23 de outubro de 2003

23 Out 2003: E fazer greve de fome?

É legítimo protestar contra uma diminuição drástica na dotação financeira do Plano de Investimentos da Administração Central para o distrito da Guarda? É uma obrigação. É válido assumir sentimentos de “descontentamento e revolta” perante a “injustiça flagrante” de ficar com uma fatia “dramática” do Orçamento de Estado? É um dever. É aceitável zurzir o Governo, os representantes locais do Estado e os deputados da situação por “injustiça”, “má-fé”, “camuflagem da vergonha dos números”, “seguidismo em relação ao poder central”, “incompetência” e “ausência de poder reivindicativo”? É um direito. Que o diga Ana Manso. Foi a deputada do PSD quem afirmou isto e muito mais – com alguma razão, reconheça-se – contra o PIDDAC de 2001. Estava o PS no Governo e tudo quanto se propunha investir no distrito da Guarda não passava de 92 milhões e meio de euros. Menos oito milhões, portanto, que no ano anterior. Ana Manso e Álvaro Amaro, então deputados da oposição, acusavam os socialistas de “atirar areia para os olhos das pessoas” e vergastavam o governador civil (que era, na altura, Fernando Cabral) e os deputados do PS pelo “escândalo” de terem deixado o distrito ficar em penúltimo na distribuição do «bolo» – bastante atrás de Castelo Branco e de Bragança e, claro, a muitos milhões de distância de Viseu. Passado um ano, protestaram com ainda maior vigor. Eram ambos candidatos a presidentes de câmaras (Ana Manso na Guarda e Álvaro Amaro em Gouveia) e diziam sobre o PIDDAC para 2002, o Governo, os deputados e os boys o que Maomé não disse sobre o toucinho. Apesar de o distrito ter subido, nesse ano, de penúltimo para antepenúltimo na relação dos investimentos a haver por conta da Administração Central (com um simbólico aumento de dois milhões e meio de euros), continuavam cobertos de razão.
Nisto dá-se a derrocada do PS e a ascensão do PSD ao poder. Ana Manso, agora deputada pela maioria, ascende ao estatuto de presumível – e provavelmente não mais do que isso: presumível – eminência parda, fazendo crer que pode, quer, manda e domina. Mas ao cidadão comum basta que ela consiga ser coerente consigo própria e persuasiva com o novo poder, para que a justiça que antes clamou para o distrito seja por fim reposta.
E o que temos? Logo de começo, cinco milhões de euros menos no PIDDAC para o corrente ano e o retorno a penúltimo na tabela. Com o previsível pretexto de, por ser o primeiro orçamento da era pós-PS, ainda importar efeitos do desvario.
E agora? Agora é o descrédito absoluto. Para 2004 este governo consegue destinar ao distrito da Guarda o pior orçamento dos últimos dez anos. É proposta uma redução líquida de quinze milhões euros, o que representa um corte de quase o triplo daquilo que a ministra das Finanças tinha fixado como meta de restrição ao investimento público.
Com a excepção de Portalegre, somos o distrito mais penalizado do eixo da interioridade: em comparação, Bragança recebe mais 37 milhões de euros; Vila Real mais 34 milhões; Viseu mais 53 milhões; Castelo Branco mais 23 milhões; Évora mais 24 milhões; e Beja mais 82 milhões. E apenas três destes distritos – Vila Real, Viseu e Castelo Branco – têm maior população que o da Guarda (sendo pacífico que esse é um critério ponderável).
O que nos faltou? O de sempre: liderança, influência, poder, reivindicação, respeito. Ana Manso pode engolir tudo quanto proferiu há dois anos e há três: afinal fez pior. Por isso ainda não teve a coragem de dar a cara: não há como explicar o inexplicável. Não é da conjuntura, certamente. E também não é, decididamente, culpa dos que estiveram antes: há cem anos já D. Carlos declarava que “esta choldra é ingovernável” e houve muitos governos depois disso. Se não tem uma justificação razoável, o melhor é a líder do PSD remeter-se ao silêncio e à patente ineficácia. E os dirigentes do PS, que esta semana vieram classificar de “humilhante” o orçamento, têm razão mas também é recomendável que não façam ondas. Se há acusação recíproca em que os dois partidos estão rigorosamente certos é a de que, por junto, o que fizeram por este distrito foi absolutamente nada ou pouco mais.
Só há, assim de repente, uma maneira de ambas as partes salvarem a honra: faltando vinte dias para a aprovação do orçamento e sendo quatro os deputados pelo distrito, vão a tempo de reclamar, exigir, negociar ou mesmo extorquir coisa que se veja. Em função daquilo que o orçamento reservar para o distrito na derradeira versão, cada um votará em consciência – mandando às malvas a disciplina partidária. Pode dar-se o caso de os deputados do PS votarem a favor da proposta do Governo, se ela for justa para os interesses da Guarda; como podem os deputados do PSD votar contra, a manter-se tal como foi apresentada.
No limite, se ninguém desse importância à tentativa (porque a realidade aritmética é que quatro votos não chumbam o orçamento), sobrar-lhes-ia uma saída radical e potencialmente mediática: fazer greve de fome, num corredor do Parlamento, até que houvesse o compromisso de aumentar o investimento público no distrito.
Já foi experimentado uma vez – em nome de um queijo – e deu resultados extraordinários. É certo que se tratou de uma representação burlesca do sistema político. Mas, seja dita a verdade, ainda ninguém inventou melhor. Irão os deputados pela Guarda surpreender-nos?
«O Interior»

18 de outubro de 2003

18 Out 2002: Bandeiras desbotadas

Ou o hospital da Guarda acerta rapidamente na receita para sarar as próprias feridas ou não conseguirá conter a infecção e, quando der por ela, encontrará o corpo já de tal forma mazelado que será difícil isolar a causa – e o tratamento tornar-se-á doloroso.
O tempo passa e nada: a equipa que devia estar a conduzir os destinos hospital continua por formar, porque o lugar de director clínico está outra vez deserto. José Cunha pode não ser, afinal, o médico bonacheirão que muitos supunham disponível, por militância e bom feitio, a transigir na condição de «reserva de excepção» para o cargo, se não encontrassem mais ninguém.
Como se está a ver, ele não é necessariamente assim. E, vendo-se apertado entre as movimentações a montante (o esforço de pacificação do corpo clínico, que resultaria na criação de uma equipa directiva sobre a qual o próprio teria reduzida margem de escolha) e as resistências a jusante (a falta de consenso com o PP em relação ao nome), Cunha poderá, simplesmente, optar por seguir a sua vida, tranquilo e indulgente – e livre de aborrecimentos.
Nisto vão decorridas duas semanas desde que Alberto Duarte resignou, ao cabo de pouco mais tempo, ao lugar. Mas há outros prazos que se esgotam. Prendem-se com promessas, protestos, anseios, disputas. E com bandeiras eleitorais que já se vêm desbotadas ou a meia haste.
A Pediatria está reduzida, desde Terça-feira, a um especialista: Luísa Pedro meteu baixa médica (e talvez não volte, visto que a esperam nos próximos dias no hospital das Caldas da Rainha) e outro clínico presta serviço em regime de apoio temporário.
Qual será o futuro desta unidade e de outras que sem esta estar a funcionar correrão riscos (como a maternidade e a neonatologia)? Que é dos pediatras que se diziam ansiosos por virem para a Guarda? Virão depois – virão quando? Virão?
Há um antigo provérbio chinês que diz: negociar é como mastigar cana-de-açúcar. Começa-se pela raiz (que é algo amarga) e continua-se pelo caule, que sabe progressivamente a doce. E como o que é doce nunca amargou, espera-se que a «mastigação» dos novos senhores deste hospital entre depressa no talo da planta. Pior seria se tudo isto fizesse lembrar uma peça de fruta que dá um trabalhão a descascar e depois não tem nada para comer.
«O Interior»

16 de outubro de 2003

16 Out 2003: A entrevista

Não é tanto pelo caso em si. É mais pela andança que deu. No fim-de-semana passado tive doze preciosos minutos de entrevista com o juiz Rui Teixeira para a Rádio Altitude, que correu o país. Não revelo o segredo por inteiro. Só admito que a oportunidade resultou, também, de compromissos: com o Clube Escape Livre (organizador da última edição da “Land Rover Rota Histórica”, em que o juiz participou), que acedeu a intermediar o contacto mediante a minha palavra e a da rádio de, mesmo sabendo antecipadamente da presença de Rui Teixeira, não a tornar pública; e com o próprio magistrado, com quem assumi o acordo de cavalheiros de tentar não tocar no tema da Casa Pia e de só divulgar a entrevista a partir da tarde de domingo, quando ele já estivesse a milhas. A conversa foi gravada às oito da manhã de Sábado, numa sala do hotel, com os omnipresentes seguranças de vigia à porta. Cordato, simples, bem-humorado, rematou a conversa com uma intuitiva verdade: “você leva aí um grande «furo»!”. Claro que não estávamos propriamente num encontro de anjinhos: nem ele ia convencido que falara apenas para os noticiários da Rádio Altitude; nem eu pensava noutro destino para a entrevista que não fosse, também, fazê-la render para dar visibilidade nacional à minha rádio. E lá fomos: ele para o todo-o-terreno no Vale do Côa; eu a fazer uma cópia de segurança e a negociar com a TSF e com o «Público» (os primeiros «contemplados») um tratamento à maneira, dada a exclusividade da «bomba». Só que uma estação de televisão também «pescou» o juiz no passeio, no dia seguinte. E fez durante toda a tarde um espavento, a garantir que tinha um «exclusivo». E não tinha. Para acabar com as manias, contactei uma estação da concorrência para ceder, se a quisessem para essa noite, a nossa entrevista. É uma aventura, telefonar para a televisão pública num domingo à tarde. A telefonista, a produtora, a colega, só um momento, a secretária da agenda. O editor do Telejornal? Nem pensar. Mas temos uma entrevista ao juiz Rui Teixeira, podemos cedê-la (ou ter a «cortesia», como se diz), porque há outra estação a dizer que a tem em exclusivo. “Rádio quê? Altitude? Da Guarda? Isso é na Serra da Estrela, não é?”. Pois. “Olhe, deixe o seu contacto”. No dia seguinte, mal a TSF abriu o noticiário da manhã com as declarações de Rui Teixeira à Rádio Altitude, foi aquela a primeira estação de televisão a telefonar para a Serra da Estrela (telefonaram todas a pedir o mesmo, incluindo a que julgava ter o «exclusivo»): queria a entrevista. Vivi um momento de deleite mordaz: expliquei-lhes que só a não tiveram antes porque não quiseram. Quinze minutos depois, ainda nem era hora de expediente, ligava-me, sem cerimónias, a conhecida directora-adjunta da estação. A forma como tinha sido atendido na véspera era grave, ia ter repercussões internas, e fazia questão de me pedir pessoalmente desculpas. Mas o dia ainda me reservava muitas surpresas. Telefonaram-me de um diário a perguntar a que horas passaríamos as declarações do juiz e qual era a frequência da rádio. Para quê? “Vamos tentar apanhá-la em Lisboa. Ou acha que não é possível?”... De outro jornal pediram-me autorização para transcrever a entrevista e ofereceram-me um cargo de correspondente, que educadamente declinei. Recebi ainda duas propostas para a rádio vender a gravação “a qualquer preço”. E atendi um responsável editorial de um semanário popularucho, enraivecido, que só queria que lhe respondesse, a título pessoal, a duas perguntas. Uma: “afinal, o Rui Teixeira é um gajo recatado ou é só um gajo porreiro, que dá entrevistas quando quer e a quem bem lhe apetece?”. Pareceu-me um gajo recatado, que faz o que entende. Outra: “E como é que uma merda de uma rádio local, desculpe lá a expressão, consegue a puta da entrevista e a malta aqui anda há meses atrás do gajo?”. Talvez porque não fazemos jornalismo de merda, acho eu, desculpe lá também o termo. Ainda faltava o tablóide que, depois de passada a gravação por telefone aí pela décima quinta cortesia do dia, quis fazer uma breve sobre o entrevistador. Idade, quantos anos de profissão, filhos, vícios, como é que consegui a entrevista e etc. Pediu-me também que recordasse «sinais particulares» de Rui Teixeira. Foi aí que me espalhei fatalmente: não soube identificar a marca de cigarros que o juiz fumava. O jornalista insistiu – mas só consegui lembrar-me de duas palavras que tinha a vaga ideia de ter lido no maço: «fumar mata». O meu perfil acabou por não vir publicado com a entrevista. E naquele dia deitei-me cedo, cansado e com uma fortíssima dor de cabeça. E a pensar que, por não prestar atenção aos detalhes essenciais, talvez nunca passe da cepa torta.
«O Interior»