25 de setembro de 2003

25 Set 2003: Um dia sem carros e trezentos e muitos sem coragem

Há uma lição a tirar do Dia Europeu sem Carros na Guarda, que é a seguinte: a cidade pode passar bem sem eles. É certo que tempo não esteve convidativo para o giro, a informação foi parca e mal distribuída, o comércio esteve isolado da iniciativa, houve gente que afastou sem cerimónia as barreiras e viram-se mais «regimes de excepção» do que seria desejável e veículos estacionados nos lugares do costume e às horas de sempre. Mas também é verdade que se provou, mais uma vez, que o trânsito automóvel é dispensável na maioria das ruas e praças onde esteve interdito. Em primeiro lugar porque há percursos alternativos que permitem circundar, sem grandes demoras, a zona antiga. Em segundo porque não existe vivência comparável à de uma cidade assim: livre, tranquila, devolvida às pessoas. Enquanto princípio, o «dia sem carros» parece exemplar. Não é só pelo lado ecológico da questão. É sobretudo pela consciência da falta de uma centralidade urbana que reconcilie os cidadãos com o espaço. Que pode, como também ficou provado, alargar-se a zonas fora da mancha medieval, fechando ao trânsito não apenas o centro histórico mas também a Misericórdia e o Largo Frei Pedro, até ao Jardim José de Lemos, criando um amplo corredor pedonal. É óbvio que estaria em causa algo mais do que a mera colocação de sinais de trânsito proibido. Seria necessário mexer na paisagem, transformar as velhas ruas em aprazíveis calçadas, inventar recantos, revitalizar espaços, criar utilidade, impor imaginação. Não seria uma decisão pacífica, evidentemente. Mas todas as cidades onde já se optou por fechar o trânsito em zonas assim tiveram em comum dois registos opostos: uma forte polémica, antes de concretizada a intervenção; e uma aceitação generalizada, depois de concluída a obra. Mas é claro, também, que algo deste género só será viável na Guarda quando houver estacionamentos a montante e a jusante. Como em variadíssimas outras coisas, basta o exemplo de Viseu para concluir que o princípio é bem sucedido. O problema é que, no nosso caso, isto tanto é válido dito agora como já o havia sido há um ano e há dois, nas anteriores comemorações do Dia Europeu sem Carros. O grave é que passaram os três anos e a Câmara, principal promotora do evento, nem um só lugar de estacionamento criou; nem uma só viela fechou ao trânsito; nem um só esboço de reanimação urbana mostrou ser capaz de iniciar nas zonas onde uma vez por ano obriga as pessoas a andar a pé. À terceira tentativa, este dia só já pode ser encarado com uma operação de demagogia e hipocrisia política. Porque a seguir continuará tudo na mesma: a Rua do Comércio, encerrada durante o Verão, reabrirá ao trânsito, à força de abaixo-assinados; a Praça Velha não deixará de ser um vergonhoso depósito de automóveis; e a construção de um silo-auto, sob o Jardim José de Lemos ou noutro lugar qualquer, nunca passará de um esquisso. Daqui a um ano teremos outro dia europeu sem carros. E, até lá, mais trezentos e muitos dias sem coragem.
«O Interior»

18 de setembro de 2003

18 Set 2003: A dor de cabeça

É provável que o presidente da Administração Regional de Saúde do Centro tenha voltado a munir-se de aspirinas. Há um ano desabafava que o Hospital da Guarda lhe provocava dores de cabeça maiores do que, por junto, os restantes trinta hospitais e a centena de centros de saúde que tem a cargo. Mas depois de achado um director clínico, contratada meia dúzia de pediatras, montado um TAC e resolvidas umas minudências, julgou poder dormir descansado. Quando perguntava como andavam as coisas, asseveravam-lhe que corria tudo no melhor dos mundos. Recebia uma porção de cartas, denúncias, reclamações e duplicados de participações a manifestar sintomas do contrário mas tentava-se a crer no diagnóstico que a administração do hospital lhe passava: eram jogos florais sem consequência, organizados pelo grupo dos comunas do costume. Nada que pudesse comprometer substancialmente a harmonia reinante ou impedisse o patrão da saúde na região de declarar, como o fez há poucas semanas, que este hospital não voltara a causar-lhe cefaleias nem insónias. Parece que atraiu um achaque: nos dias seguintes percebeu que aquilo que se passa no hospital da Guarda é paz podre. O rastilho do serviço de radiologia era só um de muitos. O incêndio acabou por pegar neste por culpa, sobretudo, de uma boçal ausência de frontalidade: em vez de aclararem com a directora do serviço as desconfianças que persistem pela sua ligação ao sector privado, escolheram desautorizá-la dentro da própria unidade; em vez de admitirem que nunca se fariam rogados a conceder-lhe a licença sem vencimento (como concederam), deixaram que a médica caísse na ingenuidade de retirar o pedido, por incentivo do director clínico; em vez de lhe confessarem que a simpatia que nutre pelo PS também fez dela o elo mais fraco neste processo, preferiram retirar-lhe o tapete sem cerimónia nem satisfação. Resultado: puseram uma boa parte do corpo clínico a exigir explicações e a ameaçar com pedidos em bloco de licenças sem vencimento, greves de zelo e saídas para outros hospitais. A administração declara que não ter nada a ver com o assunto e deposita-o nas mãos do director clínico, qual bomba-relógio. Este foge ao confronto, escudando-se na dificuldade de agenda. Percebe-se que vai ser a primeira vítima da «chicotada psicológica» que está a ser preparada a pretexto de uma reorganização anual da equipa directiva (e, segundo as más-línguas, para criar um emprego de vogal). Acabaram as melhoras do presidente da Administração Regional de Saúde. Daqui para diante, vai precisar de uma grande dose de auto-medicação para conter a cefalalgia aguda. E perguntam: o que teremos nós a ver com estas tricas? Temos tudo. Em primeiro lugar porque se trata de um serviço público. Em segundo porque anda toda a gente a falar do hospital novo, do terreno para o hospital novo, da cor das paredes do hospital novo, sem que se observe a questão essencial: para que precisamos de um hospital novo?
«O Interior»