23 de maio de 2003

23 Mai 2003: Da bola

1. Ninguém tem nada com isso mas do meu círculo de familiares, amigos e conhecidos sou o único que não gosta de futebol, que não tem clube, que nunca terá olhado mais de cinco minutos para o mais empolgante desafio que pudesse ter passado na televisão, que não foi assistir ao Portugal-Noruega e que se esteve a borrifar ontem para o resultado do Porto em Sevilha – e tanto me dá que fosse o Porto como a Selecção. Há quem tente convencer-me, de modo recorrente, que isto configura um desvio insanável na minha personalidade e pode, numa decomposição de psicologia selvagem, acusar um lado gay. Preocupado com esta conjectura, já procurei afirmar-me num interesse clubístico. Como a Desportiva não arranca e o Mileu está na desgraça, tentei prestar alguma atenção ao Sporting. Não sei porquê, foi um feeling: há naquele clube um sentido de organização e qualquer coisa de cosmopolita que me agradam, mesmo que não saiba, sequer, dizer de seguida o nome de três jogadores. Mas ainda não tinha assente a preferência e já estava a ser insultado. Até o meu filho de quatro anos fez uma birra (diz-se do Benfica). Desisti e devolvi-me à matriz agnóstica. Sinceramente também não percebo donde pode provir uma preferência clubística. É-se de um partido político por aproximação ideológica, por opção programática ou, vá lá, por mera conveniência. Mas é-se adepto de um clube de futebol porquê? Seja o que for, funciona. Basta ler a quantidade de manifestações por escrito, na página ao lado desta na última edição do «O Interior», contra uma crónica de António Ferreira sobre pretensas razões para odiar o Futebol Clube do Porto. Os jornais e as rádios bem se esforçam para promover a discussões públicas – sobre política, sociedade, identidade, educação, desenvolvimento, futuro – e é tudo arrancado a ferros. Mas fala-se da bola e é página cheia.

2. Ainda assim, sou capaz de reconhecer que o não existir uma equipa de futebol que represente a Guarda a não ser nos campeonatos da bolinha é um sinal de incapacidade e um reflexo do estado da cidade. Tivemos a Desportiva. Serviu para tudo e a todos. Facilitou negociatas e cobriu lavagens de dinheiro. Auxiliou partidos e consagrou políticos. Chegou a ser tirocínio de candidatos à Câmara. Caiu quando deixou de servir aos mesquinhos interesses privados que se confundiam com a razão de ser do clube. Foi de usar e deitar fora. Tivemos o Mileu. Tentou ocupar um espaço vazio. Foi um acidente de percurso num clube de bairro. No dia em que uma equipa de futebol voltar aos campeonatos com a camisola da Guarda vestida, isso significará algo mais do que o início de um mero desafio de futebol – será o remate de um desafio à nossa própria auto-estima. A bola, neste caso, é o que menos interessa.

3. Mas os clubes vivem numa escandalosa dependência do subsídio e, à mínima contrariedade (ou quando os resultados não surgem), é para as câmaras que costumam virar-se, com uma mão estendida e a outra a apertar o gatilho. A realidade no distrito é perniciosa: aos dezanove clubes que participam com equipas seniores na primeira divisão distrital e na terceira nacional, as câmaras atribuem este ano, no conjunto, perto de um milhão de euros. Estes subsídios vêm contabilisticamente declarados como auxílios à formação, apoio ao desporto ou comparticipação às camadas jovens, entre outras metáforas que disfarçam a realidade que assenta no financiamento de equipas e campeonatos. Sem contar, claro, com tudo o resto: os estádios ditos «municipais», onde ninguém mais ousa pôr o pé; os funcionários; os transportes por conta. Política e bola são dois poderes que andam de braço dado – porque, em regra, o primeiro se submete aos desígnios do segundo na mira de receber em votos o preço de uma associação muitas vezes suspeita e quase sempre pouco saudável.

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