3 de junho de 2004

3 Jun 2004: Cicatrizes na paisagem

Hoje falo sobre jardins. Decerto há assuntos mais importantes de que me ocupar e coisas mais úteis sobre que escrever. Mas também não é meu objectivo dissertar acerca do bucólico aspecto e da prazenteira presença dos canteiros. Quando muito é para lamentar, agora que o tempo está de feição, o desmazelo que criou raízes nos espaços de lazer ao ar livre na Guarda. O Parque Municipal é o expoente alegórico deste abandono, que não deixa de fora nenhuma dos raríssimas zonas verdes criadas nos últimos anos: o jardim dos Castelos Velhos está a ficar reduzido a cacos; o do Largo da Estação é um insulto; o dos Delírios é uma alucinação; o das traseiras dos prédios junto à Capela do Mileu é pasto de gado; a própria estação arqueológica é um chiste. É verdade que nem toda a responsabilidade pode ser atribuída à Câmara. Muito do que ali se vê é o resultado da incúria colectiva, da deficiente educação cívica, da falta de respeito pelo que é de todos. Mas precisamente por isso é que vale a pena falar de jardins – para demonstrar que, para mal colectivo, estavam certos quantos torciam o nariz à «opção estratégica» que teimou em exprimir o conceito de requalificação urbana numa pretensa transformação de um atoleiro num parque público com grande dimensão e valências distintas. E o que temos, agora que o projecto se aproxima do fim? A trinta dias do último bater do relógio do Polis não temos praticamente nada. Mesmo com prorrogações consentidas ou meras dilações tácitas, o que está à vista é um enorme falhanço e uma oportunidade perdida. Parque Urbano do Rio Diz? Está armada a tenda e existe um esboço de um futuro parque infantil e de lazer, numa zona fora de mão e com maus acessos. Jardim da Ciência, Quinta Pedagógica, Centro de Interpretação da Natureza, Museu da Água e por aí diante? Nada, rigorosamente nada. Encosta Norte da cidade? Apenas o atraente tratamento paisagístico do pinhal, por agora inacessível pelos taipais que rodeiam a antiga avenida dos bombeiros, onde o restaurante e o miradouro provavelmente nunca chegarão a sair do papel (ao menos arranquem a vedações, limpem o estaleiro e improvisem um parque de estacionamento onde existiu o quartel). Encosta da feira? Fica como está, que nunca foi outra a ideia. Nesta desmedida fantasia esvaiu-se tempo e dinheiro. Sobram menos de trinta dias para o fim oficial das obras e não resta, ao que parece, um cêntimo. Obras, nem vê-las. Pelo menos as tais obras que prometiam mudar a face da cidade, devolver o espaço às pessoas, aproximar os núcleos urbanos, criar eixos de vivência e lazer. Insistiu-se numa megalomania dispersa e perdeu-se a oportunidade de reanimar as centralidades tradicionais da Guarda. Não se fez um único lugar de estacionamento, não se retirou o trânsito da zona histórica, não se interveio na Praça Velha (tantas foram as «datas certas» para o começo que já toda a gente começa a achar que é mais um logro), não se construíram zonas pedonais, não se criaram recantos, não se revitalizaram espaços, não se instalaram serviços. A zona entre a Sé e o velho Sanatório, completamente plana e com tudo à mão, podia ser um enorme jardim, uma soberba praça pública, um espaço nobre para orgulho de residentes e prazer de visitantes. Bastava ter aceite as ideias que tanta gente ofereceu. Bastava ter construído grandes parques de estacionamento em cada extremo, à superfície ou sob o solo. Bastava ter existido visão estratégica e coragem política. Bastava não se terem deixado deslumbrar com os milhões de mão beijada que o Polis proporcionou, sem que tivessem sabido ao certo em que aplicá-los. Bastava não ter sido permitido tanto disparate. Bastava não terem sido oferecidas nozes a quem não tem dentes. E como se não bastasse o que nunca chegou a bastar, o mais certo é que, no fim de tudo, ninguém seja chamado à razão pelo fracasso. Apesar de nos devolveram uma cidade ainda pior do que antes da proposta «revitalização». Porque isto foi como uma operação plástica realizada por curiosos: em vez da beleza prometida, ficam à vista cicatrizes irreversíveis. Um horror.
«O Interior»

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