28 de março de 2003

28 Mar 2003: Salvem o burro

O burro não merecia tal dita. Foi albardado à vontade do dono e arrebanhado à força para uma campanha de alfabetização que dá do equídeo um traslado impróprio e infundado. E, pior que tudo, injusto. Agora é que a tonta liga protectora dos animais, a tal que bramiu contra o suplício do galo na Segunda-feira Gorda, devia escrever à presidente da Câmara da Guarda e às demais forças vivas. Porque uma coisa era o burro do PREC, o das campanhas de dinamização cultural dos idos de setenta, que deu voltas ao mundo no retrato a preto-e-branco com a tabuleta dos dizeres: «Eu também quero ser alfabetizado». Era uma época de devaneios. E o asno um oportunista da nova situação, como tantos. Porventura franco na desobriga da insciência mas, ainda assim, um vira-albardas torpe e ordinário. Outra coisa é o nosso burro – de outra geração, de melhor raça e de linhagem distinta. Ir buscar a inspiração à famigerada imagem do insurrecto jerico alentejano para também arrear o da Guarda com um letreiro é um insulto. E plantá-lo, da maneira como está, à porta da Câmara, a afilar para a Livraria Municipal, é uma desonra, maior ainda nestes dias em que chove até os burros beberem de pé. Sabem o que escreveram no dístico? Qualquer coisa como: «Não façam como eu, leiam livros». Que infâmia! Que ignomínia! Ò primeiro, este burro não é tão velho que não leia nem aprenda línguas. Como a própria presidente da Câmara esclareceu, o animal entrou ao serviço no último Natal (foi encomendado para fazer de burro no Presépio) e, que se saiba, existe um limite máximo de idade – e uma escolaridade mínima obrigatória – para ingressar na Função Pública. Ò segundo porque, se dela não faz parte, pelo menos convive hodiernamente com a elite do Paço da Cultura, de onde foi mandado para a esquina da livraria. Ou seja: ainda que permaneça oculto na arrecadação (com a vaquinha e as demais figuras) só não se deixa embrenhar naquele ambiente privilegiado se for mesmo burro. Tem a oportunidade de aprender a preparar uma boa programação cultural, assistir a ensaios, percorrer exposições e devorar quantos exemplares quiser da Agenda Cultural. Não é como esses burros que falam mal da política cultural da autarquia. Até por isso, o jumento merece todo o respeito. E também porque pertence a um ramo em vias de extinção do ancestral mamífero perissodáctilo. Sendo uma espécie protegida, maior é a obrigação de o manter a coberto da doença. Se existisse visão estratégica, a Câmara, em vez de um, teria adquirido vários. E como há fundos comunitários para a preservação de espécies ameaçadas, resolvia o buraco orçamental. Porque, como a própria presidente declarou na entrevista que concedeu sobre os trabalhos do burro, o importante é potenciar os recursos disponíveis. Deixe-se ir sempre nas conversas do albardeiro e depois queixe-se. Lá diz o povo: burro morto, cevada ao rabo.
P.S. – Obrigado ao burro, mesmo de papel. A guerra é lá longe.
«O Interior»

21 de março de 2003

21 Mar 2003: Quatro coisas

1. Uma coisa, aceitável, é duvidar dos critérios de preferência assumidos pelo Ministério da Saúde. O terreno escolhido para o futuro hospital da Guarda podia estar no rol dos improváveis lógicos, por uma série de razões. Tem vistas para o cemitério novo (não é, convenhamos, a cercania apetecida) e fica localizado numa zona de duvidosa expansão. E expansão quer dizer acessos, proximidade, integração. Dê-se a volta que se der, o crescimento da cidade é feito no sentido da estação e da Sequeira. Basta levar em conta o erro crasso já cometido com a construção do Instituto Politécnico: quase duas décadas depois, a Quinta do Zambito permanece num gueto, desgarrada da cidade. Maior sentido fará, por isso, que um complexo hospitalar seja projectado para a periferia do núcleo urbano, embora num local de previsível desenvolvimento, com bons acessos e bem servido por transportes públicos. Como se fez, por exemplo, na Covilhã e em Viseu – e como se faz pelo país fora. Porque um hospital não tem que funcionar como uma instituição de bairro, que precise de estar à mão. Aliás, um hospital nunca pertence verdadeiramente à cidade que lhe dá nome, mas a toda uma região que serve. Deve, por isso, estar próximo dos eixos viários de saída, fugindo ao tráfego de centro urbano. Vistas assim as coisas, a Quinta da Maúnça, já que se tornou num elefante branco para a Câmara, podia ter sido a escolha razoável, até pela vizinhança das duas auto-estradas que formarão, não tardará muito, a verdadeira cintura rodoviária da Guarda.

2. Outra coisa, lógica, é achar que, tendo a Câmara terrenos próprios onde só seria necessário construir acessos e infraestruturas, não faria sentido comprar a terceiros. Muito menos por sugestão – ou imposição – do próprio Governo, que exige contenção e proíbe o endividamento das autarquias. Este hospital necessita, dizem os técnicos, não menos de oito hectares. Quando pode custar uma área assim? Escrever milhões será exagero?

3. Outra coisa, conjecturável, é a teia de interesses que já se formou em torno deste negócio. Seria interessante averiguar quantas transacções de terrenos situados nas proximidades do Torrão terão sido iniciadas só desde que o ministro anunciou a localização do hospital. E quantas vezes o proprietário da parcela escolhida já terá usado a divulgação pública da decisão como garantia de “lucros emergentes” junto da banca e de credores. Mais. Seria, até, um acto de utilidade pública apurar quem comprou o quê e quando – bastará ter como referência os últimos doze meses – no perímetro ou nas imediações de cada um dos terrenos apontados como possíveis para a localização do hospital. Este podia ser, aliás, um exercício de lógica aplicável também a outras obras, como a Plataforma Logística ou as estradas projectadas (a variante da Sequeira, a alameda da VICEG e outras). As ilações seriam, provavelmente, embaraçosas.

4. Outra coisa, previsível, é a forma como a Câmara sai mal desta história, acabando vítima do espavento que armou. Seis terrenos para quê? Bastaria reduzir a metade as possibilidades – o Parque da Saúde por opção política, a Quinta da Maúnça por não ter custos e uma terceira, a adquirir, para desempate – e obrigar o Ministério a escolher uma. Mas não. Maria do Carmo Borges foi alargando a oferta e subindo a parada. Ficou célebre a declaração na Assembleia Municipal: a Câmara endividar-se-á, se fosse preciso. Agora, só pode queixar-se de si própria. E por maior que seja a legitimidade do protesto contra a forma como a decisão foi anunciada (num comício do PSD e antes de ter sido dado conhecimento à própria autarquia) a imagem que passa é o rompimento de uma promessa. É como se o anfitrião pedisse aos convidados para jantar que escolhessem o restaurante – e a seguir dissesse que «não gosto desse aonde querem ir e não me consultaram, por isso não pago!». Com estes tiros no pé, que a presidente da Câmara dispara, bastaria a Ana Manso manter-se calada para alcançar aquilo que deseja.
«O Interior»

7 de março de 2003

7 Mar 2003: Maria da Fonte

Qual Maria da Fonte, Ana Manso armou-se contra todos os que são falsos à ideia de um distrito uno e indivisível, do Douro à Malcata. É justo reconhecer que, desta vez, a líder distrital do PSD surpreendeu pela positiva. Habituados à fala arruaceira e a conferências de imprensa onde debitava monólogos inúteis, vemo-la agora, por fim, mostrar que também sabe dar substância às coisas. O documento que apresentou no início da semana foi a primeira orientação conjunta dos municípios do distrito sobre a criação de comunidades urbanas. Ao tê-lo feito assinar pelos presidentes de doze das catorze câmaras, excluindo apenas os eleitos pelo PS (um porque não quis, outra porque não soube), Ana Manso alcançou o improvável: uniu, à volta do conceito de inviolabilidade das fronteiras do distrito, quem até já se tinham manifestado de maneira diferente. O presidente da Câmara de Manteigas e da Associação de Municípios da Cova da Beira, por exemplo, é o principal promotor de uma reunião marcada para o dia 20 em Belmonte, com as vinte e cinco câmaras dos distritos da Guarda e de Castelo Branco, para defender uma comunidade intermunicipal. O de Aguiar da Beira afirma-se disponível para pertencer a uma futura área metropolitana de Viseu. O de Gouveia e o de Fornos de Algodres também não enjeitam a ideia. E o de Foz Côa declara-se mais transmontano do que beirão. Mas assinaram todos a declaração de princípios que a dirigente do PSD agora exibe como um troféu. Reclamam um distrito unido, na base do qual se formará uma comunidade urbana liderada pela Guarda. Tê-lo-ão feito de ânimo leve, convencidos de que não passava de uma folha inconsequente e condescendendo em ajudar a deputada noutra das suas tropelias contra o PS e a «inimiga»? É possível, sabendo eles de antemão que o município apontado como capital da putativa província foi o único mantido propositadamente à margem da iniciativa. Percebe-se que Ana Manso procurou surpreender Maria do Carmo Borges, tentando chamar a si o protagonismo do processo – não fosse a presidente da Câmara mexer-se e antecipar-se na liderança que a adversária a pode agora acusar, com alguma legitimidade, de não possuir. Ou seja: fica a ideia de que tudo se resumiu à trica partidária, em que nenhum dos intervenientes deixará de pensar e dizer, à primeira oportunidade, da maneira que lhe der na real gana – diferente, se for necessário, da que ficou escrita neste «documento dos doze». No dia seguinte, em Manteigas, viu-se qual era a real valia dos argumentos: o secretário de Estado da Administração Local, autor do esboço da lei que prevê comunidades urbanas e intermunicipais, respondeu que os distritos são coisa do passado, que nada têm a ver com os novos eixos sociais, económicos e afectivas que se formaram dentro do território. Um dos subscritores da véspera era o anfitrião da visita. E não disse que não, antes pelo contrário.
«O Interior»