14 de junho de 2001

14 Jun 2001: Má língua

Abílio vai à fruta
Para quem se questiona acerca do que o antigo presidente da Câmara anda a fazer, aqui fica uma dica: é ele quem escolhe a fruta. Nada de novo, comentarão os leitores. Pois sim, mas neste caso estamos mesmo a falar em frutos e hortaliças. Abílio Curto é visita assídua num estabelecimento da zona da Estação, onde se entretém amiúde a dar dois dedos de conversa com o resto da freguesia. Numa tarde destas, a Má-língua, que nisto da frescura dos produtos da horta também é exigente, deu de caras com uma cena de fazer inveja a qualquer das candidatas à Câmara. Muito tu-cá-tu-lá, estava Abílio em amena cavaqueira com um interessado ajuntamento de interlocutoras e interlocutores. Como nos velhos tempos, ele lá ia tratando cada um pelo nome, perguntando-lhes pelos filhos, enviando-lhes cumprimentos, recomendando-lhes as melhoras. E como é o ano que é, e a clientela tomou o hábito de só ser alvo destas atenções quando há precisão, houve logo quem especulasse. Mal virou costas, uma assegurou ter ouvido que ele ia ser candidato por um partido qualquer. E outra: pois é cá bem preciso! Moral da história, ou mais ou menos: há sempre um Dom Sebastião à esquina da frutaria.
Convidas, convido
Consta que o PS concelhio já decidiu: Maria do Carmo é quem reúne melhor perfil para ser candidata pelo partido à Câmara da Guarda. Houve uma reunião, o assunto foi amplamente debatido, e alguém, supostamente o próprio presidente da concelhia, terá recebido um mandato explícito para convidar Maria a encabeçar a lista. Pelos vistos o encontro ainda não terá ocorrido. Porque é complicado fazer um convite a alguém que antes de o ser já o era. E porque também não é fácil, mesmo que seja só por estrito cumprimento do protocolo partidário, um emissário ter de fazer o papel de dirigente junto de quem, naquelas circunstâncias, o dirige a ele. E porque, lá no fundo, há um lado de cavalheiro que se sobrepõe. Dá para imaginar o tom da conversa: Ele – Gostava de falar consigo; Ela – Eu também, mas diz lá; Ele – Não, diga a senhora primeiro; Ela – É simples. Estive a pensar, quero ser candidata e quero-te para meu número dois. E tu, do que querias falar-me?; Ele – Também é simples. Estive a pensar, quero ser candidato e quero a senhora para minha número um.
Não se invoca o Seu nome em vão!
Se depender de divinas bênçãos, o candidato do PSD à Câmara de Seia está bem lançado. A apresentação decorreu num salão paroquial, na apropriada Rua do Purgatório, cujas paredes se encontravam desprovidas de ícones partidários ou de referências à figura do candidato. A única imagem era a de um Cristo a carvão, que dominava toda a assistência. Até podiam tê-lo tirado, ao menos enquanto decorresse a profana celebração, mas deixaram-no continuar exposto. Lá pensado que para a circunstância não seria tão eficaz quanto um Cavaco, mas sempre seria melhor que um Luís Filipe Menezes. Mas note, senhor candidato, que não é bonito invocá-lo em vão!
O mictório, obra estratégica
Há um no muro por detrás do jardim do largo Frei Pedro, bem integrado e recatado quanto baste. Dizem que fica à boca de um dos misteriosos túneis que noutros tempos atravessavam a urbe. Podia ir para obras, ser objecto de estudo, receber uma sala de exposições e passar a integrar uns urinóis assinados. E música ambiente. Findos os trabalhos, seria devolvido à cidade como intervenção bem realizada em local emblemático, a pensar no bem-estar diurético dos guardenses. Há outro perto da Praça Velha, e está fechado. E há imensos locais públicos – e múltiplas soluções técnicas – onde este tipo de alívios fazia jeito. Pois não senhor. O Jardim José de Lemos, como já é um espaço verde de proporções visivelmente exageradas, vai ainda perder um canteiro ou dois, para dar lugar a um mictório público – obra estratégica, já devidamente assinalada por uma placa, daquelas que se colocam para tornar indelével a autoria dos grandes empreendimentos. Mas que raio de soltura terá dado a esta gente, para tornar complicado tudo quanto aos outros parece simples?!
A doença do burro
Numa quinta ali para os lados da Senhora dos Remédios estava um burro com a doença. Velhice, dizem. O encarregado do pasto, vendo o animal a dar as últimas, não quis ter responsabilidades com a futura carcaça. Consta que telefonou para os serviços municipais da Protecção Civil, pedindo ajuda para fazer face ao iminente fanico do asno. Ter-lhe-ão prometido o envio de uma equipa, logo que fosse possível. E o homem esperou. E esperou. E como o burro era o outro e não ele, pegou o dito pela rédea e tratou de lhe oferecer uma última morada condigna: nem mais nem menos que o jardim público do Bairro da Senhora dos Remédios, diante da casa de quem manda. Lá ficou o jerico em bonançosa pastagem, até que deram o alarme. Foi recolhido para observação. E agora amanhem-se com ele! Hi-Hó!!!
«Terras da Beira»

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