18 de setembro de 2003

18 Set 2003: A dor de cabeça

É provável que o presidente da Administração Regional de Saúde do Centro tenha voltado a munir-se de aspirinas. Há um ano desabafava que o Hospital da Guarda lhe provocava dores de cabeça maiores do que, por junto, os restantes trinta hospitais e a centena de centros de saúde que tem a cargo. Mas depois de achado um director clínico, contratada meia dúzia de pediatras, montado um TAC e resolvidas umas minudências, julgou poder dormir descansado. Quando perguntava como andavam as coisas, asseveravam-lhe que corria tudo no melhor dos mundos. Recebia uma porção de cartas, denúncias, reclamações e duplicados de participações a manifestar sintomas do contrário mas tentava-se a crer no diagnóstico que a administração do hospital lhe passava: eram jogos florais sem consequência, organizados pelo grupo dos comunas do costume. Nada que pudesse comprometer substancialmente a harmonia reinante ou impedisse o patrão da saúde na região de declarar, como o fez há poucas semanas, que este hospital não voltara a causar-lhe cefaleias nem insónias. Parece que atraiu um achaque: nos dias seguintes percebeu que aquilo que se passa no hospital da Guarda é paz podre. O rastilho do serviço de radiologia era só um de muitos. O incêndio acabou por pegar neste por culpa, sobretudo, de uma boçal ausência de frontalidade: em vez de aclararem com a directora do serviço as desconfianças que persistem pela sua ligação ao sector privado, escolheram desautorizá-la dentro da própria unidade; em vez de admitirem que nunca se fariam rogados a conceder-lhe a licença sem vencimento (como concederam), deixaram que a médica caísse na ingenuidade de retirar o pedido, por incentivo do director clínico; em vez de lhe confessarem que a simpatia que nutre pelo PS também fez dela o elo mais fraco neste processo, preferiram retirar-lhe o tapete sem cerimónia nem satisfação. Resultado: puseram uma boa parte do corpo clínico a exigir explicações e a ameaçar com pedidos em bloco de licenças sem vencimento, greves de zelo e saídas para outros hospitais. A administração declara que não ter nada a ver com o assunto e deposita-o nas mãos do director clínico, qual bomba-relógio. Este foge ao confronto, escudando-se na dificuldade de agenda. Percebe-se que vai ser a primeira vítima da «chicotada psicológica» que está a ser preparada a pretexto de uma reorganização anual da equipa directiva (e, segundo as más-línguas, para criar um emprego de vogal). Acabaram as melhoras do presidente da Administração Regional de Saúde. Daqui para diante, vai precisar de uma grande dose de auto-medicação para conter a cefalalgia aguda. E perguntam: o que teremos nós a ver com estas tricas? Temos tudo. Em primeiro lugar porque se trata de um serviço público. Em segundo porque anda toda a gente a falar do hospital novo, do terreno para o hospital novo, da cor das paredes do hospital novo, sem que se observe a questão essencial: para que precisamos de um hospital novo?
«O Interior»

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