10 de janeiro de 2008

10 Jan 2008: Expedição à selva

Só há duas situações mais humilhantes do que julgarem-nos tolos. Uma é não reagirmos. A outra é permitir que o julgador parta convencido de que os tolos ficam contentes consigo mesmos. Lamentavelmente é essa a ideia que de nós leva a venerável Associação Industrial Portuguesa, ao pensar que não só conseguiu gozar connosco como ainda nos deixou gratos. Não vale a pena ter contemplações: a prestação do «comissário» para as comemorações dos 170 anos daquela associação, na passada segunda-feira, foi a de um vendedor de banha-da-cobra; e a atitude das «forças vivas» anfitriãs esteve ao nível da de um morganho de pacóvios. Supunha-se que a conferência de imprensa da AIP fosse, no mínimo, para explicar duas coisas. Primeira: que razão autêntica – doesse a quem doesse – levou a fosse adiado o Congresso das Actividades Económicas das Regiões, depois de ter sido marcado com a antecedência de um ano para a Guarda, onde devia ter-se realizado no último fim-de-semana de Novembro. Segunda: que desígnios levaram a que, tratando-se inicialmente de um adiamento, tenha acabado por ser um cancelamento, uma vez que a organização foi sumariamente transferida para Lisboa. Veio Manuel Gamito prestar esclarecimentos? Não. Veio pedir desculpas à Guarda – e em especial ao agremiado que um ano antes tinha proposto receber o Congresso – por danos de imagem? Muito menos. O vice-presidente da AIP dirigiu-se à cidade num tom arrufado, fintando as perguntas e acabando por proclamar que «já disse o que queria dizer e sobre isso não digo mais nada», pois não estava aqui para outra coisa que não fosse fazer as apresentações do Congresso das Regiões... em Lisboa. Para nós fica reservado um prémio de consolação, um impreciso encontro transfronteiriço «a realizar entre Abril e Junho». Algo que, afinal, já figurava no programa para Novembro do ano passado, em simultâneo com o gorado congresso, na resenha das comemorações entretanto retirada da página da AIP na Internet. Alguém o desmascarou? Não. Parece que o «rebuçado» até foi, pelo contrário, exultantemente recebido. Esta é, afinal, a «região» tal como alguns a vêem: uma selva sem préstimo nem iniciativa, na qual sobrevivem uns indígenas parvos e acomodados. E ninguém, entre os chamados «representantes», os habituais «interlocutores» e as tradicionais «forças vivas» parece estar ralado em demasia com isso. O que podiam ter feito? Pelo menos podiam ter exigido explicações. O que ainda podem fazer? Podem, por exemplo, devolver a cortesia do mesmo modo, se na véspera do ajuntamento em Lisboa o presidente do NERGA e o presidente da Câmara (que se mantém como interveniente num dos painéis) mandarem dizer que afinal não estão para tal maçada porque têm algo mais importante a comunicar à Guarda no que a empresas, empresários e economia em geral diz respeito. Se 2008 foi prenunciado como «o ano», convém ter em conta que no final do mês ter-se-á extinto o primeiro duodécimo. Já vai sendo tempo de dizer alguma coisa.
«O Interior»

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