2 de maio de 2003

2 Mai 2003: Voltará tudo ao mesmo?

É bem verdade que o pobre deve sempre desconfiar quando a esmola é grande. Não vai passado um mês desde a abertura da urgência pediátrica no Hospital da Guarda e já é notícia que pelo menos uma médica está de malas feitas. Uma de duas admitidas em concurso externo para o quadro – nem sequer é das recém-chegadas à profissão, que chegaram aqui constrangidas a aceitar uma colocação por exclusão de partes. Esta, ao que parece, está disposta a trocar um vínculo definitivo à Função Pública – que conquistou com a vinda para a Guarda, depois de ter cumprido o tirocínio num hospital do Norte – por uma situação contratual menos firme mas que, em contrapartida, a coloca a dois passos de casa, ao invés de percorrer centenas de quilómetros todas as semanas. Pelos vistos não é a única. Há pelo menos um caso mais de possível dissidência, mal estejam cumpridos os pressupostos com que outra das médicas acedeu a preencher um dos lugares criados ao abrigo do regime dos hospitais carenciados: ter-lhe-ão prometido uma vaga no hospital pediátrico de Coimbra, na unidade onde iniciara a especialização, como alvíssaras pelo «favor» de uma breve e apaziguadora passagem pelo Sousa Martins. O estranho é que tudo isto tenha vindo ao de cima em tão pouco tempo. Fica-se com uma impressão de paz podre, de incapacidade, de déjà-vu. E dá-se, inevitavelmente, razão àqueles que viam na neófita equipa da pediatria uma manta de retalhos, sem padrão nem nexo, tecida à pressa para fazer número e mostrar serviço. É claro que não seria justo ignorar o mérito da aparência: em poucos meses, o hospital da Guarda conseguiu trazer o maior número de sempre de pediatras e esforçou-se por operacionalizar o serviço. Mas as verdadeiras questões radicam na substância das coisas. Quem garante que esta equipa não ficará devassada pelo êxodo, voltando tudo ao mesmo? Agora percebe-se que os partidos do governo tenham passado com tanta discrição ao lado do assunto. O conselho de administração do hospital fez por conta própria a volta imperial, exibindo a urgência pediátrica à comunicação social como a mais gloriosa – e até aí improvável – conquista. E ninguém ouviu os dirigentes do PSD nas falas do costume, procurando capitalizar a promessa cumprida em comunicados e conferências de imprensa. Está explicado: faltou-lhes o ímpeto da convicção. O silêncio não é a encenação – é o embaraço.
«O Interior»

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