24 de julho de 2008

24 Jul 2008: Cidade Rádio

O tango de Francisco Canaro é um adeus sentido às planícies de terra amarela da Argentina. A melodia chorosa faz lembrar o nosso fado, o que tem lógica: é provável que ambos os géneros encontrem raízes na tradição celta, supondo-se que os escravos africanos a tenham transportado para lá do Atlântico, de onde regressou à Europa já na primeira metade do século XX como novidade dançável e sensual. «Adiós, Pampa Mia» é de 1946 e também trina o começo de uma aventura que percorrerá o sonho e a esperança. É, apesar de tudo, menos fatalista do que o fado cantado. Talvez esse tenha sido o motivo: a opção pela confiança no lugar do desalento; da ousadia em vez do desengano. A 29 de Julho de 1949 foi este tango de Franciso Camaro com arranjo de Mariano Mores que rodou num vinil de 78 rotações editado pela londrina «The Parlophone» pela primeira vez, oficialmente, na Rádio Altitude. Assim o testemunha a velha placa exposta, juntamente com o disco original, no «Átrio da Memória» da Casa da Rádio. Estudos recentes – e respeitáveis – de Hélder Sequeira, anterior director e agora dedicado Provedor do Ouvinte (uma figura inédita na rádio em Portugal, instituída sem obrigação legal, no pressuposto assumido de que cometemos muitos erros mas tentamos não cair no pior de todos, que é nunca reconhecê-los nem corrigi-los), concluem que em 1948 – ou mesmo antes – a rádio já existia e transmitia. Como resolvemos esta aparente contradição documental? Não resolvemos, porque não há nada para resolver: a Rádio Altitude completará 60 anos na próxima terça-feira, 29 de Julho; e tê-los-á na mesma data em 2009. É uma Senhora respeitável, de espírito jovem e arejado, a quem não se deve perguntar a idade. Pelo mesmo princípio venerável a rádio não organizará agora nenhuma grande festa. A própria cidade far-lha-á daqui a poucos meses, evocando-a – e evocando-se. Porque uma cidade que tem na sua memória o facto de ser pioneira na radiodifusão sonora deve celebrá-lo. E vai celebrá-lo, no dia em que também se celebrar como cidade. A rádio, em contrapartida, irá esforçar-se por continuar à altura da celebração, tentando sempre surpreender com novas causas, novas abordagens e novos intervenientes. A melhor característica do recente mas intenso percurso da equipa que me honro de integrar tem sido, precisamente, a constante reinvenção. E os sinais de aceitação, retorno e credibilidade – que surgem continuamente e consolidam a sexagenária mas regenerada Rádio Altitude como órgão de comunicação social de referência – robustecem a nossa responsabilidade e desafiam incessantemente a nossa imaginação. Há quase cinco anos que tenho o privilégio de liderar, no plano operacional, um notável grupo de trabalho. Conto, a montante, com a confiança exigente e com a solidariedade atenta de uma estrutura empresarial. Partilho os dias, nesta exaltante aventura, com amigos e colegas que se destacam pelo profissionalismo e pela vontade de alcançar os objectivos que em conjunto nos propomos. E tenho como inestimável o contributo de um grupo de mais de trinta cronistas, comentadores e autores ou colaboradores de programas temáticos. Alguns também com um lugar merecido na história da rádio em Portugal, como o «Escape Livre». Poder contar com a participação de tantos cidadãos – de diferentes sensibilidades profissionais, sociais, cívicas e políticas – é uma distinção para a rádio; cruzar quotidianamente tão plurais pontos de vista acerca das nossas coisas e das nossas causas é um legado para a cidade e para a região. Vivemos na rádio um desusado ambiente de auto-estima, é verdade – umas vezes a raiar a hipérbole e outras a causar simplesmente inveja. Mas somos assim: já bastou o que bastou. Só não desejamos fazer uma rádio perfeita. Mas também não queremos conformar-nos com a rádio realizável. Nem com a cidade possível. Afinal de contas, a vida não é a feijões. Pelo menos para alguns dos que escolheram cá viver e trabalhar.
«O Interior»

10 de julho de 2008

10 Jul 2008: Desconfiar da paz

1. Na vida, nas relações, nos grupos, nas empresas ou nas instituições há momentos em que o avolumar da crispação e da desconfiança só encontra um desfecho lógico e digno: a ruptura. A procura do entendimento, as tentativas de conciliação ou o recurso a mediadores têm um limite no tempo e nas circunstâncias. A diplomacia antepõe-se à contenda mas raramente se lhe sobrepõe. É, assim, inútil tentar fazer o possível quando se torna premente fazer o necessário. Na política, então, ainda é pior: todas as boas intenções levadas ao extremo resultam em prejuízo. Um dirigente que afirme, num dia solene, que tem uma equipa coesa e que nela mantém «confiança pessoal, institucional e política, por ser a melhor testemunha do esforço de cada um e de todos» não deve temer a chegada do dia aziago em que se verá impelido a afirmar e a explicar o contrário. Se perdeu a confiança e passou a ser testemunha de outros factos, só terá que agir – a tempo de não ser colocado na condição de refém. Nestas alturas aferem-se muitas coisas, incluindo a autoridade e a motivação. A ruptura traz sempre consigo algo de exaltante, na medida em que regenera, reorganiza e aperfeiçoa as organizações. Quem salta ou é obrigado a saltar também aprende. Descobre – muitas vezes tarde e amargamente – que não vale por aquilo que é mas pelo lugar onde está. E que, terminada a incumbência, afinal nada existia para além disto aos olhos de terceiros – nem valor nem vaga. Os que ficam agarram a segunda oportunidade, normalmente mais criativa e produtiva. Os que vão caem fulminantemente no esquecimento.
2. Teresa Patrício Gouveia está disponível para aquilo que a Guarda quiser. Declarou-o a própria. Partes do PSD entraram em euforia: aqui está a candidata à Assembleia Municipal, se não for mesmo à Câmara. Duvido, por três razões. A primeira tem a ver com a inevitável perda de prestígio da Assembleia Municipal, depois de falhada mais uma tentativa de revisão da lei eleitoral para as autarquias. Ao contrário do que parecia assente ainda há meio ano, já não será em 2009 que votaremos para a formação de um autêntico governo local a partir de um verdadeiro parlamento de proximidade. Lá virão de novo as listas para a Câmara e as listas para a Assembleia. E lá continuará esta, sem honra nem glória, confinada ao papel tácito de instituição de corpo presente à qual se recorre por maçador imperativo de lei mas onde o jogo está definido à partida num cenário de absentismo, aborrecimento, falta de preparação e ausência de debate profundo. Deixará de ser prestigiante presidir a um órgão cuja morte todos desejam mas adiam. Pelo menos deixará de ser prestigiante para alguém como Teresa Patrício Gouveia. Como, pelas mesmas razões, para o actual presidente, João de Almeida Santos. A segunda razão radica no cenário de uma eventual candidatura da ex-ministra dos Negócios Estrangeiros de Durão Barroso à Câmara da Guarda. Mal iriam as coisas se o quadro das propostas, por qualquer das áreas políticas, passasse a abranger a benevolência de guardenses eméritos ou, pior, de um qualquer Santana Lopes de trazer por aí. Seria um sinal de que a massa crítica local desistiu. Ou de que não há sequer massa crítica nem gente disponível para lutar pela terra onde vive. A terceira razão advém da entrevista de Ana Manso ao Sol do passado Sábado, que deve ser lida de baixo para cima. É que a declaração mais importante está precisamente na última resposta: «a vida também é feita de contradições…». Do mesmo modo que as notícias sobre a morte política são sempre exageradas e que, como diz o povo, não há duas sem três. A diferença passa pela escolha criteriosa dos tabuleiros onde se vai jogando o xadrez. No momento certo, e com calma, há-de dar-se o xeque-mate. Há que apreciar esta mulher, goste-se ou não.
3. É bom que isto vá começando a agitar, de qualquer maneira. A paz, quando não está podre, é suspeita – porque inibe a iniciativa e entorpece a estratégia.
«O Interior»

3 de julho de 2008

3 Jul 2008: Todos os nomes



Gostava de viver na Avenida Maria de Lurdes Mendonça. Entenda-se: não está nos meus planos mudar de rua nem de cidade; quero é manifestar publicamente a exigência cívica para que a minha rua mude de nome. Actualmente chama-se Rua das Covas mas ainda não tem placas e é por isso que eu, quando instado por correspondentes e autoridades, dou a minha direcção no lote tal da Urbanização Quinta das Covas ou, simplesmente, na Quinta das Covas, número tal. Como vêem, faz toda a diferença. E sim – soa muito mais fino. Rua das Covas é que é de um mau gosto abrangente: vai do obsceno ao lúgubre. Maria de Lurdes Mendonça (ou Menina Lurdinhas, como a recordam mesmo os da minha geração) merece ser perpetuada numa rua que atravessa terrenos outrora familiares, que tem largura e extensão para se chamar avenida e, facto ainda mais simbólico tratando-se de quem se tratou, que conduz a uma escola. Duvido de que algum dos moradores da minha rua – e de tantas – não guarde tal mulher de inigualável grandeza e generosidade na memória dos afectos e da gratidão. Ela foi amiga, educadora, confidente, promotora, dinamizadora e filantropa de todas as iniciativas individuais ou comunitárias que lhe parecessem visar o bem público – e parecia-lhe sempre que tudo se fazia por bem. Descendente de uma família abastada, despojou-se com humanidade sem ter pedido nada em troca. O mínimo que se exige – a minha Freguesia de São Miguel bem sabe quanto lhe deve mas pelos vistos é ingrata – é que se lhe ofereça este gesto emblemático, com o paliativo de consciência de se ter como certo que ela, em vida, jamais aceitaria homenagens. Já me responderam, mais do que uma vez, que Maria de Lurdes Mendonça tem, «obviamente», uma rua com o seu nome. Tem? Onde? Na pesquisa no cadastro postal descobri quatro Marias: das Dores Sampaio; da Fonte; José Lucas; e Luísa Godinho. Lurdes que tenha merecido nome de arruamento, nem uma. Lourdes (por via de desambiguação) também não. Lurdinhas muito menos. A não ser que os próprios Correios estejam enganados, o «obviamente» reforça o sentido de um pressuposto comum: é claro que Maria de Lurdes Mendonça devia ter nome de rua ou avenida – mas estranhamente não parece tê-lo. A menos que lhe tenham atribuído uma quelha, travessa ou paralela indigna e desconhecida. Peço antecipada absolvição se estiver errado; reforço afincadamente a sugestão se estiver certo. Mas este, mesmo assim, é só um caso. O que sobra na toponímia urbana é a Rua das Flores (há quatro na Guarda), com as variantes das Camélias, dos Amores, das Rosas, do Jasmim, dos Lírios, do Rosmaninho (e do Rosmaninhal também) ou das Maias. Esta é deveras curiosa, pois sendo a maia a flor da giesta e existindo também a Rua do Giestal não compreendo como é que os mentores não completaram o ciclo com, por exemplo, uma Rua do Carrapato. Mas existem duas Rua Formosa, o que é de uma gritante injustiça (não vem para o caso se são demais ou de menos). Há uma Rua da Bela Vista e uma Rua Mira Serra. E há também uma Rua do Vale do Além, uma Rua do Calvário e uma Rua do Repouso. E duas Rua Senhora de Fátima, uma Rua Senhora da Graça, uma Rua Senhora do Mileu e duas Rua Senhora dos Remédios – seis arruamentos que podiam ser combinados numa única Alameda à Mãe de Cristo que servisse todas as devoções. Há a Rua dos Lameiros, a Rua das Hortas, a Rua da Eira (e a da Eirinha), a Rua das Macieiras, a Rua das Colmeias, a Rua do Chafariz, a Rua do Cruzeiro e a Rua do Ribeiro. O que não há, pelos vistos, é imaginação. Qualquer de nós pode elencar um conjunto de cidadãos dignos de reconhecimento – falecidos ou ainda vivos, pois o carácter póstumo não é inevitável –, bem como datas, memórias e referências colectivas que valham um topónimo. Será assim uma tão douta, erudita, exclusiva e problemática tarefa? Criar condições para os vindouros é um desígnio urgente. Considerar os vivos e homenagear os idos são actos de elevação que fazem igualmente a diferença na vivência de uma comunidade. Porque isto também é cuidar da auto-estima. Pode não parecer – mas é. Tudo conta.
«O Interior»