17 de julho de 2002

17 Jul 2003: Sair do sério

1. Infelizmente não se descortina qualquer final feliz para o enredo da Escola Superior de Saúde da Guarda. Quando se diz que uma decisão deve ser sujeita a estudos profundos antes de ser tomada é porque já está tomada – e é não. Tudo o mais serve para empatar. As promessas são como as chocas lançadas à cernelha – despistam e aquietam. E a realidade que se vai percebendo é que nenhum governo – nem este nem o anterior – teve alguma vez a intenção de criar a escola na Guarda. Foi como tudo: os outros conseguiram, nós agora também queremos. Mas nunca houve, nem há, força para impor uma decisão na primeira linha dos acontecimentos. Só nos resta o caminho da indignação e do murmúrio – por um hospital, por uma escola, por um serviço, por uma posição no mapa. Mas até a assobiadela é desconcertada e desconcertante. Uns acusam os outros e estes desculpam-se com aqueles. A passagem do PS pelo governo deixou à Guarda um saldo zero na influência e no proveito. O PSD só prosseguiu a ineficácia. Os poderes calam-se, porque querem perpetuar-se. As oposições calam-se, porque são coniventes na decadência. Tem sido esse o sentido da alternância – e a razão de todas as perdas lançadas ou por lançar. Provavelmente nunca chegaremos a ter a Escola Superior de Saúde, tal como não tivemos uma série de coisas. O risco, para quem decide, é ponderado: mesmo que aqui se faça barulho, dificilmente se ouvirá no fim da rua e o silêncio torna passados dias. Só a indigente e apagada classe política que nos representa é incapaz de perceber que apenas existe na periferia de si mesma. E que mais ninguém a leva a sério, para mal comum.

2. Em tempos alguém com responsabilidades tirou da cartola este teorema: não valia a pena aprofundar a promoção turística da Guarda porque a oferta hoteleira era frágil. Se o trabalho fosse sistemático e planeado, corria-se o risco de se atraírem visitantes sem se lhes poder garantir um tecto. Assim se explica o minimalismo da acção, desde que há memória. Mas se esse era o critério, está para breve o dia em que deixaremos de viver escondidos. Vai abrir um hotel e estão dois em construção. E o que existe não fecha para obras, ao contrário do que esteve anunciado. Por junto, a cidade ganha três centenas de camas. Para ser um lugar de passagem bem servido de dormidas? Não. A fazer fé nas promessas, agora é que vai ser. De um fôlego, a Guarda passará a dar nas vistas nos melhores roteiros turísticos, com oferta apelativa e variada. Mas enquanto sim e não: é possível mandar abrir as igrejas (a começar pela Sé) fora dos horários das missas e obrigar os restaurantes e as esplanadas a servirem aos domingos? Até os de cá agradeciam.
«O Interior»

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