26 de fevereiro de 2004

26 Fev 2004: Sísifo morreu de velho

1. Obviamente, ninguém poderia esperar que o problema da pediatria se resolvesse só porque quatro médicas recém-especializadas eram forçadas a trabalhar no Hospital da Guarda, por concursos de ingresso que não deixavam alternativa às vagas numa unidade carenciada. O que se passou com a leva de há menos de um ano tinha-se passado com a de dois anos antes e sistematicamente com as anteriores, desde que há memória de que a falta de pediatras fosse um problema. Elas vir, vêm. Algumas com casa montada, carro e motorista, como as duas últimas contratadas pelo anterior conselho de administração. Outras com licença para gastar à discrição, como aquelas que, no ano passado, foram incumbidas de pôr em funcionamento a urgência pediátrica. Mas depois saem. No tempo da anterior chefe do serviço dizia-se que era por mau feitio da senhora. Agora diz-se que é por inaptidão do sucessor, que não devia ter sido nomeado em detrimento de uma das novas médicas – ao menos para deixar entrar uma lufada de ar fresco. Mas quando não é por factores internos é porque têm a vida organizada fora daqui. Uma das pediatras veio para a Guarda (confessou-o depois) com a promessa da própria Administração Regional de Saúde de ser «só por uns tempos», até à criação do lugar que lhe estava destinado em Coimbra. Duas procuraram vaga perto de casa e ninguém as demoveu. E outra está mas não está: apesar da carência, foi autorizada a frequentar uma especialização em Lisboa. Restam o chefe, um pediatra aposentado que procura passar o tempo e uma médica eventual que cumpre um dia e meio de serviço por semana.
2. Mas se ninguém esperaria ver o problema resolvido só pela ilusão de, por uma vez, o hospital ter contado com sete pediatras ao serviço, também não era necessário nem desejável ter-se chegado ao ponto de fechar a maternidade para se perceber que aquele que foi reclamado como o mais estrondoso êxito do actual conselho de administração não é senão o seu mais retumbante fracasso. Houve outros – o da radiologia; o das urgências – mas nenhum com tanto relevo como este. A pediatria é a jóia da Coroa, é o boi Ápis. Falhando, arrasa a importância do hospital, arruína a credibilidade de quem o dirige e destrói a imagem da própria cidade. Não é porque as crianças tenham que ser atendidas na Covilhã. Há muito que se devia ter apostado na complementaridade entre os dois hospitais, deixando cada um especializar-se nas valências para que tem meios e vocação, prestando serviços à escala regional em vez de sobreporem recursos nuns míseros quarenta quilómetros de auto-estrada. A haver escassez de especialistas, assegurar-se-ia um razoável serviço de pediatria na Covilhã e permaneceriam na Guarda apenas os suficientes para dar apoio à maternidade e à neonatologia. Estas são as áreas de bandeira do Hospital Sousa Martins. A média anual de partos é maior na Guarda do que nos hospitais da Covilhã e de Castelo Branco juntos. Mas agora – a não ser aos fins-de-semana e feriados, porque um médico oblativamente se propõe ser pago a dobrar – já não há o direito a nascer na própria terra.
3. Irmanadas na culpa, as forças vivas entregam-se a um traiçoeiro silêncio. Nem governador civil, nem deputados, nem autarcas. Nem PSD, nem PS. Ninguém pronuncia uma palavra sobre esta vergonha. O director clínico do Hospital tenta explicar-se mas remete a solução para o se Deus quiser. O presidente da Administração Regional de Saúde – que foi quem mais fez alarido com a vinda dos ex-novos médicos – sugere que este é um preciosismo dos tempos modernos: todos os que temos mais de dez anos de idade nascemos sem um pediatra à cabeceira e cá andamos. E o secretário de Estado da Saúde acha que o problema da pediatria na Guarda se resolverá como a lenda da pedra de Sísifo: talvez se consiga segurá-la no cume da montanha. Mas no mito da Grécia Antiga o rochedo rolava continuamente. Sísifo morreu de velhice – sem compreender como era inglório o desígnio.
4. Permita-se-me duas questões, mesmo que recorrentes. Primeira: que é feito do movimento cívico que, antes de o PSD chegar ao poder, se desunhava em manifestações contra a falta de pediatras? Segunda: para que queremos um hospital novo?
«O Interior»

19 de fevereiro de 2004

19 Fev 2004: «Honi soit qui mal y pense»

1. Pior foi a emenda que o soneto. Em dois jantares, a "oposição silenciosa" a Ana Manso conseguiu duplicar a lista de comensais. Só que, cumprida a «análise da situação política», pouco mais restou aos 50 militantes do PSD da Guarda senão pagarem a conta e prantearem o fracasso. A líder distrital deixou que tomassem a sobremesa sossegados e, já de madrugada, mandou servir-lhes o digestivo: tornou pública a decisão dos órgãos nacionais do partido de manter válida a convocatória das eleições de domingo passado para a Concelhia. Fora de prazo para a apresentação de listas, como convinha, afastado qualquer hipótese regulamentar de oposição à candidatura de um grupo de fiéis apaniguados. Couto Paula, António Mendes, José Cunha e Carlos Gonçalves são agora os rostos de fachada do PSD na Guarda e só farão o que Ana Manso mandar, porque os lugares de nomeação política que todos têm constituem a mais segura penhora sobre o silêncio e a obediência. A deputada saiu vencedora sem esforço desta batalha breve, revelando que se movimenta com confortável traquejo na alta-roda do partido e que tem, enquanto deputada, um estatuto muito superior àquele que a imagem árida que cultiva nas tricas do meio político local deixa crer. De nada valeram aos opositores as dúvidas sobre a legitimidade da convocatória eleitoral, sancionadas pela decisão Conselho de Jurisdição Distrital de anular o processo. Pouco importa se os métodos foram ínvios ou se as assinaturas para a queda da anterior Comissão Política foram recolhidas de maneira irregular. Entre um jantar e o outro, Ana Manso identificou os transgressores, isolou-os, deixou-os convencerem-se de que tinham ganho a partida e esperou para ver quantos mais eram. Na hora que lhe apeteceu mostrou-lhes como é que se trabalha nos bastidores. Dir-se-ia que, tal como o chefe, Ana foi influenciada pelo maoismo: «Que cem flores desabrochem e cem escolas de pensamento rivalizem...». Agora que sabe quem são, aplicará a máxima que já demonstrou ser-lhe característica: «honi soit qui mal y pense». Estão tramados. Não tanto os militantes da velha guarda, os que serviram e traíram noutras eras, os que têm boas reformas, os que permaneceram na quietude até perceberem que um mandato dos piores está a tornar possível a conquista da Câmara ao PS e quiseram tomar o poder em cima de uma onda fácil. Estão desgraçados os outros – os que ainda no outro dia bajulavam e louvavam a líder, os que dependem do partido, os que vivem subordinados ao maioral, seja ele qual for, e que mudaram de barco a pensar que o reinado desta ia a caminho do fim.
2. O que moveu Ana Manso nesta cruzada foi o ter percebido três coisas. Primeira: que nos últimos meses se tinham filiado no partido dezenas de militantes novos ou retornados, para formarem a falange de uma candidatura anti-sistema às eleições para a Concelhia da Guarda, provavelmente liderada por Jacinto Dias. Segunda: que o objectivo era, em ganhando a Concelhia, indicar um candidato a Presidente da Câmara que pudesse ter melhores hipóteses de ser eleito. Terceira: que uma parte significativa do inner-circle estava a alinhar com aquele grupo. Teve o desagravo – mas para quê? Percebe-se, até nas entrevistas que deu no auge da crise (basta ler a que saiu no último «Jornal do Fundão»), que faz questão de ser outra vez candidata à Câmara da Guarda. Mas a ânsia da desforra fá-la não perceber que está a pisar num terreno escorregadio. Quem se vai apresentar a sufrágio não é a dirigente do grupo parlamentar do PSD que se destacou como coordenadora da Comissão para a Igualdade e Família ou que tem aparecido nas primeiras páginas pela postura racional que assume na questão da despenalização do aborto. Quem vai aparecer no cartaz é a vereadora da oposição que tem feito um mandato apagado; é a dirigente política local intolerante e desgastada. Candidatando-se, estará a fazer um favor ao PS, com ou sem Maria do Carmo. As próximas eleições poderão não passar de mais do mesmo, para onde quer que se olhe. Para mal de nós.
«O Interior»

5 de fevereiro de 2004

5 Fev 2004: O elefante branco

O ministro que herdou o programa Polis chamou-lhe «elefante branco» e «construção Kafkiana». Pouco dado a falas brandas, Amílcar Theias disse que há atrasos nos projectos porque se fizeram «previsões erradas», que quase nada do que foi traçado irá resultar numa efectiva reabilitação urbana e que os planos pouco ou nenhum impacto terão no desenvolvimento das cidades ou na criação de empregos. Não é a oposição a acusar – é o Governo a descartar-se. O ministro das Cidades deu como obséquio fatal o pagamento da dívida do Estado às sociedades Polis por trabalhos feitos no ano passado e não se comprometeu com mais. E agora? Agora o programa continua a fazer sentido desde que «devidamente adaptado, no âmbito de uma estratégia». Isto quer dizer, em português básico, que o Polis acabou: o que está feito, está feito; o que está começado, acaba-se; o que está para começar ou em projecto repousará na perpétua espera da estratégia. Há-de haver cidades que terão sabido aproveitar a graça enquanto ela durou. Provavelmente porque as câmaras tinham equipas dedicadas a delinear projectos de longo prazo para efectivo benefício público – nem que ficassem na gaveta – e, na hora em que o Estado soltou a benesse, ganharam na execução o tempo que outras perderam na concepção. Nestas outras conta-se, infelizmente, a Guarda. Em tempo de vacas gordas o Governo ofereceu quinze milhões de contos de bandeja à Câmara, desde que tivesse onde gastá-los. Como não havia nada verdadeiramente estratégico pensado (há anos que os planos primam pela mediania), apressaram-se umas quantas cabeças a imaginar a «cidade reabilitada». Pensaram na recuperação da zona histórica e no ordenamento de zonas desprezadas na periferia. Mas eram obras de pouco arrojo. O grosso da despesa inscreveram-no num túnel rodoviário debaixo da Praça Velha, num transporte público em mono-carril entre a estação e o centro e num enorme «parque urbano» nos atoleiros do Rio Diz. Para trás ficaram as preocupações do trânsito, dos acessos à cidade, do estacionamento, da valorização das centralidades tradicionais, dos equipamentos públicos à medida das genuínas necessidades, das infra-estruturas para a cultura, para o lazer e para o desporto. A «nova» Guarda não podia compadecer-se com uma visão tão simplista. E nesta voragem estoirou-se tempo e dinheiro. Para se concluir, ao cabo de estudos profundos (como se o bom senso não pudesse ter abreviado a conclusão), que o túnel teria sido o primeiro disparate e o mono-carril o segundo. Sobreviveu o parque do Rio Diz. Por conta desta ficção pagaram-se expropriações milionárias, arriscaram-se esquemas de "consultadoria informal" para superar resistências do dono da maior parte dos terrenos, construíram-se blocos habitacionais para realojamento de pequenos proprietários rurais que provavelmente não chegarão a sair das velhas casas. Tudo isto em nome de um pretenso espaço de interesse público que iria dos Galegos à encosta da feira, Rio Diz acima, e que incluiria zonas verdes, museus, esplanadas, espelhos de água, jardins temáticos, parques de recreio, bares, pavilhões e o que mais se arquitectasse. Um prometido «cartão de visita» da cidade. E o que temos, a 145 dias do fim da contagem decrescente? Praticamente nada. Chamar «reabilitação» às obras mal acabadas na avenida e no largo da estação é fazer pouco das pessoas. No centro histórico, a iluminação cénica apenas disfarça a lástima no interior da muralha. As obras na Praça Velha foram anunciadas para Setembro, Novembro e Janeiro – para nunca mais. Só os bombeiros têm um quartel novo, absolutamente merecido. Na troca cederam o terreno na encosta Norte da cidade, no pressuposto de ser construído um restaurante panorâmico que encimará o tratamento que está a ser feito nas margens da avenida. Mais? Só aquela originalidade – assombrosa enquanto obra de engenharia – que é o «pavilhão semi-coberto» de lona, numa cidade com este clima. No Inverno enregela; no Verão há-de torrar. É o tributo do Programa Polis à movida académica da Guarda. Servirá exclusivamente para as festas no ameno de Maio e Setembro. Com a vantagem de estar longe, nas hortas, nas traseiras das fábricas, com estacionamento à farta e sem vizinhança que se incomode. Eis o que fica da «grandiosa» missão do Parque Urbano do Rio Diz: uma tenda perdida num brejo. Como um elefante à deriva. Branco – da cor do toldo.
«O Interior»