29 de julho de 2004

29 Jul 2004: Gostar sem fingir

Há quem veja na escrita dos jornais um desmedido privilégio. É-o em parte mas também é uma funesta responsabilidade, tanto maior quanto esguio for o cenário sobre o qual e para o qual se escreve, pela arriscada proximidade em relação aos factos e a quem os protagoniza. Esta partilha do mesmo espaço entre jornalistas e notícias é característica dos meios pequenos e não trará, que se saiba, inconvenientes por aí além, desde que não comprometa a percepção correcta que cada um dos lados deve ter acerca do seu próprio papel. Porém, como em todas as vizinhanças, é fatal que mais cedo ou mais tarde surjam mal entendidos e desavenças. E quando no mesmo condomínio se cruzam poderes e a imprensa, toda a paz se revela débil à mínima sacudidela. Isso desinquieta certas cabeças, levando-as a associar o simples exercício do direito à informação – um exercício bipolar, que tanto beneficia quem o pratica como, ainda mais, quem o usufrui – a ínvias tendências ou a arrebatados objectivos. Ora, a vivência democrática começa, precisamente, quando o cidadão ousa pensar, reflectir, discordar – e exprimir as suas convicções sem receio de que elas possam coincidir ou colidir com as de quem quer que seja (partidos, protagonistas, grupos, interesses, autoridades). É possível que haja, no meio dirigente local, alguns espíritos mais lúcidos que já tenham ultrapassado o estigma de que uma comunicação social renovada e activa podia constituir embaraço ou perigo. Mas também há, infelizmente, quem demore nesta aprendizagem e persista em ver a imprensa como a única parcela que escapa ao controlo de quem se acha indefectível fazedor de coisas. A escrita nos jornais ou a palavra nas rádios acabam inevitavelmente por preceituar um código de valores e princípios. É isso que nos distingue uns dos outros e leva cada um de nós à conquista de um espaço, em terreno fragmentado e competitivo. Não digo que a razão viva sempre deste lado. Nem garanto que não se cometam imprecisões ou que não se capitule no excesso. Mas entre o risco do exagero e a tentação do silêncio, penso que o primeiro, não sendo propriamente um direito, é pelo menos uma falta justificável e sanável. O princípio filosófico e instrumental é que esse risco, quando for pisado, o não seja por leviandade ou má-fé. Preocupar-me-ia muito se não soubesse assumir os erros que possa cometer por aquilo que digo ou escrevo. Mas preocupar-me-ia bastante mais se não acreditasse na minha própria razão ou se, por comodidade ou por conveniência, acabasse a defender opiniões que no meu íntimo sabia estarem erradas ou serem injustas. Na Guarda – como noutras cidades, provavelmente, mas isso é mal delas – convivemos com a mediocridade que nos dizem legitimada; com promoções sociais duvidosas; com reconhecimentos públicos suspeitos; com a promiscuidade aceite como banal; e com a incompetência tida como corrente. Mas pior que tudo isso é o conformismo. E a tendência para o compromisso e as meias-tintas. E a quase ausente capacidade de indignação, de protesto, de confronto de pontos de vista, de denúncia e de desmistificação das certezas estabelecidas. Não se pode dizer que se gosta de uma terra sendo-se complacente com esta triste realidade. Principalmente quando se trata da terra escolhida para viver e trabalhar – que não é exclusão de partes, nem plataforma de transição, nem mal menor, nem exílio frustrado. Como em tudo na vida, gostar não é só dizer bem. Isso é fingir. Isso é matar a paixão.
«O Interior»

24 de junho de 2004

24 Jun 2004: Não quero ter sorte ao jogo

O Partido Socialista alcançou, nas últimas Eleições Europeias, uma das mais expressivas vitórias de sempre no concelho da Guarda: quase 52 por cento contra pouco mais de 32 por cento do PSD e do CDS coligados, diferença que foi cinco vezes superior à margem de vitória do PS no distrito e praticamente o dobro da verificada no país. Isto é um facto. Indiscutível. Assolador. Memorável. Mas daí a o PS embandeirar em arco e achar que a colheita está boa para se iniciar a trasfega para as próximas batalhas eleitorais vai uma grande diferença – com desmedida autoconfiança, excessiva ingenuidade e parca modéstia. Nos últimos dois anos o Partido Socialista não fez rigorosamente nada pela Guarda. Os deputados estão na oposição como estiveram na maioria: mudos, quietos, obedientes. Não são activos, são reactivos: inundam as papeleiras do expediente da Assembleia com requerimentos a perguntar o que é que se passou. Sabem pelos jornais ou pelas rádios que fechou um serviço, que se foi embora um médico, que o vizinho vai ter uma universidade – e requerem à respectiva tutela que explique o «porquê». Claro que a respectiva tutela, as mais das vezes, está-se a borrifar para eles e indica-lhe onde podem acondicionar os requerimentos. Oposição desta, que reage a factos consumados e a reboque de notícias, é um sedativo para qualquer poder. Na Câmara os resultados não são melhores. Aliás, este é o mandato da desilusão – na inversa proporção das expectativas que criou. Polis? Um fracasso. Requalificação do centro da cidade? Um fiasco. Parques de estacionamento? Nem um. Sala de Espectáculos? Atrasadíssima. Biblioteca Eduardo Lourenço? Parada porque o construtor ficou liso. Cibercentro? Já fugiram dois empreiteiros. Plataforma Logística? Encalhada. Alameda da Ti Jaquina? É mentira. A «aposta no espaço urbano», a «criação de novas centralidades», a «revolução na paisagem», a «devolução do espaço às pessoas» e a «cidade onde dá prazer viver»? Tudo tretas. E era assim, a dois terços do mandato, que as pessoas iam dar uma vitória clara ao PS só por se tratar do PS? Claro que não. Em primeiro lugar, porque foram poucas as pessoas que se deram ao trabalho de votar nalgum partido. Em segundo, porque as pessoas também deram a Maria do Carmo Borges, com um intervalo de quatro anos, primeiro a mais folgada e a seguir a mais aflita vitória do Partido Socialista na Câmara da Guarda. Ou seja: as pessoas não são estúpidas. Achar agora que a goleada de 52-32 nas Eleições Europeias foi uma vitória pessoal de alguém – de Maria do Carmo Borges ou de algum dos sentados do Caçador – é não ver nadinha de nada. Recostarem-se todos à sombra dos números é dar razão a Fernando Ruas, citado Segunda-feira no "Público": passamos a vida na Guarda a «ouvir declarações míopes» de responsáveis políticos e precisamos «pedalar para atingir o desenvolvimento registado por Viseu». Custa engolir – mas o homem tem razão.

«O Interior»

3 de junho de 2004

3 Jun 2004: Cicatrizes na paisagem

Hoje falo sobre jardins. Decerto há assuntos mais importantes de que me ocupar e coisas mais úteis sobre que escrever. Mas também não é meu objectivo dissertar acerca do bucólico aspecto e da prazenteira presença dos canteiros. Quando muito é para lamentar, agora que o tempo está de feição, o desmazelo que criou raízes nos espaços de lazer ao ar livre na Guarda. O Parque Municipal é o expoente alegórico deste abandono, que não deixa de fora nenhuma dos raríssimas zonas verdes criadas nos últimos anos: o jardim dos Castelos Velhos está a ficar reduzido a cacos; o do Largo da Estação é um insulto; o dos Delírios é uma alucinação; o das traseiras dos prédios junto à Capela do Mileu é pasto de gado; a própria estação arqueológica é um chiste. É verdade que nem toda a responsabilidade pode ser atribuída à Câmara. Muito do que ali se vê é o resultado da incúria colectiva, da deficiente educação cívica, da falta de respeito pelo que é de todos. Mas precisamente por isso é que vale a pena falar de jardins – para demonstrar que, para mal colectivo, estavam certos quantos torciam o nariz à «opção estratégica» que teimou em exprimir o conceito de requalificação urbana numa pretensa transformação de um atoleiro num parque público com grande dimensão e valências distintas. E o que temos, agora que o projecto se aproxima do fim? A trinta dias do último bater do relógio do Polis não temos praticamente nada. Mesmo com prorrogações consentidas ou meras dilações tácitas, o que está à vista é um enorme falhanço e uma oportunidade perdida. Parque Urbano do Rio Diz? Está armada a tenda e existe um esboço de um futuro parque infantil e de lazer, numa zona fora de mão e com maus acessos. Jardim da Ciência, Quinta Pedagógica, Centro de Interpretação da Natureza, Museu da Água e por aí diante? Nada, rigorosamente nada. Encosta Norte da cidade? Apenas o atraente tratamento paisagístico do pinhal, por agora inacessível pelos taipais que rodeiam a antiga avenida dos bombeiros, onde o restaurante e o miradouro provavelmente nunca chegarão a sair do papel (ao menos arranquem a vedações, limpem o estaleiro e improvisem um parque de estacionamento onde existiu o quartel). Encosta da feira? Fica como está, que nunca foi outra a ideia. Nesta desmedida fantasia esvaiu-se tempo e dinheiro. Sobram menos de trinta dias para o fim oficial das obras e não resta, ao que parece, um cêntimo. Obras, nem vê-las. Pelo menos as tais obras que prometiam mudar a face da cidade, devolver o espaço às pessoas, aproximar os núcleos urbanos, criar eixos de vivência e lazer. Insistiu-se numa megalomania dispersa e perdeu-se a oportunidade de reanimar as centralidades tradicionais da Guarda. Não se fez um único lugar de estacionamento, não se retirou o trânsito da zona histórica, não se interveio na Praça Velha (tantas foram as «datas certas» para o começo que já toda a gente começa a achar que é mais um logro), não se construíram zonas pedonais, não se criaram recantos, não se revitalizaram espaços, não se instalaram serviços. A zona entre a Sé e o velho Sanatório, completamente plana e com tudo à mão, podia ser um enorme jardim, uma soberba praça pública, um espaço nobre para orgulho de residentes e prazer de visitantes. Bastava ter aceite as ideias que tanta gente ofereceu. Bastava ter construído grandes parques de estacionamento em cada extremo, à superfície ou sob o solo. Bastava ter existido visão estratégica e coragem política. Bastava não se terem deixado deslumbrar com os milhões de mão beijada que o Polis proporcionou, sem que tivessem sabido ao certo em que aplicá-los. Bastava não ter sido permitido tanto disparate. Bastava não terem sido oferecidas nozes a quem não tem dentes. E como se não bastasse o que nunca chegou a bastar, o mais certo é que, no fim de tudo, ninguém seja chamado à razão pelo fracasso. Apesar de nos devolveram uma cidade ainda pior do que antes da proposta «revitalização». Porque isto foi como uma operação plástica realizada por curiosos: em vez da beleza prometida, ficam à vista cicatrizes irreversíveis. Um horror.
«O Interior»

20 de maio de 2004

20 Mai 2004: Caça à multa

No último ano fui multado três vezes. Numa o radar caçou-me a 70 à hora entre a rotunda do novo quartel dos bombeiros e o cruzamento do caminho para o Tintinolho. Sozinho num troço pouco frequentado da avenida, por volta do meio-dia, bem fez a polícia – dissimulada estrategicamente no acesso à antiga lixeira – em apanhar-me. Embalado nos 20 quilómetros acima do limite, sabe-se lá que loucura cometeria quando atingisse o centro da cidade. Paguei os cinquenta euros. Mas senti-me um tanso. De modo que, na ocasião seguinte, quando fui surpreendido ao entardecer por um flash numa recta da deserta VICEG, ouvi um agente comunicar-me que me tinham colhido a 105 num limite de 80 e, sem protesto, cumpri os costumes. Mas não levantei o aviso de recepção que passado um mês a PSP me enviou e devolvi a «notificação por via simples» que se lhe seguiu. Aguardo a chamada do Tribunal para ser julgado por, alegadamente, constituir um perigo para a segurança rodoviária. É provável que perca e pague (objectivamente cometi uma infracção por não observar a velocidade sinalizada e não declino a culpa) mas terei, pelo menos, o meu momento de catarse: irei discutir a imbecilidade de um limite de 80 quilómetros por hora numa via de quatro faixas que ninguém usa (porque nada foi regulamentado para desviar o trânsito dos acessos convencionais à cidade, nem sequer a proibição dos pesados) e a grosseria de um corpo policial que julga cumprir a missão de segurança pública pespegando-se à caça nos locais de previsível transgressão. A terceira multa, recente, é por estacionamento indevido em local pago. Em apenas seis minutos – o atraso entre a hora limite impressa no talão do parquímetro e o meu regresso – houve um zeloso agente da ordem pública que conseguiu preencher o papel da multa, afixá-lo no sítio e desaparecer de maneira a que eu, na volta que ainda dei pelas redondezas para tirar satisfações, já o não localizasse. Também vou deixar o caso seguir até ao relaxe. Faço questão de ser constituído arguido para olhar nos olhos o espécime que realizou o serviço. Grande parte da tarefa visível da polícia, por estas bandas, resume-se a isto: caça descarada à multa; operações stop idiotas em rotundas e cruzamentos dentro da cidade; vigia às portas dos infantários, nas horas de entrada e saída das crianças, para exibir autoridade e chatear quem não tem outro remédio senão infringir a sinalização. Numa cidade com acessos desorganizados e falta de estacionamentos, não há uma atitude de prevenção, sensibilização, amenidade, orientação ou ajuda. Não existe um sentido cívico da função – insiste-se na insolência como imagem de marca e na coibição como objectivo supremo. Há excepções? Certamente que as há, sobretudo entre os agentes mais jovens, com melhor formação e menor ascendente castrense. Mas só vêm confirmar a regra.
«O Interior»

29 de abril de 2004

29 Abr 2004: Abril suave

No 25 de Abril eu tinha cinco anos. Durante algum tempo o meu conceito da revolução não passou de um primário exercício de lógica. Estava uma carrinha de mercadorias, que acidentalmente resvalara e capotara na véspera, de rodas para o ar no outro lado da minha rua. O meu pai, ferroviário do turno da noite, voltou de manhãzinha com a proclamação: caiu a ditadura. Para mim a camioneta tombada no atoleiro chamava-se, portanto, ditadura. Acabei por suspeitar que não eram a mesma coisa, embora as quedas tivessem sido simultâneas, assim que o veículo foi removido mas não cessou a euforia, no bairro inteiro, pela cambalhota da ditadura. Mesmo quando já iam passadas largas semanas desde a ocorrência, o meu irmão doze anos mais velho festejava fervorosamente, incessantemente, com o grupo de guedelhudos que antes conspirava à sorrelfa nas vizinhanças. Aprendi com o tempo que o que aconteceu foi uma revolução. Assim, com as letras todas – a não ser que exista um sentimento de má-vontade contra a História. Uma revolução que trouxe profundas mudanças em todos os níveis da vida do país, que permitiu devolver a cidadania e as liberdades ao exercício colectivo e quotidiano, que abriu horizontes à cultura, à ciência e à economia, que reconciliou a relação de Portugal com o mundo. Uma revolução que, por isso, legou o caminho à evolução em inumeráveis (embora nem todos, infelizmente) indicadores de desenvolvimento. A evolução foi o resultado da revolução e é improvável que acontecesse sem ela, apesar dos excessos próprios da ruptura, primeiro, e da catarse, a seguir. O que não justifica que se oculte uma com a outra. Mas foi o que a publicidade governamental – «Abril é Evolução» – profusamente distribuída acabou por tentar, insistindo numa noção de progresso natural, gradual, pacífico e sem sobressaltos. Do ponto de vista do marketing foi uma campanha muito bem conseguida. Do ponto de vista da História tratou-se de uma despudorada ablução. Quis-nos fazer crer que o país contemporâneo é o resultado, em números, da consolidação do Estado democrático. Mas subtraiu o começo: a luta que, com os seus sucessos e defeitos, êxitos e falhas, disparates e rasgos de inteligência, tornou possível o regime em que vivemos. A imagem estilizada dos cravos – nenhum vermelho, note-se – sublinhou essa premeditada leitura actualizada, suave, harmoniosa, aprazível e esteticamente correcta que se pretendeu dar do 25 de Abril. O conceito de revolução pode estar velho e ultrapassado, escondendo esqueletos no armário e não trazendo grande rasgo para o futuro. O próprio sentido das comemorações pode ter-se esvaído, em cada Abril passado, numa massa cada vez menos espontânea, cada vez mais parecida com uma missa campal pela vaga liberdade de cravo ao peito. Os discursos podem estar repletos de banalidades e lugares-comuns, como se viu na indigente «sessão solene» da Assembleia Municipal da Guarda. Mas essas debilidades não podem dar à direita conservadora hoje no poder a legitimidade para reescrever o guião sobre o passado colectivo recente, como se das três dimensões do 25 de Abril – a do golpe militar, da deposição do velho regime e da ratificação popular nas ruas; a do período profundamente revolucionário que até à Constituição de 76; e a da consolidação do regime democrático – apenas a última fosse digna de figurar na História. Já no Portugalzinho destituído há trinta anos essa era a lógica: os manuais da escola só impingiam a «mais linda história do mundo» feita de lengalengas que desvirtuavam a realidade para ficar de bem com os costumes. Abril sempre? Agora mais que nunca.
«O Interior»

15 de abril de 2004

15 Abr 2004: O Mourão

Dizem uns que Júlio Sarmento tem talento político. Dizem outros que tal eminência só é verosímil na pobreza do teatro político-mediático em que se exibe a vida pública deste distrito. É possível passar por líder insigne num palco em que os enredos são frágeis, os actores são medíocres e o público é acrítico. Em síntese, é fácil ser rei numa terra de cegos. A verdade é que o presidente da Câmara de Trancoso, se não tem sido um autarca-modelo, tem pelo menos feito obra e não tem cedido à tentação cómoda da lamúria. Além disso, é dos poucos políticos no distrito – nem se contam pelos dedos de uma mão – capazes de partir a loiça. Não é raro ouvi-lo denunciar em voz alta as realidades que outros apenas sussurram ou nem sequer vêem: que esta região não desenvolve lideranças, que as forças partidárias são incapazes de influenciar o poder, que se promove o carreirismo e a mediocridade no lugar do mérito e da utilidade. É bom saber que há, neste brejo, vozes de Sarmentos que nos façam arregalar os ouvidos. É um alívio admitir que dois ou três autarcas, entre os quais o próprio, têm préstimo de hegemonia a uma escala que ultrapassa o seu próprio quintal. Ele sabe que nós sabemos e nós sabemos que ele sabe. Não foi por acaso que esta semana admitiu estar disposto a ser o próximo candidato do PSD à Câmara da Guarda, se a direcção nacional do partido lho pedir e o Governo, sendo agora da mesma cor, lhe puser na mão a faca e algum queijo. Não é difícil – nem casual, na sua própria perspectiva – perceber semelhanças entre esta predisposição para a luta pela conquista capital ao PS e, por exemplo, uma atitude idêntica que levou Joaquim Mourão, o autarca da Idanha, a conquistar a de Castelo Branco ao PSD, por acordo com o governo socialista. Júlio Sarmento não é o único das redondezas a desejar passar por Mourão da Guarda. Mas é talvez o que está em melhores condições de fazer esse papel. Em Trancoso já o dão, sem dramas de orfandade, como pronto para outros voos; tem um sucessor tacitamente designado; é transparente na ambição de chegar à capital do distrito e o partido, na vila, declara-se pronto a desobrigá-lo. Agora depende. Júlio Sarmento pode estar mesmo tentado a tomar uma candidatura à Câmara da Guarda como "corolário da minha vida política", como declarou na entrevista que deu esta semana à Rádio Altitude. E não andando nisto há apenas dois dias conseguirá – deverá ser só uma questão de se mexer – que lhe amparem a ideia em Lisboa. Independentemente do resto, só esse cenário já se afigura interessante. Para ser perfeito, era o PS nacional impor também um candidato com essência: Pina Moura é uma boa hipótese. Um e outro tornariam as próximas eleições num acontecimento mobilizador.

25 de março de 2004

25 Mar 2004: A Matrioska

Os médicos obstetras do hospital da Guarda reduzem à categoria de embuste a ilusória solução para o funcionamento da maternidade. Dizem-no numa carta aberta ao presidente da Administração Regional de Saúde do Centro, que veio à Guarda tentar deitar água na fervura mas deixou tudo ainda mais inflamável. Os clínicos, em bloco, acusam-no de manipulação da informação, mentira e omissão. É um preço que Fernando Andrade não tem outro remédio senão pagar, já que optou por pôr as mãos no fogo por toda a administração do hospital. A verdade, porém, é que a situação que se vive no Sousa Martins não se pode dissimular com discursos de confiança nem com apelos à bonança. Este hospital é como uma matrioska: cada episódio que se destapa revela um novo caso. Aos poucos descama e perde importância. E em vez de vir, como se conjecturava, dar o murro na mesa e demitir toda a gente por incompetência, o emissário do Ministério da Saúde aceitou como boas as explicações, deu como naturais as divergências entre a directora do hospital e o director clínico e teve como razoável o trabalho que o conselho de administração desenvolveu. O troco tem-no agora, pelo punho dos médicos da maternidade: não são eles os maus da fita; a presença física de um pediatra dia e noite é uma rotina com oito anos e não uma exigência de última hora; o regime do pediatra de prevenção é um risco porque não garante a presença a tempo a uma emergência; o compromisso engendrado pela administração do hospital (mas enjeitado pelo director clínico) é uma falsa solução, assente na acumulação de dias de trabalho contínuo pelos pediatras; o que a eles, obstetras, inquieta é que a qualidade do serviço sofra um retrocesso, com flagrante risco para a saúde das crianças nascidas na Guarda. Tudo isto, vindo dos próprios médicos, deixa a impressão de que neste processo o primado da aparência se sobrepôs à preocupação com a saúde pública. E assim, com uma solução em cima do joelho para não dar o flanco na mais evidente realidade – o fracasso da pediatria –, aniquilou-se um serviço médico de referência. Mas Fernando Andrade afirmou e reafirmou: eles são bons e administram menos-mal. Eles – os mesmos que pagaram ao filho de um dos próprios uma soma a título de trabalhos de engenharia no hospital. Escudam-se num concurso límpido e numa empresa legitimamente vencedora. Mas tudo indica que não houve concurso nem há empresa. Pior: nem deve haver engenheiro. O suposto trabalho pelo qual o filho do director clínico recebeu 11 mil euros a título individual foi realizado ao mesmo tempo que pendia um requerimento para estágio profissional. O recém-licenciado estagiário e o empresário prestador de serviços por concurso são a mesma pessoa. E o hospital também é o mesmo. Uma maneira bimba de sacar dinheiro? Andrade promete estudar o processo e esclarecer. Eles – os mesmos que puseram a chefe do serviço de radiologia a mexer para afastar suspeitas de promiscuidade pelo facto de ser sócia de um centro privado. Isto enquanto punham a funcionar um aparelho de TAC – outra conquista propalada – que a única médica ao serviço não se atreve a usar. Resultado: o tal centro fornece todo o serviço de imagiologia e está a facturar como nunca. E na semana passada, quando este fechou para manutenção, não houve do hospital um mínimo de esforço para usar os próprios meios – foram os doentes em romaria para Coimbra. Eles – os mesmos que encerraram a unidade de cuidados intensivos «para obras», como Fernando Andrade se apressou a redizer. Mas eles são bons, são esforçados e trabalham até altas horas. O ridículo – a última figura desta desengraçada matrioska.
«O Interior»

11 de março de 2004

11 Mar 2004: Rua!

1. Há alturas em que não é possível nem desejável ter contemplações. O encerramento da maternidade do Hospital da Guarda é um desses casos. Estamos diante de uma indecente mistificação em que se pretende fazer crer aos incautos que o problema é isolado, transitório e sem efeitos transversais. Mas a verdade é que se trata de um delito. Aliás, vários: incompetência, gestão danosa, ignorância, cobardia e má-fé. Agora já é oficial: não se fazem partos no Hospital Sousa Martins; não se atendem parturientes com mais de 21 semanas de gestação (grávidas de cinco meses, portanto); as urgências desta especialidade serão desviadas para outros hospitais; e se o da Covilhã não tiver meios, serão sumariamente transferidas para Coimbra. O conselho de administração afixou furtivamente uma nota, no Dia da Mulher, em que remete apenas para a impossibilidade de «reunir as condições exigidas à qualidade e segurança da boa prática clínica». O que significa isto? Significa que com a mais recente razia no serviço de Pediatria não há especialistas em número suficiente que permaneçam na urgência e no internamento e, em simultâneo, assegurem a presença obrigatória nas equipas da maternidade. A opção tomada foi uma malfeitoria: em vez de se privilegiar uma unidade de referência, susteve-se um serviço faz-de-conta. A maternidade da Guarda tem prestígio, tem meios, tem médicos qualificados e enfermeiros em número suficiente, desenvolve técnicas inovadoras – há anos que pratica o parto sem dor – e regista o maior índice de nascimentos entre os hospitais da região. A urgência pediátrica simplesmente nunca existiu: é na prática uma unidade de atendimento de saúde infantil, assegurada quase só por clínicos gerais, semelhante ao serviço de atendimento permanente que os médicos do Centro de Saúde ali mantiveram durante anos. A diferença é que anda por lá um pediatra, o único, a dizer que manda. Se fizesse serviço à maternidade, apenas obedecia. Na contagem das crianças atendidas, o hospital exulta com números assombrosos. Mas quantas foram, realmente, observadas por um pediatra? E quantas entraram, efectivamente, em condição de urgência? Quem dirige o hospital sabe que esta decomposição estatística é possível de fazer e facilmente resumirá à redundância a mais propalada das conquistas. Tanto que sabe que no dia em que a maternidade fechou consentiu um número anormal de internamentos em pediatria. Qualquer criança atendida na urgência teve ordem de permanência, por tudo e por nada, nem que fosse por escassas horas. Eis uma estratégia de esperteza saloia destinada a passar a ideia de actividade, de necessidade, de opção sensata. É com expedientes deste género que o hospital tenta legitimar uma decisão medrosa e perversa. Para não dar o braço a torcer no fracasso da Pediatria, mantém este serviço como um corpo vegetativo, quando esta é a valência em que mais logicamente podíamos depender da Covilhã, se existisse uma política de complementaridade de recursos que valorizasse à escala regional os melhores serviços de cada unidade. E assim ficam nove médicos obstetras, dois anestesistas, dez enfermeiras com especialidade em obstetrícia, duas com especialidade em neonatologia e onze enfermeiros gerais a olhar para as paredes. É esta equipa de 34 pessoas – que tem realizado uma média anual de 1200 partos – que está de braços cruzados desde o início da semana, só porque um pediatra do quadro e mais dois de apoio foram barricados numa coisa que não existe e impedidos de assistir nascimentos. Nem o facto de a maternidade da Guarda figurar no estudo de Albino Aroso para o Ministério da Saúde levou a direcção do hospital a assumir uma atitude reivindicativa. Estando as três unidades do mesmo eixo – Guarda, Covilhã e Castelo Branco – no grupo das «condenadas», é óbvio que pelo menos uma teria que permanecer aberta para servir toda a região. A escolha da Guarda seria pacífica, pelas condições como pelos resultados. Mas estes indigentes amoucos trataram de oferecer antecipadamente o «prémio» à Covilhã, que mal consegue despachar os 600 nascimentos anuais. E tem o Hospital Sousa Martins novas salas de partos e um bloco operatório de obstetrícia pronto a inaugurar – para nada. Por bastante menos toda a administração do hospital de Viseu foi há dias demitida. Não é possível que o Ministério da Saúde continue cúmplice do delito. Esta gente pôs tudo em causa: o futuro do hospital e o destino da cidade. A continuada existência nos lugares degrada o conceito de bom-senso e polui a nossa auto-estima.
2. O líder do Movimento pela Criança é que tinha razão: «são responsáveis que recebem ordenados pagos por todos os contribuintes, é preciso perguntar-lhes o que é que fizeram nos últimos dois anos». Referia-se à administração do Hospital Sousa Martins, a quem exigia satisfações, em vigílias e marchas lentas, já pressagiando o pior dos cenários: «qualquer dia não haverá nascimentos na Guarda». Porque a falta de pediatras podia também «debilitar a Obstetrícia». Isto disse-o há três anos, com outra gente no poder. Hoje declara diametralmente o inverso: «o movimento surgiu para lutar pela urgência pediátrica e pela pediatria, que estão a funcionar» e o problema da maternidade foge «do âmbito das reivindicações que o movimento fez». Aliás, a situação está «indiscutivelmente muito melhor». Falou assim no final de um encontro com o actual conselho de administração, na semana passada, depois de ter sido chamado para servir de veículo de desafrontas: que o problema não é do hospital mas «da exigência da Ordem dos Médicos em impor em permanência um médico pediatra», pelo que até «apelamos aos obstetras do hospital para que aceitem trabalhar com pediatras em regime de prevenção», porque a outra regra «é muito difícil de cumprir na Guarda». Eis um moço de fretes na plenitude da função. Eis o desafortunado líder de um grupúsculo de usurpadores da boa fé alheia, em busca da promoção pessoal e na ansiedade de migalhas de poder. Eis quem ainda teve o desplante de declarar – não fossem mentes perversas tergiversar – que o movimento «é autónomo, age de acordo com princípios e não anda a reboque de ninguém». Já nem se pedia honestidade moral. Mas esperava-se, ao menos, alguma vergonha.
«O Interior»

4 de março de 2004

4 Mar 2004: A força viva

Deve haver, por estes dias, um molesto pivete a queijo no Terreiro do Paço, por estarem ainda mal arejadas as bagageiras das limusinas do Estado. Acabaram de percorrer centenas de quilómetros na sacrificada romagem dos resignados titulares. Passaram Fevereiro, serra acima, todos os fins-de-semana, a caminho de festas e feiras de pastores e queijeiras, em lugares estranhos ao ouvido – Fornos de Algodres, Manteigas, Celorico – mas cuja direcção os motoristas sabiam de cor. Porque a verdade é esta: seja qual for o governo, seja qual for o estado da Nação, não há Inverno que não traga ministros e secretários de Estado, às dúzias, ao circuito do queijo da serra. Poucos chegam à paisana – quase todos se apresentam em carro oficial e com comitiva, a pedir honras (e, claro, a fazer-se ao respectivo). Alguns trazem mesmo em descaramento tanto ou mais do que levam em queijo: que justificação terá dado, por exemplo, o secretário de Estado das Pescas para vir em visita formal a uma região onde só existe truta (e de viveiro)? E o da Defesa? E o da Justiça? E o do Desporto? E o da Saúde? E o dos Assuntos Fiscais (que deve ter-se escapulido para cá à sorrelfa da somítica patroa)? Eles vêm todos. Podem nunca abeirar-se durante o resto do ano, quando há carências, quando é para ouvirem queixumes, quando adivinham que uma reivindicação ou uma pergunta incómoda os aguarda. Mas aparecem no preciso instante em que sabem que as boas maneiras não os deixarão voltar sem o porta-bagagem atulhado. É claro que, na necessidade de justificarem o passeio, sempre ouvem o que não desejariam e, entre uma côdea de centeio e dois copos de carrascão, descaem-se: aceitam pedidos, tomam recados, fazem promessas ou acedem a uma inauguração. E como uma dívida assumida com a mala do carro a abarrotar de queijo vale o mesmo, em honra, que um compromisso no jogo, os que arriscam não saldar passarão a figurar na difamante lista dos embusteiros e esconjurados e, se alguma vez regressarem, não terão direito a dignidades protocolares e seguirão de bagageira vazia (ou pagando, a quase quinze euros o quilo, como o comum dos mortais). É por isso que o queijo da serra representa a nossa mais austera mas indefectível força viva. Conquista maiores proveitos para a região numa meia-manhã a casqueiro e tinto do lavrador do que uma Presidência Aberta em oito dias de «magistratura de influência» – que não tem cheiro nem, provavelmente, sabor.
«O Interior»

26 de fevereiro de 2004

26 Fev 2004: Sísifo morreu de velho

1. Obviamente, ninguém poderia esperar que o problema da pediatria se resolvesse só porque quatro médicas recém-especializadas eram forçadas a trabalhar no Hospital da Guarda, por concursos de ingresso que não deixavam alternativa às vagas numa unidade carenciada. O que se passou com a leva de há menos de um ano tinha-se passado com a de dois anos antes e sistematicamente com as anteriores, desde que há memória de que a falta de pediatras fosse um problema. Elas vir, vêm. Algumas com casa montada, carro e motorista, como as duas últimas contratadas pelo anterior conselho de administração. Outras com licença para gastar à discrição, como aquelas que, no ano passado, foram incumbidas de pôr em funcionamento a urgência pediátrica. Mas depois saem. No tempo da anterior chefe do serviço dizia-se que era por mau feitio da senhora. Agora diz-se que é por inaptidão do sucessor, que não devia ter sido nomeado em detrimento de uma das novas médicas – ao menos para deixar entrar uma lufada de ar fresco. Mas quando não é por factores internos é porque têm a vida organizada fora daqui. Uma das pediatras veio para a Guarda (confessou-o depois) com a promessa da própria Administração Regional de Saúde de ser «só por uns tempos», até à criação do lugar que lhe estava destinado em Coimbra. Duas procuraram vaga perto de casa e ninguém as demoveu. E outra está mas não está: apesar da carência, foi autorizada a frequentar uma especialização em Lisboa. Restam o chefe, um pediatra aposentado que procura passar o tempo e uma médica eventual que cumpre um dia e meio de serviço por semana.
2. Mas se ninguém esperaria ver o problema resolvido só pela ilusão de, por uma vez, o hospital ter contado com sete pediatras ao serviço, também não era necessário nem desejável ter-se chegado ao ponto de fechar a maternidade para se perceber que aquele que foi reclamado como o mais estrondoso êxito do actual conselho de administração não é senão o seu mais retumbante fracasso. Houve outros – o da radiologia; o das urgências – mas nenhum com tanto relevo como este. A pediatria é a jóia da Coroa, é o boi Ápis. Falhando, arrasa a importância do hospital, arruína a credibilidade de quem o dirige e destrói a imagem da própria cidade. Não é porque as crianças tenham que ser atendidas na Covilhã. Há muito que se devia ter apostado na complementaridade entre os dois hospitais, deixando cada um especializar-se nas valências para que tem meios e vocação, prestando serviços à escala regional em vez de sobreporem recursos nuns míseros quarenta quilómetros de auto-estrada. A haver escassez de especialistas, assegurar-se-ia um razoável serviço de pediatria na Covilhã e permaneceriam na Guarda apenas os suficientes para dar apoio à maternidade e à neonatologia. Estas são as áreas de bandeira do Hospital Sousa Martins. A média anual de partos é maior na Guarda do que nos hospitais da Covilhã e de Castelo Branco juntos. Mas agora – a não ser aos fins-de-semana e feriados, porque um médico oblativamente se propõe ser pago a dobrar – já não há o direito a nascer na própria terra.
3. Irmanadas na culpa, as forças vivas entregam-se a um traiçoeiro silêncio. Nem governador civil, nem deputados, nem autarcas. Nem PSD, nem PS. Ninguém pronuncia uma palavra sobre esta vergonha. O director clínico do Hospital tenta explicar-se mas remete a solução para o se Deus quiser. O presidente da Administração Regional de Saúde – que foi quem mais fez alarido com a vinda dos ex-novos médicos – sugere que este é um preciosismo dos tempos modernos: todos os que temos mais de dez anos de idade nascemos sem um pediatra à cabeceira e cá andamos. E o secretário de Estado da Saúde acha que o problema da pediatria na Guarda se resolverá como a lenda da pedra de Sísifo: talvez se consiga segurá-la no cume da montanha. Mas no mito da Grécia Antiga o rochedo rolava continuamente. Sísifo morreu de velhice – sem compreender como era inglório o desígnio.
4. Permita-se-me duas questões, mesmo que recorrentes. Primeira: que é feito do movimento cívico que, antes de o PSD chegar ao poder, se desunhava em manifestações contra a falta de pediatras? Segunda: para que queremos um hospital novo?
«O Interior»

19 de fevereiro de 2004

19 Fev 2004: «Honi soit qui mal y pense»

1. Pior foi a emenda que o soneto. Em dois jantares, a "oposição silenciosa" a Ana Manso conseguiu duplicar a lista de comensais. Só que, cumprida a «análise da situação política», pouco mais restou aos 50 militantes do PSD da Guarda senão pagarem a conta e prantearem o fracasso. A líder distrital deixou que tomassem a sobremesa sossegados e, já de madrugada, mandou servir-lhes o digestivo: tornou pública a decisão dos órgãos nacionais do partido de manter válida a convocatória das eleições de domingo passado para a Concelhia. Fora de prazo para a apresentação de listas, como convinha, afastado qualquer hipótese regulamentar de oposição à candidatura de um grupo de fiéis apaniguados. Couto Paula, António Mendes, José Cunha e Carlos Gonçalves são agora os rostos de fachada do PSD na Guarda e só farão o que Ana Manso mandar, porque os lugares de nomeação política que todos têm constituem a mais segura penhora sobre o silêncio e a obediência. A deputada saiu vencedora sem esforço desta batalha breve, revelando que se movimenta com confortável traquejo na alta-roda do partido e que tem, enquanto deputada, um estatuto muito superior àquele que a imagem árida que cultiva nas tricas do meio político local deixa crer. De nada valeram aos opositores as dúvidas sobre a legitimidade da convocatória eleitoral, sancionadas pela decisão Conselho de Jurisdição Distrital de anular o processo. Pouco importa se os métodos foram ínvios ou se as assinaturas para a queda da anterior Comissão Política foram recolhidas de maneira irregular. Entre um jantar e o outro, Ana Manso identificou os transgressores, isolou-os, deixou-os convencerem-se de que tinham ganho a partida e esperou para ver quantos mais eram. Na hora que lhe apeteceu mostrou-lhes como é que se trabalha nos bastidores. Dir-se-ia que, tal como o chefe, Ana foi influenciada pelo maoismo: «Que cem flores desabrochem e cem escolas de pensamento rivalizem...». Agora que sabe quem são, aplicará a máxima que já demonstrou ser-lhe característica: «honi soit qui mal y pense». Estão tramados. Não tanto os militantes da velha guarda, os que serviram e traíram noutras eras, os que têm boas reformas, os que permaneceram na quietude até perceberem que um mandato dos piores está a tornar possível a conquista da Câmara ao PS e quiseram tomar o poder em cima de uma onda fácil. Estão desgraçados os outros – os que ainda no outro dia bajulavam e louvavam a líder, os que dependem do partido, os que vivem subordinados ao maioral, seja ele qual for, e que mudaram de barco a pensar que o reinado desta ia a caminho do fim.
2. O que moveu Ana Manso nesta cruzada foi o ter percebido três coisas. Primeira: que nos últimos meses se tinham filiado no partido dezenas de militantes novos ou retornados, para formarem a falange de uma candidatura anti-sistema às eleições para a Concelhia da Guarda, provavelmente liderada por Jacinto Dias. Segunda: que o objectivo era, em ganhando a Concelhia, indicar um candidato a Presidente da Câmara que pudesse ter melhores hipóteses de ser eleito. Terceira: que uma parte significativa do inner-circle estava a alinhar com aquele grupo. Teve o desagravo – mas para quê? Percebe-se, até nas entrevistas que deu no auge da crise (basta ler a que saiu no último «Jornal do Fundão»), que faz questão de ser outra vez candidata à Câmara da Guarda. Mas a ânsia da desforra fá-la não perceber que está a pisar num terreno escorregadio. Quem se vai apresentar a sufrágio não é a dirigente do grupo parlamentar do PSD que se destacou como coordenadora da Comissão para a Igualdade e Família ou que tem aparecido nas primeiras páginas pela postura racional que assume na questão da despenalização do aborto. Quem vai aparecer no cartaz é a vereadora da oposição que tem feito um mandato apagado; é a dirigente política local intolerante e desgastada. Candidatando-se, estará a fazer um favor ao PS, com ou sem Maria do Carmo. As próximas eleições poderão não passar de mais do mesmo, para onde quer que se olhe. Para mal de nós.
«O Interior»

5 de fevereiro de 2004

5 Fev 2004: O elefante branco

O ministro que herdou o programa Polis chamou-lhe «elefante branco» e «construção Kafkiana». Pouco dado a falas brandas, Amílcar Theias disse que há atrasos nos projectos porque se fizeram «previsões erradas», que quase nada do que foi traçado irá resultar numa efectiva reabilitação urbana e que os planos pouco ou nenhum impacto terão no desenvolvimento das cidades ou na criação de empregos. Não é a oposição a acusar – é o Governo a descartar-se. O ministro das Cidades deu como obséquio fatal o pagamento da dívida do Estado às sociedades Polis por trabalhos feitos no ano passado e não se comprometeu com mais. E agora? Agora o programa continua a fazer sentido desde que «devidamente adaptado, no âmbito de uma estratégia». Isto quer dizer, em português básico, que o Polis acabou: o que está feito, está feito; o que está começado, acaba-se; o que está para começar ou em projecto repousará na perpétua espera da estratégia. Há-de haver cidades que terão sabido aproveitar a graça enquanto ela durou. Provavelmente porque as câmaras tinham equipas dedicadas a delinear projectos de longo prazo para efectivo benefício público – nem que ficassem na gaveta – e, na hora em que o Estado soltou a benesse, ganharam na execução o tempo que outras perderam na concepção. Nestas outras conta-se, infelizmente, a Guarda. Em tempo de vacas gordas o Governo ofereceu quinze milhões de contos de bandeja à Câmara, desde que tivesse onde gastá-los. Como não havia nada verdadeiramente estratégico pensado (há anos que os planos primam pela mediania), apressaram-se umas quantas cabeças a imaginar a «cidade reabilitada». Pensaram na recuperação da zona histórica e no ordenamento de zonas desprezadas na periferia. Mas eram obras de pouco arrojo. O grosso da despesa inscreveram-no num túnel rodoviário debaixo da Praça Velha, num transporte público em mono-carril entre a estação e o centro e num enorme «parque urbano» nos atoleiros do Rio Diz. Para trás ficaram as preocupações do trânsito, dos acessos à cidade, do estacionamento, da valorização das centralidades tradicionais, dos equipamentos públicos à medida das genuínas necessidades, das infra-estruturas para a cultura, para o lazer e para o desporto. A «nova» Guarda não podia compadecer-se com uma visão tão simplista. E nesta voragem estoirou-se tempo e dinheiro. Para se concluir, ao cabo de estudos profundos (como se o bom senso não pudesse ter abreviado a conclusão), que o túnel teria sido o primeiro disparate e o mono-carril o segundo. Sobreviveu o parque do Rio Diz. Por conta desta ficção pagaram-se expropriações milionárias, arriscaram-se esquemas de "consultadoria informal" para superar resistências do dono da maior parte dos terrenos, construíram-se blocos habitacionais para realojamento de pequenos proprietários rurais que provavelmente não chegarão a sair das velhas casas. Tudo isto em nome de um pretenso espaço de interesse público que iria dos Galegos à encosta da feira, Rio Diz acima, e que incluiria zonas verdes, museus, esplanadas, espelhos de água, jardins temáticos, parques de recreio, bares, pavilhões e o que mais se arquitectasse. Um prometido «cartão de visita» da cidade. E o que temos, a 145 dias do fim da contagem decrescente? Praticamente nada. Chamar «reabilitação» às obras mal acabadas na avenida e no largo da estação é fazer pouco das pessoas. No centro histórico, a iluminação cénica apenas disfarça a lástima no interior da muralha. As obras na Praça Velha foram anunciadas para Setembro, Novembro e Janeiro – para nunca mais. Só os bombeiros têm um quartel novo, absolutamente merecido. Na troca cederam o terreno na encosta Norte da cidade, no pressuposto de ser construído um restaurante panorâmico que encimará o tratamento que está a ser feito nas margens da avenida. Mais? Só aquela originalidade – assombrosa enquanto obra de engenharia – que é o «pavilhão semi-coberto» de lona, numa cidade com este clima. No Inverno enregela; no Verão há-de torrar. É o tributo do Programa Polis à movida académica da Guarda. Servirá exclusivamente para as festas no ameno de Maio e Setembro. Com a vantagem de estar longe, nas hortas, nas traseiras das fábricas, com estacionamento à farta e sem vizinhança que se incomode. Eis o que fica da «grandiosa» missão do Parque Urbano do Rio Diz: uma tenda perdida num brejo. Como um elefante à deriva. Branco – da cor do toldo.
«O Interior»

24 de janeiro de 2004

24 Jan 2004: O direito à opinião

1. O ofício de ter uma opinião e de a publicar todas as semanas pode ser visto como um privilégio ou como um risco. Para quem está de fora, será provavelmente um privilégio. Para quem está dentro, mais depressa se tornará num risco: existe, contra quem escreve nos jornais, uma suspeita instintiva sobre a essência legítima daquilo que pensa; e uma propensão débil para catalogar as ideias expressas em função de pretensos constrangimentos, de supostas dependências ou afigurados obséquios. Criticar não é tão fácil como se julga. É bastante mais simples discorrer sobre temas como o cultivo da beterraba sacarina em meio hídrico não alcalino, remetendo para citações e notas de pé de página tudo o que se afigure ambíguo. Dá-nos ares de ilustração, não nos compromete e põe-nos de bem com todos. Oitenta por cento, ou mais, daquilo que pensei em público neste «Jogo de Sombras» foram críticas. Já me têm perguntado se eu não acho que nada esteja bem. Não é isso. É, digamos, uma tineta que tenho contra a ideia dócil de que a vida é a feijões. A função de um colunista de opinião é mesmo essa: ter opinião. Há um contrato de honra implícito entre quem lê e quem escreve que não consente a fuga ao risco de ter posições impopulares, de manifestar convicções politicamente incorrectas, de pôr nomes às coisas, de não ficar pela linguagem trivial ou inócua, de não ceder aos brandos hábitos. E digo mais: entre a tentação do silêncio, que é própria dos poderes, e a tentação do exagero, que não tenho problemas em reconhecer que é própria da imprensa (por uma multiplicidade de factores indirectos, desde ausência de tempo à insuficiência de fontes), prefiro claramente a segunda. É mais grave para a saúde pública – entenda-se saúde do regime – que os jornais fiquem, coagidos por cautelas várias, aquém da função de denúncia que lhes cabe, do que vão além dela, mesmo que corram o mais humano dos riscos: o de se enganarem. O princípio fundamental é que nada disto seja feito com leviandade ou má fé. Por isso o direito à informação e o direito à crítica devem estar constantemente sob vigilância, a começar por aquela que é a mais necessária de todas: a dos próprios agentes desses direitos. Ou, quando inevitável, a dos tribunais. Isto vem a propósito de uma frase que escrevi há um ano: «Os acontecimentos do Centro da Área Educativa da Guarda são absolutamente lamentáveis. A começar pelo facto de não se tratar de Acontecimentos do Centro da Área Educativa da Guarda. São, isso sim, os da gente sem ética nem preparação para dirigir um serviço público». Um dos visados, que dias antes tinha sido exonerado das funções de coordenador do serviço, fez queixa-crime três-em-uma contra «O Interior», em que me incluiu por causa desta frase. O Ministério Público decidiu agora arquivar o inquérito. Não devo, como parte visada e formalmente notificada, citar em público o despacho nesta fase (isso faria de mim um perigoso violador do segredo de Justiça). Mas suponhamos que um incerto magistrado, num qualquer tribunal, ao analisar uma queixa por abuso de liberdade de imprensa, tivesse considerado que a comodidade de uma nomeação política não tem que invalidar a incomodidade de enfrentar os críticos, os jornalistas e os opinion-makers, que são quem está mais preparado para intervir junto da opinião pública, provocando nela a reflexão necessária sobre a actuação dos agentes políticos. Ou admitamos que concluísse que criticar um titular de um cargo público nas suas funções jamais representará uma ofensa à honra e ao bom-nome individual da pessoa. Ou que, parafraseando Harry Truman, escrevesse: "Quem não tiver resistência ao calor, não pode aceitar trabalhar na cozinha!". Ou que, citando o adágio, sugerisse: "Quem anda à chuva, molha-se!". Presumamos que um magistrado do Ministério Público, em alguma secção do Tribunal da Guarda, tivesse feito considerações como esta para fundamentar o arquivamento de uma queixa de um político contra jornalistas. Nos tempos que correm, seria um feito de grande arrojo. Não tanto pelo triunfo dos denunciados. Mas pela vitória do sistema.
2. Quase cometia a ofensa de não lamentar a morte do jogador do Benfica, Miklos Fehér. Lamento. Lamento porque era um atleta jovem, promissor – e dizem que afável, ordeiro e provido de um invulgar sentido desportivo. E não lamento por mais nada. Espero que a tragédia sirva ao menos para agitar as consciências: pelos esforços sobre-humanos a que são sujeitos os atletas de alta competição, pela falta de meios de segurança e emergência nos recintos desportivos (sem se olhar só para os dez estádios novos), pelas fragilidades à vista num país que vai receber um campeonato europeu de futebol. Se a discussão fosse esta, a memória de um atleta tombado em campo estaria a ser honrada. Mas não. Desde Domingo à noite que «a dor nacional», «a nação unida», «o país a uma só cor», o «sofrimento de um povo» e outras expressões de mau gosto têm pontificado no voyeurismo das desmedidas transmissões televisivas, como se não se estivesse a passar mais nada. Isto já não é pesar – é náusea. Timor deu o que tinha a dar. Amália foi sepultada duas vezes. Este país não vive sem o fado do desgraçadinho.
In «O Interior»

15 de janeiro de 2004

15 Jan 2004: Papas e bolos

1. Quem manda no Hospital da Guarda faz lembrar aquelas crianças repontonas que só depois de terem posto três vezes os dedos na ficha eléctrica é que acreditam que apanham choque. Neste caso já experimentaram enfiar a mão na ficha em mais ocasiões do que era aconselhável e em tomadas diferentes – na pediatria, da radiologia, nos cuidados intensivos, na cirurgia, na cardiologia – mas não conseguiram convencer-se de que a culpa não é da electricidade: é da tendência para a asneira. Como crianças, o susto não lhes confere o tino. Enfim, vai uma tamanha catarse no hospital que nem os serviços até aqui tidos como de referência escapam. Veja-se a cardiologia (considerada, tal como a ortopedia, a pneumologia, a oftalmologia, a maternidade ou a psiquiatria, uma das unidades de bandeira do Sousa Martins, pelo menos em prestígio): o especialista que a dirigia acaba de bater com a porta, queixando-se de falta de meios e de promessas por cumprir pela administração. A parcimónia inviabiliza a fixação de técnicos – mas não evita a contratação de magotes de funcionários sem qualificações, em sectores dispensáveis, às ordens das clientelas partidárias. Este é só o mais recente episódio num longo folhetim de cisões que tem posto em causa a operacionalidade dos serviços e a própria credibilidade do hospital. Até as mais apregoadas conquistas dos últimos dois anos estão já por um fio: a unidade de cuidados intensivos desdobra-se em pedidos de auxílio; a radiologia despacha todo o serviço para um centro privado, por falta de especialistas; a pediatria está outra vez em crise, depois da saída de três das cinco médicas novas (que nem um ano ficaram na Guarda) e de uma outra ter sido autorizada a ausentar-se para formação. O próprio secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde reconheceu, esta semana, que o foguetório feito há menos de um ano (pelo hospital e pelos dirigentes do PSD) na abertura da urgência pediátrica foi de uma imprudência que agora se vira contra todos. Está tudo a voltar à estaca zero.
2. E diante deste cenário é para perguntar: como poderia um hospital novo resolver os problemas do velho? O que é mais importante: a idade das paredes ou a consistência do que acontece lá dentro? Anda meio mundo entretido com a polémica sobre os terrenos mas ninguém se lembra de pôr as quatro questões essenciais: quando, como, com quem e para quê? Se algum dia houvesse hospital novo, sê-lo-ia na base de uma parceria entre o Estado e grupos privados, que é o que está determinado. A União das Misericórdias já se assumiu interessada na gestão dos futuros dez hospitais que o Governo diz querer lançar sob esse modelo. Supõe-se que o da Guarda esteja na lista. Só que há aqui um paradoxo. A Santa Casa da Guarda também está a investir na recuperação do antigo hospital na Rua Dr. Francisco dos Prazeres para instalar uma clínica médica. E a Misericórdia de Trancoso lançou-se num projecto semelhante. Por detrás de ambas as iniciativas existe um não oculto propósito de negócio com o Serviço Nacional de Saúde, para que os beneficiários venham usufruir dos cuidados prestados nos futuros hospitais privados. É mais do que lógico: só segurando o Estado como principal cliente é que unidades deste tipo poderão sobreviver no Interior. As seguradoras e os utentes endinheirados representarão franjas escassas para manter a porta aberta.
3. Alguma vez será lançado um hospital novo na Guarda, quando existe um que não dá conta do recado e os potenciais parceiros privados estão é a cuidar dos seus próprios negócios na área da saúde? As partes que se desunham na discussão sobre os terrenos acreditam que sim, que a obra irá aparecer. E quem lançou a ideia está, provavelmente, tranquilo com o desenrolar da contenda. Não custou nada fazer a promessa. Foi como servir umas papas e uns bolos à mesa de uns tolos.
«O Interior»

8 de janeiro de 2004

8 Jan 2004: Revista do Ano

Penso que encontrei o remédio para a minha embaraçosa inclinação gazeteira (que, em forma de voto de ano novo, me responsabilizo a emendar) no que toca a garantir a regularidade semanal deste espaço. A próxima vez que me vir aflito para entregar o "Jogo de Sombras" dentro do prazo tentarei um recurso que não deixará ficar mal nenhuma das partes: pedirei para publicar – republicar, melhor – a crónica da mesma semana do ano anterior. Poucos irão notar que não se trata de prosa fresca porque, infelizmente, a revisão dos acontecimentos desde há um ano ou dois só nos leva a duas conclusões: não se fez nada; não aconteceu nada. As promessas do passado são as patranhas do presente. O anseio de ontem é a resignação de hoje. A história, afinal, repete-se. Nesta vulnerabilidade colectiva encontrei uma oportunidade pessoal: a crónica de hoje é a que me terá levado menos tempo a escrever. O que se é mero copy-paste de textos que publiquei no ano passado. E vão só quatro exemplos.
Centro da Área Educativa. «Os acontecimentos da Coordenação da Área Educativa da Guarda são absolutamente lamentáveis. A começar pelo facto de não se tratar de acontecimentos da Área Educativa da Guarda. São, isso sim, os da gente sem ética nem preparação para dirigir um serviço público. São os da ausência de lucidez e coragem para resolver a situação antes de chegar aonde acabou por chegar. São os da ingerência descarada com fins políticos. (...) Esta é, provavelmente, a oportunidade que a classe política vê nos serviços públicos em geral e num organismo com as características da CAE em particular: manobrar, dominar, pôr e dispor de forma discricionária o processo de gestão de docentes (...), abrindo caminho a todo o tipo de influências e favores (...). O coordenador empossado esta semana, José Diogo Pinto, tem, ao menos, a vantagem de vir de fora e ser um ilustre desconhecido do inner circle dos mexericos locais. É possível que o deixem estar sossegado. Pelo menos até à próxima colocação de professores, lá para o Verão.»
(A mesma porta-voz do ministro da Educação que há um ano anunciou o despedimento de Joaquim Rita dos Santos e Henrique Monteiro por «notória desadequação às funções», antes mesmo de os visados terem tomado conhecimento oficial, antecipou-se também, na semana passada, a tornar pública a suspensão de José Diogo Pinto e a abertura de um processo de averiguações por suspeita de fraude na colocação de uma professora.)Estacionamento. «Com o compromisso normalmente associado a actos para inglês ver, a Câmara da Guarda atirou para detrás das costas, na última sessão, os estudos prévios para a construção de um parque de estacionamento debaixo do Jardim José de Lemos, pedindo aos técnicos que continuem a imaginar a melhor forma. A proposta – um tanto voluntariosa – de um engenheiro de trânsito e do vereador do pelouro foi agendada mais por complacência do que por convicção, já que ocupara horas de trabalho de um serviço da autarquia. Mas ao perceber que a ideia suscitava interesse a presidente da Câmara ficou apavorada e propôs arrumar o assunto. Pelos vistos, Maria do Carmo tem "razões afectivas" que a poderão levar, se os técnicos insistirem, a barricar-se no jardim, pondo-o a coberto de qualquer investida de requalificação (...). O afecto manter-nos-á compulsivamente agarrados às arvorezinhas, aos caminhos de terra batida, aos vendedores de gelados e ao obelisco dedicado à guerra dos avozinhos.»
(O problema, quando se fala de «requalificação urbana» para a Guarda, é que não existe uma noção concreta e global do que isso possa significar. A ideia de um parque sob o Jardim José de Lemos ou noutro local qualquer – a exemplo dos que foram construídos em Viseu e na Covilhã – é para esquecer.)Centro Histórico. «Ano após ano, a intervenção de fundo é adiada para o seguinte. E eis mais um Verão em que os carros circulam na Praça Velha, na Rua do Comércio, nas vielas antigas – em toda a parte. (...) Por falta de coragem, de autoridade e de visão estratégica temos, porventura, o último núcleo medieval do país à espera de ser devolvido às pessoas. Mas há, pelo menos, inteira coerência entre esta realidade e as restantes: um posto de turismo desactivado e outro que funciona em horário de expediente; os monumentos fechados; os locais de chegada, os pontos de encontro a as ruas principais onde não se vê um mapa da cidade no qual o visitante saiba que "você está aqui"; o comércio zeloso no cumprimento das horas de descanso (...); o ramo hoteleiro que aos domingos e dias santos mete tranca à porta.»
(O projecto do arquitecto Camilo Cortesão, no âmbito do Polis, para a requalificação da Praça Velha, era para ter sido lançado a concurso em Setembro, iniciado em Janeiro e concluído em Junho deste ano. Nem sombra disso. Só os vasos impedem a circulação na Rua do Comércio. Até ver.)
Pediatria. «Não se percebe se a demora na solução do problema da pediatria foi falta de jeito, ausência de coragem ou azar de conjuntura. Mas por fim o Hospital da Guarda tem o maior número de especialistas que alguma vez se imaginou e pôs a funcionar uma urgência pediátrica durante 24 horas (...). Claro que há sempre questões laterais que vão ficando sem resposta. Ninguém garante, por exemplo – nem mesmo as próprias –, que dentro de meio ano algumas das pediatras recém-formadas não regressem a casa.»
(Uma já desertou e outras duas vão a caminho. Não tarda volta tudo à estaca zero.)
«O Interior»