29 de abril de 2004

29 Abr 2004: Abril suave

No 25 de Abril eu tinha cinco anos. Durante algum tempo o meu conceito da revolução não passou de um primário exercício de lógica. Estava uma carrinha de mercadorias, que acidentalmente resvalara e capotara na véspera, de rodas para o ar no outro lado da minha rua. O meu pai, ferroviário do turno da noite, voltou de manhãzinha com a proclamação: caiu a ditadura. Para mim a camioneta tombada no atoleiro chamava-se, portanto, ditadura. Acabei por suspeitar que não eram a mesma coisa, embora as quedas tivessem sido simultâneas, assim que o veículo foi removido mas não cessou a euforia, no bairro inteiro, pela cambalhota da ditadura. Mesmo quando já iam passadas largas semanas desde a ocorrência, o meu irmão doze anos mais velho festejava fervorosamente, incessantemente, com o grupo de guedelhudos que antes conspirava à sorrelfa nas vizinhanças. Aprendi com o tempo que o que aconteceu foi uma revolução. Assim, com as letras todas – a não ser que exista um sentimento de má-vontade contra a História. Uma revolução que trouxe profundas mudanças em todos os níveis da vida do país, que permitiu devolver a cidadania e as liberdades ao exercício colectivo e quotidiano, que abriu horizontes à cultura, à ciência e à economia, que reconciliou a relação de Portugal com o mundo. Uma revolução que, por isso, legou o caminho à evolução em inumeráveis (embora nem todos, infelizmente) indicadores de desenvolvimento. A evolução foi o resultado da revolução e é improvável que acontecesse sem ela, apesar dos excessos próprios da ruptura, primeiro, e da catarse, a seguir. O que não justifica que se oculte uma com a outra. Mas foi o que a publicidade governamental – «Abril é Evolução» – profusamente distribuída acabou por tentar, insistindo numa noção de progresso natural, gradual, pacífico e sem sobressaltos. Do ponto de vista do marketing foi uma campanha muito bem conseguida. Do ponto de vista da História tratou-se de uma despudorada ablução. Quis-nos fazer crer que o país contemporâneo é o resultado, em números, da consolidação do Estado democrático. Mas subtraiu o começo: a luta que, com os seus sucessos e defeitos, êxitos e falhas, disparates e rasgos de inteligência, tornou possível o regime em que vivemos. A imagem estilizada dos cravos – nenhum vermelho, note-se – sublinhou essa premeditada leitura actualizada, suave, harmoniosa, aprazível e esteticamente correcta que se pretendeu dar do 25 de Abril. O conceito de revolução pode estar velho e ultrapassado, escondendo esqueletos no armário e não trazendo grande rasgo para o futuro. O próprio sentido das comemorações pode ter-se esvaído, em cada Abril passado, numa massa cada vez menos espontânea, cada vez mais parecida com uma missa campal pela vaga liberdade de cravo ao peito. Os discursos podem estar repletos de banalidades e lugares-comuns, como se viu na indigente «sessão solene» da Assembleia Municipal da Guarda. Mas essas debilidades não podem dar à direita conservadora hoje no poder a legitimidade para reescrever o guião sobre o passado colectivo recente, como se das três dimensões do 25 de Abril – a do golpe militar, da deposição do velho regime e da ratificação popular nas ruas; a do período profundamente revolucionário que até à Constituição de 76; e a da consolidação do regime democrático – apenas a última fosse digna de figurar na História. Já no Portugalzinho destituído há trinta anos essa era a lógica: os manuais da escola só impingiam a «mais linda história do mundo» feita de lengalengas que desvirtuavam a realidade para ficar de bem com os costumes. Abril sempre? Agora mais que nunca.
«O Interior»

15 de abril de 2004

15 Abr 2004: O Mourão

Dizem uns que Júlio Sarmento tem talento político. Dizem outros que tal eminência só é verosímil na pobreza do teatro político-mediático em que se exibe a vida pública deste distrito. É possível passar por líder insigne num palco em que os enredos são frágeis, os actores são medíocres e o público é acrítico. Em síntese, é fácil ser rei numa terra de cegos. A verdade é que o presidente da Câmara de Trancoso, se não tem sido um autarca-modelo, tem pelo menos feito obra e não tem cedido à tentação cómoda da lamúria. Além disso, é dos poucos políticos no distrito – nem se contam pelos dedos de uma mão – capazes de partir a loiça. Não é raro ouvi-lo denunciar em voz alta as realidades que outros apenas sussurram ou nem sequer vêem: que esta região não desenvolve lideranças, que as forças partidárias são incapazes de influenciar o poder, que se promove o carreirismo e a mediocridade no lugar do mérito e da utilidade. É bom saber que há, neste brejo, vozes de Sarmentos que nos façam arregalar os ouvidos. É um alívio admitir que dois ou três autarcas, entre os quais o próprio, têm préstimo de hegemonia a uma escala que ultrapassa o seu próprio quintal. Ele sabe que nós sabemos e nós sabemos que ele sabe. Não foi por acaso que esta semana admitiu estar disposto a ser o próximo candidato do PSD à Câmara da Guarda, se a direcção nacional do partido lho pedir e o Governo, sendo agora da mesma cor, lhe puser na mão a faca e algum queijo. Não é difícil – nem casual, na sua própria perspectiva – perceber semelhanças entre esta predisposição para a luta pela conquista capital ao PS e, por exemplo, uma atitude idêntica que levou Joaquim Mourão, o autarca da Idanha, a conquistar a de Castelo Branco ao PSD, por acordo com o governo socialista. Júlio Sarmento não é o único das redondezas a desejar passar por Mourão da Guarda. Mas é talvez o que está em melhores condições de fazer esse papel. Em Trancoso já o dão, sem dramas de orfandade, como pronto para outros voos; tem um sucessor tacitamente designado; é transparente na ambição de chegar à capital do distrito e o partido, na vila, declara-se pronto a desobrigá-lo. Agora depende. Júlio Sarmento pode estar mesmo tentado a tomar uma candidatura à Câmara da Guarda como "corolário da minha vida política", como declarou na entrevista que deu esta semana à Rádio Altitude. E não andando nisto há apenas dois dias conseguirá – deverá ser só uma questão de se mexer – que lhe amparem a ideia em Lisboa. Independentemente do resto, só esse cenário já se afigura interessante. Para ser perfeito, era o PS nacional impor também um candidato com essência: Pina Moura é uma boa hipótese. Um e outro tornariam as próximas eleições num acontecimento mobilizador.