15 de março de 2002

15 Mar 2002: Os donos da bola

1. As eleições de Domingo sugerem reflexões que há poucas semanas eram difíceis de explorar. De tanto ouvirmos falar em futebol e em estádios, ficamos com a sensação de estar diante de um derby de segunda categoria. Onde se joga com desapego, por mera exigência de calendário. Mas eis que, subitamente, a meio da segunda parte, a equipa favorita começa a dar parte de fraca, por falta de jeito. E a adversária, embora jogue tão mal ou pior, dá conta e atira-se de polegar hirto e garra afiada, capitalizando a debilidade da outra. O cómodo 2-0 alcançado nos primeiros quinze minutos chega ao intervalo contido em 2-1. E agora, próximo do fim da partida, eis que se alcança o empate. O que quer dizer que os últimos minutos são decisivos. Porque, dê para onde der, uma das equipas tem obrigatoriamente que ganhar, nem que haja prolongamento. Afinal, o jogo não é a feijões e o favorito pode já não ascender à divisão seguinte, como previa e pelo qual já tinha começado a deitar foguetes. Digamos que o relato é este. E o comentário: o jogo é pobre, a táctica é difusa, ninguém leva a sério os capitães, os jogadores correm desgarrados e o árbitro, que ferve com o acessório, faz vista grossa ao essencial. Eis um daqueles jogos em que ninguém trocaria o remanso do sofá, diante da TV, pelo melhor lugar na bancada. Admirem-se, depois, que o estádio fique às moscas.

2. A Assembleia Municipal da Guarda prestou um péssimo serviço à sua própria razão de existir. Imagine-se que alguém convida para um jantar ou para uma festa e, quando já estão todos, é o próprio anfitrião quem falta. Foi isto, na essência, que sucedeu no debate sobre «O Distrito da Guarda: capacidades endógenas e sua avaliação no âmbito regional e nacional». O tema não apelava por aí além, de facto. Mas quem se mete nelas deve assumir todas as consequências. Os cabeças de lista dos partidos concorrentes às eleições mereciam, pelo menos, essa consideração. Mas não só os deputados não apareceram – nem sequer os que votaram a favor da iniciativa – nem aquilo passou de uma interminável enfiada de monólogos, revelando a displicente falta de preparação. Um frete de três horas e muito, que nada de relevante acrescentou. E com uma assistência praticamente reduzida às claques. Resta saber se a Assembleia retirou daqui alguma lição – e se irá, finalmente, procurar o seu próprio recurso endógeno.
«O Interior»

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