24 de janeiro de 2003

24 Jan 2003: Os delitos dos outros

Ninguém diga que está bem. No hospital da Guarda, o director clínico abeirou-se do director do bloco operatório e disse-lhe mais ou menos isto: você é um excelente rapaz e tem feito um óptimo trabalho mas está despedido. Provavelmente, não lhe disse que estava a sofrer pressões fortíssimas de um grupo de médicos da linha dura para arredar o esquerdista, desabrido, insubmisso e refilão director do bloco. Nem lhe confessou que os artigos que escrevia para “O Interior” tinham causado desconforto à tutela. Nem se descaiu a admitir que o hospital é um saco de gatos e que ele, director clínico, dificilmente consegue ter mão naquilo. Ou disse-lho em segredo. A explicação passada com parcimónia para o exterior foi a da clássica «necessidade de reorganização do serviço», salvaguardando a qualidade do trabalho desenvolvido mas invocando o «fim de um ciclo». Sobre o fundo da questão, obviamente, nada. Ora, o tal ciclo tinha começado somente um mês antes, com o convite feito por José Cunha a Matos Godinho para dirigir o bloco, numa jogada de conciliação com a facção “rebelde” do corpo clínico – a mesma que praticamente tinha levado José Cunha ao colo até ao lugar que hoje ocupa. Um convite que foi aceite e confirmado, nos termos formais, apenas na semana anterior à destituição. O que pode levar alguém a passar de bestial a besta em escassos oito dias? Segundo o Bloco de Esquerda (que se estreou na pública reivindicação de demissão dos responsáveis do hospital) existem duas razões: precisamente ser de esquerda; e ter escrito neste jornal, acerca da nova política de saúde, o que Maomé não disse do toucinho. Trata-se, portanto, de um delito de opinião que teve na justiceira caneta do director clínico uma sumária sentença de exoneração, por própria iniciativa ou por temerosa satisfação de pressões. O que não deixa, em qualquer dos casos, de constituir uma colossal ironia: é que José Cunha também foi perseguido pelo mesmo “crime” nos últimos anos da gestão do PS e a direcção do hospital chegou a mover-lhe um processo disciplinar por, enquanto médico, ter manifestado publicamente uma opinião. Não foi assim há tanto tempo e deu origem a um jantar de desagravo, contra a atitude do Conselho de Administração, promovido por médicos e por políticos. Provavelmente, Matos Godinho ter-se-á contado entre os presentes, a ouvir José Cunha lamentar as «atitudes persecutórias e censórias» dos dirigentes do hospital. Realmente, ninguém diga que está bem.
«O Interior»

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