15 de janeiro de 2004

15 Jan 2004: Papas e bolos

1. Quem manda no Hospital da Guarda faz lembrar aquelas crianças repontonas que só depois de terem posto três vezes os dedos na ficha eléctrica é que acreditam que apanham choque. Neste caso já experimentaram enfiar a mão na ficha em mais ocasiões do que era aconselhável e em tomadas diferentes – na pediatria, da radiologia, nos cuidados intensivos, na cirurgia, na cardiologia – mas não conseguiram convencer-se de que a culpa não é da electricidade: é da tendência para a asneira. Como crianças, o susto não lhes confere o tino. Enfim, vai uma tamanha catarse no hospital que nem os serviços até aqui tidos como de referência escapam. Veja-se a cardiologia (considerada, tal como a ortopedia, a pneumologia, a oftalmologia, a maternidade ou a psiquiatria, uma das unidades de bandeira do Sousa Martins, pelo menos em prestígio): o especialista que a dirigia acaba de bater com a porta, queixando-se de falta de meios e de promessas por cumprir pela administração. A parcimónia inviabiliza a fixação de técnicos – mas não evita a contratação de magotes de funcionários sem qualificações, em sectores dispensáveis, às ordens das clientelas partidárias. Este é só o mais recente episódio num longo folhetim de cisões que tem posto em causa a operacionalidade dos serviços e a própria credibilidade do hospital. Até as mais apregoadas conquistas dos últimos dois anos estão já por um fio: a unidade de cuidados intensivos desdobra-se em pedidos de auxílio; a radiologia despacha todo o serviço para um centro privado, por falta de especialistas; a pediatria está outra vez em crise, depois da saída de três das cinco médicas novas (que nem um ano ficaram na Guarda) e de uma outra ter sido autorizada a ausentar-se para formação. O próprio secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde reconheceu, esta semana, que o foguetório feito há menos de um ano (pelo hospital e pelos dirigentes do PSD) na abertura da urgência pediátrica foi de uma imprudência que agora se vira contra todos. Está tudo a voltar à estaca zero.
2. E diante deste cenário é para perguntar: como poderia um hospital novo resolver os problemas do velho? O que é mais importante: a idade das paredes ou a consistência do que acontece lá dentro? Anda meio mundo entretido com a polémica sobre os terrenos mas ninguém se lembra de pôr as quatro questões essenciais: quando, como, com quem e para quê? Se algum dia houvesse hospital novo, sê-lo-ia na base de uma parceria entre o Estado e grupos privados, que é o que está determinado. A União das Misericórdias já se assumiu interessada na gestão dos futuros dez hospitais que o Governo diz querer lançar sob esse modelo. Supõe-se que o da Guarda esteja na lista. Só que há aqui um paradoxo. A Santa Casa da Guarda também está a investir na recuperação do antigo hospital na Rua Dr. Francisco dos Prazeres para instalar uma clínica médica. E a Misericórdia de Trancoso lançou-se num projecto semelhante. Por detrás de ambas as iniciativas existe um não oculto propósito de negócio com o Serviço Nacional de Saúde, para que os beneficiários venham usufruir dos cuidados prestados nos futuros hospitais privados. É mais do que lógico: só segurando o Estado como principal cliente é que unidades deste tipo poderão sobreviver no Interior. As seguradoras e os utentes endinheirados representarão franjas escassas para manter a porta aberta.
3. Alguma vez será lançado um hospital novo na Guarda, quando existe um que não dá conta do recado e os potenciais parceiros privados estão é a cuidar dos seus próprios negócios na área da saúde? As partes que se desunham na discussão sobre os terrenos acreditam que sim, que a obra irá aparecer. E quem lançou a ideia está, provavelmente, tranquilo com o desenrolar da contenda. Não custou nada fazer a promessa. Foi como servir umas papas e uns bolos à mesa de uns tolos.
«O Interior»

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