9 de maio de 2003

9 Mai 2003: Ah, Valente!

O meu candidato à Presidência da Câmara da Guarda é, provavelmente, Joaquim Valente. Que me perdoem, no PS, Álvaro Guerreiro, António Saraiva, Fernando Cabral e José Igreja e, no PSD, Crespo de Carvalho, que sonham ver o próprio retrato no cartaz. Já nem ponho como cenário que Maria do Carmo Borges e Ana Manso bisem o despique. Tenho visto piores ódios terminarem em sociedades anónimas e não me espantará que, nos dois anos que faltam, as duas abandonem a vida política, façam as pazes e obtenham juntas o franshising da Cortefiel e da Zara para os distritos da Guarda, Castelo Branco e Viseu, tornando-se empresárias de sucesso e nas maiores empregadoras do sector terciário na região. Maria do Carmo já anunciou que sai. E, na ausência da adversária a quem destinou quatro anos de marcação cerrada, uma nova candidatura de Ana Manso não teria jeitos de ser digna ou interessante. Acredito que, desta vez, a presidente da Câmara fale a sério: se há dois anos não teve outro remédio senão aligeirar o tabu e seguir em frente, agora o alfobre de candidatos que Esmeraldo Carvalhinho dizia ter para as últimas eleições autárquicas já medrou e está na altura da colheita. Obviamente, excluiu-se ele próprio da corrida. Ao contrário do que se possa conjecturar, Carvalhinho não quer ser presidente da Câmara, ou melhor, quereria mas tem a consciência de que não seria candidato para vencer. Correu para a presidência da concelhia do PS a tempo de se impor a novo mandato em lugar elegível (pressentindo que tentariam sacrificá-lo pela porta baixa) e passou o testemunho quando o poder (pelo menos o poder eleito) deixou de lhe interessar: daqui para a frente lavará as mãos e gozará o estatuto de rapaz novo e com boa reforma. A apuradíssima intuição política – que muitos achavam improvável – é, afinal, o que o tem distinguido dos pares. Talvez para triunfo de Esmeraldo Carvalhinho, Joaquim Valente foi arrancado desse alfobre e enxertado à força noutra leira, antes das últimas eleições. O que, vistas agora as coisas, nem foi o pior que aconteceu ao antigo número três da Câmara: a imolação em Celorico da Beira acabou por lhe dar uma aura de herói. Depois, a forma comedida como tem gerido o lugar na administração do Polis permitir-lhe-á sair a ganhar, seja qual for o resultado da revitalização urbanística que é suposto ter fim a poucos meses das eleições. Se a coisa correr bem, poderá com alguma legitimidade proclamar-se pai da ideia – e recordar que foi ele quem arrancou este investimento para a Guarda, por conta de longínquas e académicas noitadas de copos e miúdas com o colega de curso Pinto de Sousa, mais tarde conhecido por José Sócrates. Se correr mal, invocará a mesma coisa – mas lamentará que outros tenham gerido com tanta imperfeição as suas boas influências. Mas o que mais conta, agora, é a conquista recente da nossa auto-estima: um jogo internacional de futebol com transmissão televisiva. Praticamente todos os dirigentes políticos da Guarda passaram pelo tirocínio da bola, obrigatório para quem anseia dar nas vistas. Em 1989, quando o PSD escolheu o médico Raul Saraiva para candidato à Câmara, mexeu primeiro os cordelinhos para o pôr à frente da defunta Desportiva da Guarda, na busca de protagonismo. Mas nunca ninguém chegara aonde Valente chegou, como presidente da inócua Associação de Futebol da Guarda. Já tínhamos percebido que ele usa o cargo para se insinuar na alta-roda da tribo do futebol, em vez de ficar aqui a aturar as tricas dos matarruanos dos campeonatos distritais. Eis o resultado: como os próprios dirigentes da Federação reconheceram, o Portugal-Noruega só veio porque o homem da Guarda não lhes largou o juízo. E mal terminou, já prometeu trazer um Portugal-Espanha em selecções principais. Como o futebol induca e instrói, Joaquim Valente poderá ter, a fazer mais destas, toda a região na mão. Mas o que isto também revela são qualidades cujo reconhecimento é transversal a adeptos e a não-adeptos: a persistência, a organização, o talento empreendedor. Não se pode esperar melhor de um autarca. Faz lembrar Joaquim Morão, tido há décadas em Lisboa como um chato do caraças, que não sai de ao pé da porta dos ministérios. Assim se fez autarca-modelo, por tudo quanto realizou em Idanha-a-Nova e tem vindo a realizar em Castelo Branco. Modelo, ainda por cima, Joaquim Valente parece que já é: amigas minhas, a quem tenho manifestado esta teoria política, dizem que ele tem argumentos cuja apreciação obviamente me ultrapassa. Vai estando, então, na altura de lançar a discussão. Eu, se tivesse o costume de votar (coisa que deixei de fazer há anos), votava em Joaquim Valente.

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