16 de maio de 2003

16 Mai 2003: A bem do próximo

Quem diz “radares.net” diz também “radares.com” ou “condutores.pt”, indo só aos que têm melhor apresentação. Mas há uma vastidão deles onde é só entrar e dispor. Ancorados no conceito constitucional do direito ao livre pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, fornecem-nos informação classificada como «serviço público»: a localização dos radares da polícia, a identificação dos carros à paisana que a GNR e a PSP usam na vigilância dos condutores e dicas sobre o modo de fuga. A comunicação é estática (na consulta ocasional dos conteúdos) ou interactiva (na subscrição de boletins diários por correio electrónico ou alertas de última hora por mensagens escritas para o telemóvel), o que pode revelar-se de uma utilidade impagável, se à hora certa e ao local apropriado chegar um aviso como este: «EN 17. Localidade da Carrapichana. Centro da localidade, limite 50km/h. Nissan Primera branco com radar móvel, atrás de um muro de pedra (muro do canil) numa curva, impossível ser visto». Ou como este: «IP 2. Saída Fundão-Covilhã. Saída da auto-estrada. Agente da BT à civil sentado numa cadeira de praia debaixo de uma ponte com radar fixo. À saída para rotunda estão outros a mandar parar». Ou este: «IP 5. Saída 26 para Porto da Carne. Nissan Sunny branco com radar fixo». Sei que, ao sair de casa e aventurando-me nas redondezas, terei estes anjos-da-guarda a velar pela minha carteira e pelo meu cadastro. E, bem vistas as coisas, pela minha segurança. É mais provável que me contenha a 50 quilómetros por hora na rua principal da Carrapichana por saber que há polícias escondidos detrás do muro do canil do que pela consciência cívica de que esse é o limite que estou obrigado a respeitar dentro das localidades. Do meu ponto de vista vai ali um condutor exemplarmente e imperiosamente cumpridor; do ponto de vista dos transeuntes da Carrapichana está ali uma estrada segura; do ponto de vista dos polícias está ali um dia perdido; e do ponto de vista destes altruístas incógnitos vai ali mais uma boa presa da caça à multa que consegue pôr-se a salvo. A primeira razão de existir deste big-brother é livrar-nos do predador. Não porque incite à desobediência, antes pelo contrário. Uma característica que estas fontes de informação têm em comum é o apelo, documentado com leis da República, ao cumprimento das regras da estrada. Nesse aspecto, arrumam num canto a Associação dos Cidadãos Auto Mobilizados e outras organizações sérias. Mas a coisa pára aí. Este conceito de «serviço público» inclui os truques para burlar os diferentes tipos de radares, indicando com preciosa exactidão as distâncias que efectivamente cobrem e a que velocidade “disparam”. E previne-nos contra as manhas da GNR: o Ford Fiesta vermelho com mais de dez anos que costuma estar parado na berma do IP5, de capot levantado, a fingir avaria (e a esconder um radar); as carrinhas Ford Transit brancas; o Toyota Corolla azul com um radar que «parece um agente com cabeça quadrada sentado no lugar do pendura»; ou o Volkwagen Golf cinza escuro «que costuma ser conduzido apenas por um agente, para não levantar suspeitas». Isto numa lista de quase duas centenas de veículos a patrulhar o país, identificados por modelo e matrícula. É difícil avaliar a veracidade da informação que se recebe assim. Mas não é difícil perceber que somos uma gente eternamente em conflito com a lei. Cá no fundo, um bando de vigaristas sem vergonha nem respeito pelo próximo. Mas há casos em que a vigarice é a bem do próximo.
«O Interior»

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