24 de junho de 2004

24 Jun 2004: Não quero ter sorte ao jogo

O Partido Socialista alcançou, nas últimas Eleições Europeias, uma das mais expressivas vitórias de sempre no concelho da Guarda: quase 52 por cento contra pouco mais de 32 por cento do PSD e do CDS coligados, diferença que foi cinco vezes superior à margem de vitória do PS no distrito e praticamente o dobro da verificada no país. Isto é um facto. Indiscutível. Assolador. Memorável. Mas daí a o PS embandeirar em arco e achar que a colheita está boa para se iniciar a trasfega para as próximas batalhas eleitorais vai uma grande diferença – com desmedida autoconfiança, excessiva ingenuidade e parca modéstia. Nos últimos dois anos o Partido Socialista não fez rigorosamente nada pela Guarda. Os deputados estão na oposição como estiveram na maioria: mudos, quietos, obedientes. Não são activos, são reactivos: inundam as papeleiras do expediente da Assembleia com requerimentos a perguntar o que é que se passou. Sabem pelos jornais ou pelas rádios que fechou um serviço, que se foi embora um médico, que o vizinho vai ter uma universidade – e requerem à respectiva tutela que explique o «porquê». Claro que a respectiva tutela, as mais das vezes, está-se a borrifar para eles e indica-lhe onde podem acondicionar os requerimentos. Oposição desta, que reage a factos consumados e a reboque de notícias, é um sedativo para qualquer poder. Na Câmara os resultados não são melhores. Aliás, este é o mandato da desilusão – na inversa proporção das expectativas que criou. Polis? Um fracasso. Requalificação do centro da cidade? Um fiasco. Parques de estacionamento? Nem um. Sala de Espectáculos? Atrasadíssima. Biblioteca Eduardo Lourenço? Parada porque o construtor ficou liso. Cibercentro? Já fugiram dois empreiteiros. Plataforma Logística? Encalhada. Alameda da Ti Jaquina? É mentira. A «aposta no espaço urbano», a «criação de novas centralidades», a «revolução na paisagem», a «devolução do espaço às pessoas» e a «cidade onde dá prazer viver»? Tudo tretas. E era assim, a dois terços do mandato, que as pessoas iam dar uma vitória clara ao PS só por se tratar do PS? Claro que não. Em primeiro lugar, porque foram poucas as pessoas que se deram ao trabalho de votar nalgum partido. Em segundo, porque as pessoas também deram a Maria do Carmo Borges, com um intervalo de quatro anos, primeiro a mais folgada e a seguir a mais aflita vitória do Partido Socialista na Câmara da Guarda. Ou seja: as pessoas não são estúpidas. Achar agora que a goleada de 52-32 nas Eleições Europeias foi uma vitória pessoal de alguém – de Maria do Carmo Borges ou de algum dos sentados do Caçador – é não ver nadinha de nada. Recostarem-se todos à sombra dos números é dar razão a Fernando Ruas, citado Segunda-feira no "Público": passamos a vida na Guarda a «ouvir declarações míopes» de responsáveis políticos e precisamos «pedalar para atingir o desenvolvimento registado por Viseu». Custa engolir – mas o homem tem razão.

«O Interior»

3 de junho de 2004

3 Jun 2004: Cicatrizes na paisagem

Hoje falo sobre jardins. Decerto há assuntos mais importantes de que me ocupar e coisas mais úteis sobre que escrever. Mas também não é meu objectivo dissertar acerca do bucólico aspecto e da prazenteira presença dos canteiros. Quando muito é para lamentar, agora que o tempo está de feição, o desmazelo que criou raízes nos espaços de lazer ao ar livre na Guarda. O Parque Municipal é o expoente alegórico deste abandono, que não deixa de fora nenhuma dos raríssimas zonas verdes criadas nos últimos anos: o jardim dos Castelos Velhos está a ficar reduzido a cacos; o do Largo da Estação é um insulto; o dos Delírios é uma alucinação; o das traseiras dos prédios junto à Capela do Mileu é pasto de gado; a própria estação arqueológica é um chiste. É verdade que nem toda a responsabilidade pode ser atribuída à Câmara. Muito do que ali se vê é o resultado da incúria colectiva, da deficiente educação cívica, da falta de respeito pelo que é de todos. Mas precisamente por isso é que vale a pena falar de jardins – para demonstrar que, para mal colectivo, estavam certos quantos torciam o nariz à «opção estratégica» que teimou em exprimir o conceito de requalificação urbana numa pretensa transformação de um atoleiro num parque público com grande dimensão e valências distintas. E o que temos, agora que o projecto se aproxima do fim? A trinta dias do último bater do relógio do Polis não temos praticamente nada. Mesmo com prorrogações consentidas ou meras dilações tácitas, o que está à vista é um enorme falhanço e uma oportunidade perdida. Parque Urbano do Rio Diz? Está armada a tenda e existe um esboço de um futuro parque infantil e de lazer, numa zona fora de mão e com maus acessos. Jardim da Ciência, Quinta Pedagógica, Centro de Interpretação da Natureza, Museu da Água e por aí diante? Nada, rigorosamente nada. Encosta Norte da cidade? Apenas o atraente tratamento paisagístico do pinhal, por agora inacessível pelos taipais que rodeiam a antiga avenida dos bombeiros, onde o restaurante e o miradouro provavelmente nunca chegarão a sair do papel (ao menos arranquem a vedações, limpem o estaleiro e improvisem um parque de estacionamento onde existiu o quartel). Encosta da feira? Fica como está, que nunca foi outra a ideia. Nesta desmedida fantasia esvaiu-se tempo e dinheiro. Sobram menos de trinta dias para o fim oficial das obras e não resta, ao que parece, um cêntimo. Obras, nem vê-las. Pelo menos as tais obras que prometiam mudar a face da cidade, devolver o espaço às pessoas, aproximar os núcleos urbanos, criar eixos de vivência e lazer. Insistiu-se numa megalomania dispersa e perdeu-se a oportunidade de reanimar as centralidades tradicionais da Guarda. Não se fez um único lugar de estacionamento, não se retirou o trânsito da zona histórica, não se interveio na Praça Velha (tantas foram as «datas certas» para o começo que já toda a gente começa a achar que é mais um logro), não se construíram zonas pedonais, não se criaram recantos, não se revitalizaram espaços, não se instalaram serviços. A zona entre a Sé e o velho Sanatório, completamente plana e com tudo à mão, podia ser um enorme jardim, uma soberba praça pública, um espaço nobre para orgulho de residentes e prazer de visitantes. Bastava ter aceite as ideias que tanta gente ofereceu. Bastava ter construído grandes parques de estacionamento em cada extremo, à superfície ou sob o solo. Bastava ter existido visão estratégica e coragem política. Bastava não se terem deixado deslumbrar com os milhões de mão beijada que o Polis proporcionou, sem que tivessem sabido ao certo em que aplicá-los. Bastava não ter sido permitido tanto disparate. Bastava não terem sido oferecidas nozes a quem não tem dentes. E como se não bastasse o que nunca chegou a bastar, o mais certo é que, no fim de tudo, ninguém seja chamado à razão pelo fracasso. Apesar de nos devolveram uma cidade ainda pior do que antes da proposta «revitalização». Porque isto foi como uma operação plástica realizada por curiosos: em vez da beleza prometida, ficam à vista cicatrizes irreversíveis. Um horror.
«O Interior»