25 de março de 2004

25 Mar 2004: A Matrioska

Os médicos obstetras do hospital da Guarda reduzem à categoria de embuste a ilusória solução para o funcionamento da maternidade. Dizem-no numa carta aberta ao presidente da Administração Regional de Saúde do Centro, que veio à Guarda tentar deitar água na fervura mas deixou tudo ainda mais inflamável. Os clínicos, em bloco, acusam-no de manipulação da informação, mentira e omissão. É um preço que Fernando Andrade não tem outro remédio senão pagar, já que optou por pôr as mãos no fogo por toda a administração do hospital. A verdade, porém, é que a situação que se vive no Sousa Martins não se pode dissimular com discursos de confiança nem com apelos à bonança. Este hospital é como uma matrioska: cada episódio que se destapa revela um novo caso. Aos poucos descama e perde importância. E em vez de vir, como se conjecturava, dar o murro na mesa e demitir toda a gente por incompetência, o emissário do Ministério da Saúde aceitou como boas as explicações, deu como naturais as divergências entre a directora do hospital e o director clínico e teve como razoável o trabalho que o conselho de administração desenvolveu. O troco tem-no agora, pelo punho dos médicos da maternidade: não são eles os maus da fita; a presença física de um pediatra dia e noite é uma rotina com oito anos e não uma exigência de última hora; o regime do pediatra de prevenção é um risco porque não garante a presença a tempo a uma emergência; o compromisso engendrado pela administração do hospital (mas enjeitado pelo director clínico) é uma falsa solução, assente na acumulação de dias de trabalho contínuo pelos pediatras; o que a eles, obstetras, inquieta é que a qualidade do serviço sofra um retrocesso, com flagrante risco para a saúde das crianças nascidas na Guarda. Tudo isto, vindo dos próprios médicos, deixa a impressão de que neste processo o primado da aparência se sobrepôs à preocupação com a saúde pública. E assim, com uma solução em cima do joelho para não dar o flanco na mais evidente realidade – o fracasso da pediatria –, aniquilou-se um serviço médico de referência. Mas Fernando Andrade afirmou e reafirmou: eles são bons e administram menos-mal. Eles – os mesmos que pagaram ao filho de um dos próprios uma soma a título de trabalhos de engenharia no hospital. Escudam-se num concurso límpido e numa empresa legitimamente vencedora. Mas tudo indica que não houve concurso nem há empresa. Pior: nem deve haver engenheiro. O suposto trabalho pelo qual o filho do director clínico recebeu 11 mil euros a título individual foi realizado ao mesmo tempo que pendia um requerimento para estágio profissional. O recém-licenciado estagiário e o empresário prestador de serviços por concurso são a mesma pessoa. E o hospital também é o mesmo. Uma maneira bimba de sacar dinheiro? Andrade promete estudar o processo e esclarecer. Eles – os mesmos que puseram a chefe do serviço de radiologia a mexer para afastar suspeitas de promiscuidade pelo facto de ser sócia de um centro privado. Isto enquanto punham a funcionar um aparelho de TAC – outra conquista propalada – que a única médica ao serviço não se atreve a usar. Resultado: o tal centro fornece todo o serviço de imagiologia e está a facturar como nunca. E na semana passada, quando este fechou para manutenção, não houve do hospital um mínimo de esforço para usar os próprios meios – foram os doentes em romaria para Coimbra. Eles – os mesmos que encerraram a unidade de cuidados intensivos «para obras», como Fernando Andrade se apressou a redizer. Mas eles são bons, são esforçados e trabalham até altas horas. O ridículo – a última figura desta desengraçada matrioska.
«O Interior»

11 de março de 2004

11 Mar 2004: Rua!

1. Há alturas em que não é possível nem desejável ter contemplações. O encerramento da maternidade do Hospital da Guarda é um desses casos. Estamos diante de uma indecente mistificação em que se pretende fazer crer aos incautos que o problema é isolado, transitório e sem efeitos transversais. Mas a verdade é que se trata de um delito. Aliás, vários: incompetência, gestão danosa, ignorância, cobardia e má-fé. Agora já é oficial: não se fazem partos no Hospital Sousa Martins; não se atendem parturientes com mais de 21 semanas de gestação (grávidas de cinco meses, portanto); as urgências desta especialidade serão desviadas para outros hospitais; e se o da Covilhã não tiver meios, serão sumariamente transferidas para Coimbra. O conselho de administração afixou furtivamente uma nota, no Dia da Mulher, em que remete apenas para a impossibilidade de «reunir as condições exigidas à qualidade e segurança da boa prática clínica». O que significa isto? Significa que com a mais recente razia no serviço de Pediatria não há especialistas em número suficiente que permaneçam na urgência e no internamento e, em simultâneo, assegurem a presença obrigatória nas equipas da maternidade. A opção tomada foi uma malfeitoria: em vez de se privilegiar uma unidade de referência, susteve-se um serviço faz-de-conta. A maternidade da Guarda tem prestígio, tem meios, tem médicos qualificados e enfermeiros em número suficiente, desenvolve técnicas inovadoras – há anos que pratica o parto sem dor – e regista o maior índice de nascimentos entre os hospitais da região. A urgência pediátrica simplesmente nunca existiu: é na prática uma unidade de atendimento de saúde infantil, assegurada quase só por clínicos gerais, semelhante ao serviço de atendimento permanente que os médicos do Centro de Saúde ali mantiveram durante anos. A diferença é que anda por lá um pediatra, o único, a dizer que manda. Se fizesse serviço à maternidade, apenas obedecia. Na contagem das crianças atendidas, o hospital exulta com números assombrosos. Mas quantas foram, realmente, observadas por um pediatra? E quantas entraram, efectivamente, em condição de urgência? Quem dirige o hospital sabe que esta decomposição estatística é possível de fazer e facilmente resumirá à redundância a mais propalada das conquistas. Tanto que sabe que no dia em que a maternidade fechou consentiu um número anormal de internamentos em pediatria. Qualquer criança atendida na urgência teve ordem de permanência, por tudo e por nada, nem que fosse por escassas horas. Eis uma estratégia de esperteza saloia destinada a passar a ideia de actividade, de necessidade, de opção sensata. É com expedientes deste género que o hospital tenta legitimar uma decisão medrosa e perversa. Para não dar o braço a torcer no fracasso da Pediatria, mantém este serviço como um corpo vegetativo, quando esta é a valência em que mais logicamente podíamos depender da Covilhã, se existisse uma política de complementaridade de recursos que valorizasse à escala regional os melhores serviços de cada unidade. E assim ficam nove médicos obstetras, dois anestesistas, dez enfermeiras com especialidade em obstetrícia, duas com especialidade em neonatologia e onze enfermeiros gerais a olhar para as paredes. É esta equipa de 34 pessoas – que tem realizado uma média anual de 1200 partos – que está de braços cruzados desde o início da semana, só porque um pediatra do quadro e mais dois de apoio foram barricados numa coisa que não existe e impedidos de assistir nascimentos. Nem o facto de a maternidade da Guarda figurar no estudo de Albino Aroso para o Ministério da Saúde levou a direcção do hospital a assumir uma atitude reivindicativa. Estando as três unidades do mesmo eixo – Guarda, Covilhã e Castelo Branco – no grupo das «condenadas», é óbvio que pelo menos uma teria que permanecer aberta para servir toda a região. A escolha da Guarda seria pacífica, pelas condições como pelos resultados. Mas estes indigentes amoucos trataram de oferecer antecipadamente o «prémio» à Covilhã, que mal consegue despachar os 600 nascimentos anuais. E tem o Hospital Sousa Martins novas salas de partos e um bloco operatório de obstetrícia pronto a inaugurar – para nada. Por bastante menos toda a administração do hospital de Viseu foi há dias demitida. Não é possível que o Ministério da Saúde continue cúmplice do delito. Esta gente pôs tudo em causa: o futuro do hospital e o destino da cidade. A continuada existência nos lugares degrada o conceito de bom-senso e polui a nossa auto-estima.
2. O líder do Movimento pela Criança é que tinha razão: «são responsáveis que recebem ordenados pagos por todos os contribuintes, é preciso perguntar-lhes o que é que fizeram nos últimos dois anos». Referia-se à administração do Hospital Sousa Martins, a quem exigia satisfações, em vigílias e marchas lentas, já pressagiando o pior dos cenários: «qualquer dia não haverá nascimentos na Guarda». Porque a falta de pediatras podia também «debilitar a Obstetrícia». Isto disse-o há três anos, com outra gente no poder. Hoje declara diametralmente o inverso: «o movimento surgiu para lutar pela urgência pediátrica e pela pediatria, que estão a funcionar» e o problema da maternidade foge «do âmbito das reivindicações que o movimento fez». Aliás, a situação está «indiscutivelmente muito melhor». Falou assim no final de um encontro com o actual conselho de administração, na semana passada, depois de ter sido chamado para servir de veículo de desafrontas: que o problema não é do hospital mas «da exigência da Ordem dos Médicos em impor em permanência um médico pediatra», pelo que até «apelamos aos obstetras do hospital para que aceitem trabalhar com pediatras em regime de prevenção», porque a outra regra «é muito difícil de cumprir na Guarda». Eis um moço de fretes na plenitude da função. Eis o desafortunado líder de um grupúsculo de usurpadores da boa fé alheia, em busca da promoção pessoal e na ansiedade de migalhas de poder. Eis quem ainda teve o desplante de declarar – não fossem mentes perversas tergiversar – que o movimento «é autónomo, age de acordo com princípios e não anda a reboque de ninguém». Já nem se pedia honestidade moral. Mas esperava-se, ao menos, alguma vergonha.
«O Interior»

4 de março de 2004

4 Mar 2004: A força viva

Deve haver, por estes dias, um molesto pivete a queijo no Terreiro do Paço, por estarem ainda mal arejadas as bagageiras das limusinas do Estado. Acabaram de percorrer centenas de quilómetros na sacrificada romagem dos resignados titulares. Passaram Fevereiro, serra acima, todos os fins-de-semana, a caminho de festas e feiras de pastores e queijeiras, em lugares estranhos ao ouvido – Fornos de Algodres, Manteigas, Celorico – mas cuja direcção os motoristas sabiam de cor. Porque a verdade é esta: seja qual for o governo, seja qual for o estado da Nação, não há Inverno que não traga ministros e secretários de Estado, às dúzias, ao circuito do queijo da serra. Poucos chegam à paisana – quase todos se apresentam em carro oficial e com comitiva, a pedir honras (e, claro, a fazer-se ao respectivo). Alguns trazem mesmo em descaramento tanto ou mais do que levam em queijo: que justificação terá dado, por exemplo, o secretário de Estado das Pescas para vir em visita formal a uma região onde só existe truta (e de viveiro)? E o da Defesa? E o da Justiça? E o do Desporto? E o da Saúde? E o dos Assuntos Fiscais (que deve ter-se escapulido para cá à sorrelfa da somítica patroa)? Eles vêm todos. Podem nunca abeirar-se durante o resto do ano, quando há carências, quando é para ouvirem queixumes, quando adivinham que uma reivindicação ou uma pergunta incómoda os aguarda. Mas aparecem no preciso instante em que sabem que as boas maneiras não os deixarão voltar sem o porta-bagagem atulhado. É claro que, na necessidade de justificarem o passeio, sempre ouvem o que não desejariam e, entre uma côdea de centeio e dois copos de carrascão, descaem-se: aceitam pedidos, tomam recados, fazem promessas ou acedem a uma inauguração. E como uma dívida assumida com a mala do carro a abarrotar de queijo vale o mesmo, em honra, que um compromisso no jogo, os que arriscam não saldar passarão a figurar na difamante lista dos embusteiros e esconjurados e, se alguma vez regressarem, não terão direito a dignidades protocolares e seguirão de bagageira vazia (ou pagando, a quase quinze euros o quilo, como o comum dos mortais). É por isso que o queijo da serra representa a nossa mais austera mas indefectível força viva. Conquista maiores proveitos para a região numa meia-manhã a casqueiro e tinto do lavrador do que uma Presidência Aberta em oito dias de «magistratura de influência» – que não tem cheiro nem, provavelmente, sabor.
«O Interior»