11 de outubro de 2001

11 Out 2001: A guerra possível

Na Idade Média cercavam-se os povos pela fome; no século passado isolavam-se em sanções económicas e comerciais, outra forma de castigo através da necessidade. Mas a guerra do novo milénio ostenta a sarcástica contradição do arremesso de alimentos por entre disparos de mísseis. Há muito que os conflitos mundiais deixaram de se caracterizar pela conquista através da agressão corpo a corpo, tendo dado lugar à destruição maciça de alvos precisos. Sabe-se, ao menos pelo cinema – e note-se que a 11 de Setembro ficou provado que a ficção já não é capaz de acompanhar o passo da realidade – , que cada centímetro do planeta está a ser vigiado e que neste momento, ou noutro qualquer, é possível dirigir, a partir de um asséptico gabinete no Pentágono e como se de uma tarefa de expediente se tratasse, um ataque rápido e mortífero contra um objectivo isolado. Mas a dúvida é sempre a mesma: por apurada que seja a perícia militar e por sofisticada que seja a tecnologia, dificilmente conseguirá que as bombas atinjam apenas os maus e que o auxílio humanitário alimente só os bons.O que nos pode ajudar a aliviar a incerteza é o facto de esta não ser uma guerra qualquer: ao menos por agora, aceitamo-la como uma missão de polícia. Não é fácil encontrar o criminoso, porque na realidade não há senão um retrato-robot. Luta-se contra um inimigo disseminado, sem rosto mas com muitos caras, que não está em lugar algum mas pode surgir em toda a parte. Bin Laden é apenas o talismã, o objectivo supremo, a vitória supranumerária. Neutralizar a utilização de um país com base terrorista e inutilizar a capacidade militar de um regime macabro é tudo quanto está em causa neste momento. Mesmo que a campanha se revele um tiro no escuro, tê-la iniciado é a honra mínima devida à memória de todas as pessoas – e nunca chegaremos a saber ao certo quantas – que perderam a vida num acto sórdido. Essas foram as autênticas vítimas inocentes desta guerra.Porque, quer se queira quer não, nasceu há quatro mil anos, a partir da Grécia antiga, a mais justa e mais compassiva civilização que o mundo conseguiu conceber: a civilização democrática ocidental. Tenha os defeitos que tiver, é pelo menos fundada nos princípios do governo legítimo, dos direitos de cidadania e do progresso das artes e das ciências. E uma coisa, pelo menos, é certa: as sociedades democráticas não combatem em nome de Deus nem clamam pela guerra santa.Da batalha que acaba de começar, o que se espera é que resulte em algo mais do que no mero alívio da consciência colectiva perante os ataques de 11 de Setembro. Que abale as organizações terroristas mas principalmente ataque os fundamentos sociais e culturais do terrorismo. Porque já antes tinham o regime taliban dado exemplos incríveis da ignorância e do fanatismo em que assentam as suas raízes. E já antes tinham cometido autênticos crimes contra a humanidade.Sabe-se que Bush lê essencialmente a Bíblia. Mas Tony Blair é capaz de nestes dias ter passado os olhos por Kant e pelas antinomias da razão pura: há razões contraditórias que se alcançam sempre que se pretende determinar a natureza absoluta do mundo. Ou dito de modo mais simples: há alturas em que é conveniente uma das mãos fingir ignorar o que faz a outra.
«Terras da Beira»

Sem comentários: