria e dificilmente sobrevive sem a burocracia.
Há quem diga que o mais valioso dos talentos é o de nunca usar duas palavras quando uma basta. Mas a Justiça e os juízes estão constantemente a dar-nos provas da falta desse talento. Cito: «A ponderação de interesses subjacentes aos direitos fundamentais em colisão deve tomar, necessariamente, em conta o significado institucional de uns e outros numa relação flexível». Cito também: «Parece assim sobrar como líquida a conclusão de que não é correcto erigir o “topos” da conflitualidade em critério de contraposição e distinção entre a tipicidade e a ilicitude». Cito mais: «Acrescem as implicações normativas do efeito-recíproco e do efeito-de-irradiação que a lei constitucional adscreve e que resultam num incontornável mandamento hermenêutico que tem como destinatário tanto o legislador como o intérprete e aplicador do direito».
Vem isto escrito numa sentença de tribunal, um extenso manuscrito feito de lugares-comuns, que só ao fim de muito fraseado arrevesado entra naquilo que realmente interessa: os factos provados ou não provados, a apreciação objectiva e a decisão final à luz da lei. Tudo quando está antes é palavreado fútil, que não só não adianta nada à matéria de facto ou de direito como ainda se revela – pelas amostras citadas – de problemática percepção para o comum dos mortais. E, no entanto, o meritíssimo leu as dezanove páginas com majestoso afinco, depois de se ter feito aguardar durante três quartos de hora. Um instante, se comparado com as seis semanas que mediaram desde a última audiência do julgamento ou com os sete anos passados desde a data dos factos. E tudo para chegar a tão douta prédica.
Em qualquer Estado de direito digno desse nome, a função da Justiça pode ser resumida em três palavras: investigar, julgar, decidir. Entre nós, a finalidade deste poder parece ser outra: embrulhar, dificultar, arrastar, retardar, prescrever, anular. Se olharmos para trás, recapitulando apenas os casos mais mediáticos das últimas décadas, facilmente constataremos que pouquíssimos foram aqueles que culminaram numa decisão judicial definitiva e executada. Uns foram amnistiados, outros prescreveram, outros prosseguem o lento e labiríntico caminho das instâncias de recurso, outros, finalmente, dormem o sono eterno nos supremos tribunais. Este é o país que se mantém na cauda da União Europeia, em percentagem de casos apresentados aos tribunais que terminaram com uma decisão sobre a matéria de causa: vinte por cento. Os outros oitenta por cento, pelos vistos, incomodaram a Justiça em vão.
«O Interior»

24 de janeiro de 2003

24 Jan 2003: Os delitos dos outros

Ninguém diga que está bem. No hospital da Guarda, o director clínico abeirou-se do director do bloco operatório e disse-lhe mais ou menos isto: você é um excelente rapaz e tem feito um óptimo trabalho mas está despedido. Provavelmente, não lhe disse que estava a sofrer pressões fortíssimas de um grupo de médicos da linha dura para arredar o esquerdista, desabrido, insubmisso e refilão director do bloco. Nem lhe confessou que os artigos que escrevia para “O Interior” tinham causado desconforto à tutela. Nem se descaiu a admitir que o hospital é um saco de gatos e que ele, director clínico, dificilmente consegue ter mão naquilo. Ou disse-lho em segredo. A explicação passada com parcimónia para o exterior foi a da clássica «necessidade de reorganização do serviço», salvaguardando a qualidade do trabalho desenvolvido mas invocando o «fim de um ciclo». Sobre o fundo da questão, obviamente, nada. Ora, o tal ciclo tinha começado somente um mês antes, com o convite feito por José Cunha a Matos Godinho para dirigir o bloco, numa jogada de conciliação com a facção “rebelde” do corpo clínico – a mesma que praticamente tinha levado José Cunha ao colo até ao lugar que hoje ocupa. Um convite que foi aceite e confirmado, nos termos formais, apenas na semana anterior à destituição. O que pode levar alguém a passar de bestial a besta em escassos oito dias? Segundo o Bloco de Esquerda (que se estreou na pública reivindicação de demissão dos responsáveis do hospital) existem duas razões: precisamente ser de esquerda; e ter escrito neste jornal, acerca da nova política de saúde, o que Maomé não disse do toucinho. Trata-se, portanto, de um delito de opinião que teve na justiceira caneta do director clínico uma sumária sentença de exoneração, por própria iniciativa ou por temerosa satisfação de pressões. O que não deixa, em qualquer dos casos, de constituir uma colossal ironia: é que José Cunha também foi perseguido pelo mesmo “crime” nos últimos anos da gestão do PS e a direcção do hospital chegou a mover-lhe um processo disciplinar por, enquanto médico, ter manifestado publicamente uma opinião. Não foi assim há tanto tempo e deu origem a um jantar de desagravo, contra a atitude do Conselho de Administração, promovido por médicos e por políticos. Provavelmente, Matos Godinho ter-se-á contado entre os presentes, a ouvir José Cunha lamentar as «atitudes persecutórias e censórias» dos dirigentes do hospital. Realmente, ninguém diga que está bem.
«O Interior»

17 de janeiro de 2003

17 Jan 2002: A verdadeira importância

Os acontecimentos da Coordenação da Área Educativa da Guarda são absolutamente lamentáveis. A começar pelo facto de não se tratar de acontecimentos da Área Educativa da Guarda. São, isso sim, os da gente sem ética nem preparação para dirigir um serviço público. São os da ausência de lucidez e coragem para resolver a situação antes de chegar aonde acabou por chegar. São os da ingerência descarada com fins políticos. Já nem está em causa se Joaquim Rita dos Santos correu o adjunto a murro e a pontapé ou se Henrique Monteiro apenas fez alarido por um simples empurrão. A questão é que a tutela estava tão farta de episódios como este que indicou aos dois a porta da rua, logo que os últimos rumores vieram a público. A porta-voz do ministro da Educação declarou tratar-se de notória desadequação às funções e fez, aliás, questão de tornar pública a substituição de ambos muito antes de lhes ter sido comunicada formalmente essa decisão. Ou seja: o gabinete do ministro permitiu, bem sabendo que era o que aconteceria, que Rita dos Santos e Henrique Monteiro tomassem conhecimento pela rádio de que tinham acabado de ser despedidos. Tanto ostracismo dá bem conta do crédito que a equipa gozava: zero. Foi uma queda sem glória, que confirma uma necessidade já aqui apontada: os partidos que alternam no poder deviam distribuir obrigatoriamente um manual de procedimentos aos boys que nomeiam para lugares públicos – para perceberem, eles próprios, o que vão para lá fazer ao certo. Claro que, numa típica zanga de comadres, muita coisa acaba por vir ao de cima. E eis que rebenta, agora, o making of desta história e que, acerca dela, se vai descobrindo uma suicidária ausência de sentido de pudor que não deixa nenhuma das partes a coberto. Ficamos a saber, por exemplo, que Ana Manso tentou gerir abusivamente os recursos humanos dependentes da CAE, isto é, procurou mexer nas colocações de professores, com o objectivo de satisfazer interesses partidários. Assim o declarou Rita dos Santos, sem que a dirigente distrital do PSD o tivesse desmentido. Esta é, provavelmente, a oportunidade que a classe política vê nos serviços públicos em geral e num organismo com as características da CAE em particular: manobrar, dominar, pôr e dispor de forma discricionária o processo de gestão de docentes que anualmente mexe com o destino de milhares de pessoas, abrindo caminho a todo o tipo de influências e favores. É isso que faz da Coordenação da Acção Educativa um dos lugares mais disputados. Por isso é que já o PS, em 1995, nomeou e logo a seguir dispensou um professor independente e pouco dado a tal manejo, colocando no lugar um boy de cartão. Por isso é que o PSD, mal chegou ao poder, teve pressa de tomar conta do tacho. Aquilo não é lugar que possa ficar muito tempo ao Deus dará. Com a desajeitada celeridade, houve mesmo um primeiro indigitado que ficou pelo caminho, antes de a escolha recair sobre Rita dos Santos. O coordenador empossado esta semana, José Diogo Pinto, tem, ao menos, a vantagem de vir de fora e ser um ilustre desconhecido do inner circle dos mexericos locais. É possível que o deixem estar sossegado. Pelo menos até à próxima colocação de professores, lá para o Verão.
«O Interior»