29 de julho de 2004

29 Jul 2004: Gostar sem fingir

Há quem veja na escrita dos jornais um desmedido privilégio. É-o em parte mas também é uma funesta responsabilidade, tanto maior quanto esguio for o cenário sobre o qual e para o qual se escreve, pela arriscada proximidade em relação aos factos e a quem os protagoniza. Esta partilha do mesmo espaço entre jornalistas e notícias é característica dos meios pequenos e não trará, que se saiba, inconvenientes por aí além, desde que não comprometa a percepção correcta que cada um dos lados deve ter acerca do seu próprio papel. Porém, como em todas as vizinhanças, é fatal que mais cedo ou mais tarde surjam mal entendidos e desavenças. E quando no mesmo condomínio se cruzam poderes e a imprensa, toda a paz se revela débil à mínima sacudidela. Isso desinquieta certas cabeças, levando-as a associar o simples exercício do direito à informação – um exercício bipolar, que tanto beneficia quem o pratica como, ainda mais, quem o usufrui – a ínvias tendências ou a arrebatados objectivos. Ora, a vivência democrática começa, precisamente, quando o cidadão ousa pensar, reflectir, discordar – e exprimir as suas convicções sem receio de que elas possam coincidir ou colidir com as de quem quer que seja (partidos, protagonistas, grupos, interesses, autoridades). É possível que haja, no meio dirigente local, alguns espíritos mais lúcidos que já tenham ultrapassado o estigma de que uma comunicação social renovada e activa podia constituir embaraço ou perigo. Mas também há, infelizmente, quem demore nesta aprendizagem e persista em ver a imprensa como a única parcela que escapa ao controlo de quem se acha indefectível fazedor de coisas. A escrita nos jornais ou a palavra nas rádios acabam inevitavelmente por preceituar um código de valores e princípios. É isso que nos distingue uns dos outros e leva cada um de nós à conquista de um espaço, em terreno fragmentado e competitivo. Não digo que a razão viva sempre deste lado. Nem garanto que não se cometam imprecisões ou que não se capitule no excesso. Mas entre o risco do exagero e a tentação do silêncio, penso que o primeiro, não sendo propriamente um direito, é pelo menos uma falta justificável e sanável. O princípio filosófico e instrumental é que esse risco, quando for pisado, o não seja por leviandade ou má-fé. Preocupar-me-ia muito se não soubesse assumir os erros que possa cometer por aquilo que digo ou escrevo. Mas preocupar-me-ia bastante mais se não acreditasse na minha própria razão ou se, por comodidade ou por conveniência, acabasse a defender opiniões que no meu íntimo sabia estarem erradas ou serem injustas. Na Guarda – como noutras cidades, provavelmente, mas isso é mal delas – convivemos com a mediocridade que nos dizem legitimada; com promoções sociais duvidosas; com reconhecimentos públicos suspeitos; com a promiscuidade aceite como banal; e com a incompetência tida como corrente. Mas pior que tudo isso é o conformismo. E a tendência para o compromisso e as meias-tintas. E a quase ausente capacidade de indignação, de protesto, de confronto de pontos de vista, de denúncia e de desmistificação das certezas estabelecidas. Não se pode dizer que se gosta de uma terra sendo-se complacente com esta triste realidade. Principalmente quando se trata da terra escolhida para viver e trabalhar – que não é exclusão de partes, nem plataforma de transição, nem mal menor, nem exílio frustrado. Como em tudo na vida, gostar não é só dizer bem. Isso é fingir. Isso é matar a paixão.
«O Interior»

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