19 de abril de 2002

19 Abr 2002: Jardins proibidos

Hoje falo de jardins. Decerto que há assuntos mais importantes de que me ocupar e coisas mais úteis sobre que escrever. Mas também não é para dissertar sobre o bucólico dos canteiros – é para lamentar, agora que o tempo está de feição, o desmazelo que criou raízes nos espaços de lazer ao ar livre na Guarda. É visível no Parque Municipal, expoente simbólico do abandono, como no mais recente jardim da cidade, o dos Castelos Velhos, que em menos de meio ano viu o repuxo reduzido a cacos. Isto sem falar no confrangedor estado a que deixaram chegar o Jardim dos Delírios.
É verdade que nem toda a responsabilidade pode ser atribuída à Câmara. Muito do que ali se vê é o resultado da incúria colectiva, da deficiente educação cívica, da falta de respeito pelo que é de todos. Mas precisamente por isso é que vale a pena falar de jardins – para questionar uma opção estratégica que está em contagem decrescente e promete um modelo de «requalificação urbana» assente na transformação de um enorme lameiro num parque de grandes dimensões ao longo do Rio Diz.
Ninguém põe em causa a importância de um Jardim da Ciência, a utilidade de uma Quinta Pedagógica ou a vantagem do Centro de Interpretação da Natureza, tal como ninguém duvidará de que ao minuto zero o último arbusto estará plantado. O problema surge daí por diante: quem nos garante que passado meio ano tudo isto não se apresentará no estado em que se encontram hoje a fonte do Jardim dos Castelos Velhos, os bancos do Jardim dos Delírios ou os candeeiros do Parque Municipal? Sabemos quanto custa a «menina dos olhos» do Programa Polis para a Guarda – alguém fez contas a quanto custará, finda a contagem do relógio, o funcionamento e a manutenção?
Mais acima insiste-se nos «estudos técnicos» que viabilizem a construção de um túnel por debaixo do Praça Velha. Agarrados à primeira versão do plano, os mentores da ideia não parecem inclinados a reconhecer que um buraco entre a Rua 31 de Janeiro e o largo da Misericórdia seria um disparate inútil. E o pior é que fazem depender deste projecto faraónico o ordenamento à superfície e o fim da circulação automóvel. Como se não houvesse alternativas e a proibição não pudesse ter sido decretada há muito tempo. É claro que está em causa algo mais do que a simples colocação de placas de circulação interdita: é preciso mexer na paisagem, transformar as velhas ruas em atractivas zonas pedonais, criar recantos, revitalizar espaços, instalar serviços. No caso da Guarda, esta ideia podia até alargar-se a zonas fora da muralha medieval, como a Misericórdia e o Largo Frei Pedro. Não custa imaginar uma soberba praça pública desde o Jardim José de Lemos até à Sé. E nem parece que dois grandes parques de estacionamento convenientemente situados e com bons acessos – um na Avenida dos Bombeiros e outro nos terrenos do antigo quartel, por exemplo – não anulassem o único obstáculo racional à concretização de uma solução deste tipo.
Ganhava-se uma nova centralidade urbana. Devolvia-se a cidade às pessoas. E, bem vistas as coisas, seria mais barato e teria maior proveito do que o túnel e o parque juntos. Sobretudo porque não se sabe se, depois do Polis, estará alguém para dar corda ao relógio.
«O Interior»

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