30 de maio de 2003

30 Mai 2003: O pensador no seu labirinto

– Já valeu a pena ter vindo!
Olha, pasmado, para a torre sineira da igreja. Detivera-se, numa afeição quase pueril, por causa de um ninho de cegonha. Não é que a ave pernalta estivesse fora de época ou de trajecto. Sempre aconteceu assim, chegarem nesta altura – quando estava no fim a estação das chuvas e as poeiras de Maio saravam as frieiras. O que nunca tinha visto era um ninho levantado na torre da igreja rica, a tal que o ouro do Brasil fez maior do que a aldeia, tornando-a no único vestígio que consegue perpassar, no horizonte de quem se acerca, o renque de mata espessa que parece guardar a terra na sua quietude, como que a mantê-la abrigada do mundo. Ali está o homem que tinha conseguido desbravar um carreiro, sem contar que aquilo que o esperava do outro lado fosse um labirinto. Regressa num Domingo soalheiro àquele tempo que ficara como um tempo à parte de todos os outros, anterior ao tempo em que começara a ser interpelado pelo mundo. Da lenda da infância reconhece quase tudo: a paisagem, os sítios, as memórias. Menos o ninho da cegonha, à vista do qual se faz retratar, numa mítica exultação que o reconcilia com o lugar.
– Já valeu a pena ter vindo!
A aldeia existe, afinal. Ele pensava que era como a madeleine de Proust. Que, tendo as pessoas morrido ou ido embora, todo o lugar tivesse partido com elas, não restando senão paisagens. Mas, de súbito, há um som que ecoa no povoado e lhe toca fundo na alma, como se fosse o rumor invisível das falas da lembrança. Vem da mesma torre – e do sino que há oitenta anos já marcava o tempo daquela maneira. No compasso da melodia, todo o passado se faz presente. Eduardo Lourenço redescobre, então, o seu pequeno grande mundo, depois de oito anos de ausência. Agora, por fim, consegue cumprir o desejado passeio silencioso a São Pedro do Rio Seco, sem as honrarias que o intimidam, como da última vez, quando ali esteve a ser homenageado. Precisava fazer um regresso em sossego. Para, como Machado de Assis, atar as duas pontas das vida – a do nascimento e a do crepúsculo – num só nó.
Assim redescobre os sítios, as vivências, as paixões. Acede, em parte da viagem, a ter-me como visitante e a falar-me apaixonadamente sobre este lugar que diz estar sempre à margem do labirinto ou a explicar-me a sua visão mítica do destino português. Desse percurso pelo tempo de Eduardo Lourenço passo a guardar religiosamente duas horas de gravação (de que passei curtos mas expressivos extractos na Rádio Altitude, na última Segunda-feira) mas registo bastante mais: a luminosidade do pensamento, a erudição despretensiosa, a grandeza humilde. Uma lição de vida, por um homem sábio e modesto, que se diz atento aos outros e distraído de si.
A simplicidade, de facto, nunca é simples. E só está ao alcance de alguns.
«O Interior»

23 de maio de 2003

23 Mai 2003: Da bola

1. Ninguém tem nada com isso mas do meu círculo de familiares, amigos e conhecidos sou o único que não gosta de futebol, que não tem clube, que nunca terá olhado mais de cinco minutos para o mais empolgante desafio que pudesse ter passado na televisão, que não foi assistir ao Portugal-Noruega e que se esteve a borrifar ontem para o resultado do Porto em Sevilha – e tanto me dá que fosse o Porto como a Selecção. Há quem tente convencer-me, de modo recorrente, que isto configura um desvio insanável na minha personalidade e pode, numa decomposição de psicologia selvagem, acusar um lado gay. Preocupado com esta conjectura, já procurei afirmar-me num interesse clubístico. Como a Desportiva não arranca e o Mileu está na desgraça, tentei prestar alguma atenção ao Sporting. Não sei porquê, foi um feeling: há naquele clube um sentido de organização e qualquer coisa de cosmopolita que me agradam, mesmo que não saiba, sequer, dizer de seguida o nome de três jogadores. Mas ainda não tinha assente a preferência e já estava a ser insultado. Até o meu filho de quatro anos fez uma birra (diz-se do Benfica). Desisti e devolvi-me à matriz agnóstica. Sinceramente também não percebo donde pode provir uma preferência clubística. É-se de um partido político por aproximação ideológica, por opção programática ou, vá lá, por mera conveniência. Mas é-se adepto de um clube de futebol porquê? Seja o que for, funciona. Basta ler a quantidade de manifestações por escrito, na página ao lado desta na última edição do «O Interior», contra uma crónica de António Ferreira sobre pretensas razões para odiar o Futebol Clube do Porto. Os jornais e as rádios bem se esforçam para promover a discussões públicas – sobre política, sociedade, identidade, educação, desenvolvimento, futuro – e é tudo arrancado a ferros. Mas fala-se da bola e é página cheia.

2. Ainda assim, sou capaz de reconhecer que o não existir uma equipa de futebol que represente a Guarda a não ser nos campeonatos da bolinha é um sinal de incapacidade e um reflexo do estado da cidade. Tivemos a Desportiva. Serviu para tudo e a todos. Facilitou negociatas e cobriu lavagens de dinheiro. Auxiliou partidos e consagrou políticos. Chegou a ser tirocínio de candidatos à Câmara. Caiu quando deixou de servir aos mesquinhos interesses privados que se confundiam com a razão de ser do clube. Foi de usar e deitar fora. Tivemos o Mileu. Tentou ocupar um espaço vazio. Foi um acidente de percurso num clube de bairro. No dia em que uma equipa de futebol voltar aos campeonatos com a camisola da Guarda vestida, isso significará algo mais do que o início de um mero desafio de futebol – será o remate de um desafio à nossa própria auto-estima. A bola, neste caso, é o que menos interessa.

3. Mas os clubes vivem numa escandalosa dependência do subsídio e, à mínima contrariedade (ou quando os resultados não surgem), é para as câmaras que costumam virar-se, com uma mão estendida e a outra a apertar o gatilho. A realidade no distrito é perniciosa: aos dezanove clubes que participam com equipas seniores na primeira divisão distrital e na terceira nacional, as câmaras atribuem este ano, no conjunto, perto de um milhão de euros. Estes subsídios vêm contabilisticamente declarados como auxílios à formação, apoio ao desporto ou comparticipação às camadas jovens, entre outras metáforas que disfarçam a realidade que assenta no financiamento de equipas e campeonatos. Sem contar, claro, com tudo o resto: os estádios ditos «municipais», onde ninguém mais ousa pôr o pé; os funcionários; os transportes por conta. Política e bola são dois poderes que andam de braço dado – porque, em regra, o primeiro se submete aos desígnios do segundo na mira de receber em votos o preço de uma associação muitas vezes suspeita e quase sempre pouco saudável.

16 de maio de 2003

16 Mai 2003: A bem do próximo

Quem diz “radares.net” diz também “radares.com” ou “condutores.pt”, indo só aos que têm melhor apresentação. Mas há uma vastidão deles onde é só entrar e dispor. Ancorados no conceito constitucional do direito ao livre pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, fornecem-nos informação classificada como «serviço público»: a localização dos radares da polícia, a identificação dos carros à paisana que a GNR e a PSP usam na vigilância dos condutores e dicas sobre o modo de fuga. A comunicação é estática (na consulta ocasional dos conteúdos) ou interactiva (na subscrição de boletins diários por correio electrónico ou alertas de última hora por mensagens escritas para o telemóvel), o que pode revelar-se de uma utilidade impagável, se à hora certa e ao local apropriado chegar um aviso como este: «EN 17. Localidade da Carrapichana. Centro da localidade, limite 50km/h. Nissan Primera branco com radar móvel, atrás de um muro de pedra (muro do canil) numa curva, impossível ser visto». Ou como este: «IP 2. Saída Fundão-Covilhã. Saída da auto-estrada. Agente da BT à civil sentado numa cadeira de praia debaixo de uma ponte com radar fixo. À saída para rotunda estão outros a mandar parar». Ou este: «IP 5. Saída 26 para Porto da Carne. Nissan Sunny branco com radar fixo». Sei que, ao sair de casa e aventurando-me nas redondezas, terei estes anjos-da-guarda a velar pela minha carteira e pelo meu cadastro. E, bem vistas as coisas, pela minha segurança. É mais provável que me contenha a 50 quilómetros por hora na rua principal da Carrapichana por saber que há polícias escondidos detrás do muro do canil do que pela consciência cívica de que esse é o limite que estou obrigado a respeitar dentro das localidades. Do meu ponto de vista vai ali um condutor exemplarmente e imperiosamente cumpridor; do ponto de vista dos transeuntes da Carrapichana está ali uma estrada segura; do ponto de vista dos polícias está ali um dia perdido; e do ponto de vista destes altruístas incógnitos vai ali mais uma boa presa da caça à multa que consegue pôr-se a salvo. A primeira razão de existir deste big-brother é livrar-nos do predador. Não porque incite à desobediência, antes pelo contrário. Uma característica que estas fontes de informação têm em comum é o apelo, documentado com leis da República, ao cumprimento das regras da estrada. Nesse aspecto, arrumam num canto a Associação dos Cidadãos Auto Mobilizados e outras organizações sérias. Mas a coisa pára aí. Este conceito de «serviço público» inclui os truques para burlar os diferentes tipos de radares, indicando com preciosa exactidão as distâncias que efectivamente cobrem e a que velocidade “disparam”. E previne-nos contra as manhas da GNR: o Ford Fiesta vermelho com mais de dez anos que costuma estar parado na berma do IP5, de capot levantado, a fingir avaria (e a esconder um radar); as carrinhas Ford Transit brancas; o Toyota Corolla azul com um radar que «parece um agente com cabeça quadrada sentado no lugar do pendura»; ou o Volkwagen Golf cinza escuro «que costuma ser conduzido apenas por um agente, para não levantar suspeitas». Isto numa lista de quase duas centenas de veículos a patrulhar o país, identificados por modelo e matrícula. É difícil avaliar a veracidade da informação que se recebe assim. Mas não é difícil perceber que somos uma gente eternamente em conflito com a lei. Cá no fundo, um bando de vigaristas sem vergonha nem respeito pelo próximo. Mas há casos em que a vigarice é a bem do próximo.
«O Interior»

9 de maio de 2003

9 Mai 2003: Ah, Valente!

O meu candidato à Presidência da Câmara da Guarda é, provavelmente, Joaquim Valente. Que me perdoem, no PS, Álvaro Guerreiro, António Saraiva, Fernando Cabral e José Igreja e, no PSD, Crespo de Carvalho, que sonham ver o próprio retrato no cartaz. Já nem ponho como cenário que Maria do Carmo Borges e Ana Manso bisem o despique. Tenho visto piores ódios terminarem em sociedades anónimas e não me espantará que, nos dois anos que faltam, as duas abandonem a vida política, façam as pazes e obtenham juntas o franshising da Cortefiel e da Zara para os distritos da Guarda, Castelo Branco e Viseu, tornando-se empresárias de sucesso e nas maiores empregadoras do sector terciário na região. Maria do Carmo já anunciou que sai. E, na ausência da adversária a quem destinou quatro anos de marcação cerrada, uma nova candidatura de Ana Manso não teria jeitos de ser digna ou interessante. Acredito que, desta vez, a presidente da Câmara fale a sério: se há dois anos não teve outro remédio senão aligeirar o tabu e seguir em frente, agora o alfobre de candidatos que Esmeraldo Carvalhinho dizia ter para as últimas eleições autárquicas já medrou e está na altura da colheita. Obviamente, excluiu-se ele próprio da corrida. Ao contrário do que se possa conjecturar, Carvalhinho não quer ser presidente da Câmara, ou melhor, quereria mas tem a consciência de que não seria candidato para vencer. Correu para a presidência da concelhia do PS a tempo de se impor a novo mandato em lugar elegível (pressentindo que tentariam sacrificá-lo pela porta baixa) e passou o testemunho quando o poder (pelo menos o poder eleito) deixou de lhe interessar: daqui para a frente lavará as mãos e gozará o estatuto de rapaz novo e com boa reforma. A apuradíssima intuição política – que muitos achavam improvável – é, afinal, o que o tem distinguido dos pares. Talvez para triunfo de Esmeraldo Carvalhinho, Joaquim Valente foi arrancado desse alfobre e enxertado à força noutra leira, antes das últimas eleições. O que, vistas agora as coisas, nem foi o pior que aconteceu ao antigo número três da Câmara: a imolação em Celorico da Beira acabou por lhe dar uma aura de herói. Depois, a forma comedida como tem gerido o lugar na administração do Polis permitir-lhe-á sair a ganhar, seja qual for o resultado da revitalização urbanística que é suposto ter fim a poucos meses das eleições. Se a coisa correr bem, poderá com alguma legitimidade proclamar-se pai da ideia – e recordar que foi ele quem arrancou este investimento para a Guarda, por conta de longínquas e académicas noitadas de copos e miúdas com o colega de curso Pinto de Sousa, mais tarde conhecido por José Sócrates. Se correr mal, invocará a mesma coisa – mas lamentará que outros tenham gerido com tanta imperfeição as suas boas influências. Mas o que mais conta, agora, é a conquista recente da nossa auto-estima: um jogo internacional de futebol com transmissão televisiva. Praticamente todos os dirigentes políticos da Guarda passaram pelo tirocínio da bola, obrigatório para quem anseia dar nas vistas. Em 1989, quando o PSD escolheu o médico Raul Saraiva para candidato à Câmara, mexeu primeiro os cordelinhos para o pôr à frente da defunta Desportiva da Guarda, na busca de protagonismo. Mas nunca ninguém chegara aonde Valente chegou, como presidente da inócua Associação de Futebol da Guarda. Já tínhamos percebido que ele usa o cargo para se insinuar na alta-roda da tribo do futebol, em vez de ficar aqui a aturar as tricas dos matarruanos dos campeonatos distritais. Eis o resultado: como os próprios dirigentes da Federação reconheceram, o Portugal-Noruega só veio porque o homem da Guarda não lhes largou o juízo. E mal terminou, já prometeu trazer um Portugal-Espanha em selecções principais. Como o futebol induca e instrói, Joaquim Valente poderá ter, a fazer mais destas, toda a região na mão. Mas o que isto também revela são qualidades cujo reconhecimento é transversal a adeptos e a não-adeptos: a persistência, a organização, o talento empreendedor. Não se pode esperar melhor de um autarca. Faz lembrar Joaquim Morão, tido há décadas em Lisboa como um chato do caraças, que não sai de ao pé da porta dos ministérios. Assim se fez autarca-modelo, por tudo quanto realizou em Idanha-a-Nova e tem vindo a realizar em Castelo Branco. Modelo, ainda por cima, Joaquim Valente parece que já é: amigas minhas, a quem tenho manifestado esta teoria política, dizem que ele tem argumentos cuja apreciação obviamente me ultrapassa. Vai estando, então, na altura de lançar a discussão. Eu, se tivesse o costume de votar (coisa que deixei de fazer há anos), votava em Joaquim Valente.

2 de maio de 2003

2 Mai 2003: Voltará tudo ao mesmo?

É bem verdade que o pobre deve sempre desconfiar quando a esmola é grande. Não vai passado um mês desde a abertura da urgência pediátrica no Hospital da Guarda e já é notícia que pelo menos uma médica está de malas feitas. Uma de duas admitidas em concurso externo para o quadro – nem sequer é das recém-chegadas à profissão, que chegaram aqui constrangidas a aceitar uma colocação por exclusão de partes. Esta, ao que parece, está disposta a trocar um vínculo definitivo à Função Pública – que conquistou com a vinda para a Guarda, depois de ter cumprido o tirocínio num hospital do Norte – por uma situação contratual menos firme mas que, em contrapartida, a coloca a dois passos de casa, ao invés de percorrer centenas de quilómetros todas as semanas. Pelos vistos não é a única. Há pelo menos um caso mais de possível dissidência, mal estejam cumpridos os pressupostos com que outra das médicas acedeu a preencher um dos lugares criados ao abrigo do regime dos hospitais carenciados: ter-lhe-ão prometido uma vaga no hospital pediátrico de Coimbra, na unidade onde iniciara a especialização, como alvíssaras pelo «favor» de uma breve e apaziguadora passagem pelo Sousa Martins. O estranho é que tudo isto tenha vindo ao de cima em tão pouco tempo. Fica-se com uma impressão de paz podre, de incapacidade, de déjà-vu. E dá-se, inevitavelmente, razão àqueles que viam na neófita equipa da pediatria uma manta de retalhos, sem padrão nem nexo, tecida à pressa para fazer número e mostrar serviço. É claro que não seria justo ignorar o mérito da aparência: em poucos meses, o hospital da Guarda conseguiu trazer o maior número de sempre de pediatras e esforçou-se por operacionalizar o serviço. Mas as verdadeiras questões radicam na substância das coisas. Quem garante que esta equipa não ficará devassada pelo êxodo, voltando tudo ao mesmo? Agora percebe-se que os partidos do governo tenham passado com tanta discrição ao lado do assunto. O conselho de administração do hospital fez por conta própria a volta imperial, exibindo a urgência pediátrica à comunicação social como a mais gloriosa – e até aí improvável – conquista. E ninguém ouviu os dirigentes do PSD nas falas do costume, procurando capitalizar a promessa cumprida em comunicados e conferências de imprensa. Está explicado: faltou-lhes o ímpeto da convicção. O silêncio não é a encenação – é o embaraço.
«O Interior»