4 de abril de 2003

4 Abr 2003: «Terapia» preocupante

A Polícia Judiciária passou revista à Aldeia SOS da Guarda e a uma quinta, nos arredores da cidade, que é utilizada nas actividades de tempos livres das crianças. A pacatez dos costumes foi abalada por revelações que fazem estremecer: há indícios de alegados maus-tratos, agressões e rituais diabólicos. É verdade que tudo não passa de suspeitas. E é certo, também, que os visados – o casal que dirige a Aldeia e um monitor de nacionalidade brasileira – não viraram a cara aos acontecimentos, tendo prestado esclarecimentos, por exemplo, à reportagem da Rádio Altitude que esta semana tornou o caso público. Negaram todas as conjecturas, mesmo as que pudessem ser associadas ao facto de um número invulgar de agentes da Polícia Judiciária – doze, no total – se ter apresentado, munido de mandado de busca às casas que actualmente acolhem perto que quarenta crianças e jovens abandonados ou sem família. Tudo não passará, segundo os responsáveis, de denúncia caluniosa, instigada por antigos residentes ou por outra gente que costumava gravitar na Aldeia, num esquema de tráfico de droga a que a instituição terá conseguido pôr termo há pouco tempo. A simples menção da existência desse problema dentro de muros já é preocupante. Mas pior é a revelação de alguns métodos usados pelo especialista de «terapia ocupacional» que surge como principal visado nesta história. O próprio admitiu ser seguidor de uma disciplina feita de maneiras rígidas, escudando-se, em tudo o mais, na autoproclamada condição de «perseguido em nome de Cristo». Mas os depoimentos de antigos e actuais residentes, que a Rádio Altitude tornou públicos ontem pela primeira vez, revelam uma moldura bem menos católica. Entre os castigos alegadamente impostos, contam-se práticas escabrosas que nenhuma «terapia» pode legitimar: testemunhos de crianças arrastadas pelos cabelos, sujeitas a trabalhos forçados debaixo de chuva ou atemorizadas com morcegos vivos introduzidos nos quartos. À medida que se avança nesta história, maior é a surpresa e maior é o desejo de descrença. Estamos a falar de crianças e jovens em risco, que procuram uma vivência em família, antes desconhecida ou interrompida de modo traumatizante. E de uma instituição cuja acção social tem que estar acima de qualquer suspeita. O mínimo que se pode esperar é que a investigação policial seja célere e consequente, para o bem ou para o mal. É provável que estejamos a assistir só ao começo de um longo folhetim, onde o mais difícil será distinguir a verdade da mentira, a realidade da especulação. O que nos faltava agora era ter um drama do tipo Casa Pia à beira da porta.

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