18 de outubro de 2003

18 Out 2002: Bandeiras desbotadas

Ou o hospital da Guarda acerta rapidamente na receita para sarar as próprias feridas ou não conseguirá conter a infecção e, quando der por ela, encontrará o corpo já de tal forma mazelado que será difícil isolar a causa – e o tratamento tornar-se-á doloroso.
O tempo passa e nada: a equipa que devia estar a conduzir os destinos hospital continua por formar, porque o lugar de director clínico está outra vez deserto. José Cunha pode não ser, afinal, o médico bonacheirão que muitos supunham disponível, por militância e bom feitio, a transigir na condição de «reserva de excepção» para o cargo, se não encontrassem mais ninguém.
Como se está a ver, ele não é necessariamente assim. E, vendo-se apertado entre as movimentações a montante (o esforço de pacificação do corpo clínico, que resultaria na criação de uma equipa directiva sobre a qual o próprio teria reduzida margem de escolha) e as resistências a jusante (a falta de consenso com o PP em relação ao nome), Cunha poderá, simplesmente, optar por seguir a sua vida, tranquilo e indulgente – e livre de aborrecimentos.
Nisto vão decorridas duas semanas desde que Alberto Duarte resignou, ao cabo de pouco mais tempo, ao lugar. Mas há outros prazos que se esgotam. Prendem-se com promessas, protestos, anseios, disputas. E com bandeiras eleitorais que já se vêm desbotadas ou a meia haste.
A Pediatria está reduzida, desde Terça-feira, a um especialista: Luísa Pedro meteu baixa médica (e talvez não volte, visto que a esperam nos próximos dias no hospital das Caldas da Rainha) e outro clínico presta serviço em regime de apoio temporário.
Qual será o futuro desta unidade e de outras que sem esta estar a funcionar correrão riscos (como a maternidade e a neonatologia)? Que é dos pediatras que se diziam ansiosos por virem para a Guarda? Virão depois – virão quando? Virão?
Há um antigo provérbio chinês que diz: negociar é como mastigar cana-de-açúcar. Começa-se pela raiz (que é algo amarga) e continua-se pelo caule, que sabe progressivamente a doce. E como o que é doce nunca amargou, espera-se que a «mastigação» dos novos senhores deste hospital entre depressa no talo da planta. Pior seria se tudo isto fizesse lembrar uma peça de fruta que dá um trabalhão a descascar e depois não tem nada para comer.
«O Interior»

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