21 de agosto de 2003

21 Ago 2003: Responsabilidade, estranho termo

Eis um estranho termo para os nossos costumes: responsabilidade. As desgraças e adversidades que se sucedem em Portugal, das cheias às vacas loucas, de Entre-os-Rios aos incêndios, arrastam consigo duas consequências típicas. A primeira é o festival de acusações, o circo político e mediático, a orgia das promessas, o desassossego de mostrar serviço. A segunda virá quase de seguida: tudo cairá num irreparável esquecimento, logo que não seja notícia. Deixem chegar a rentrée dos partidos, do futebol, do Big Brother e da pedofilia. Ninguém mais reparará no manto negro que cobre o país. Às primeiras chuvas, lá para Outubro, não se falará no assunto. E tudo o que ficar por reparar – vidas inteiras queimadas, no sentido real ou simbólico do termo – só será lembrado num próximo ano igual ou pior, quando for necessário fazer mais um exercício de expiação pelas medidas nunca concretizadas, pelas leis nunca regulamentadas, pelas promessas nunca cumpridas. Em resumo: pela sinistra ausência de responsabilidade. Que se advinha já hoje, à medida que o calor amaina e a época dos incêndios entra na velocidade de cruzeiro até ficar oficialmente encerrada e o Estado liquidar, a públicos e a privados, a factura dos meios que foram afectos a mais esta safra. Vale a pena, daqui a meio ano, ver quantas mortes terão sido ressarcidas e quantas vidas terão sido reconstruídas – e por meio de quê e de quem. Vale a pena, antes disso, ver quantas detenções de presumíveis incendiários agora efectuadas não se terão resumido à inconsequência de um acto isolado ou inimputável. Vale a pena, na próxima Primavera, ver se alguma coisa terá mudado na política florestal. Porque as pragas, sejam de Verão ou de Inverno, caem rapidamente no esquecimento. Portugal habituou-se, há décadas, a conviver com insuficiências, falhas, erros, corrupções e incompetências. Adaptou-se à ausência de um poder público forte e justo e de um poder privado fiscalizado. E, sobretudo, criou uma série de resistências e acostumou-se a dar a volta por cima apenas com a imaginação, o sacrifício e a generosidade individuais, quando falham as competências que deviam ser exigidas aos poderes estabelecidos. O país renascerá das cinzas naturalmente, deixando à vista a resignação mas também a capacidade de improviso daqueles que agora são obrigados a recomeçar do nada, alheios às discussões sobre os serviços que não funcionaram, as prevenções que não foram feitas, os alertas que ninguém levou em conta. Nestes episódios cíclicos da nossa tragédia, as personagens heróicas são, como sempre, os bombeiros. Podem ser indiciados de muita coisa. Porventura, até, de falta de preparação e erros tácticos. Mas quem somos nós para acusar gente que arrisca a vida a troco de nada? Mesmo que o sistema enferme de ineficácia, é o único que temos – e sobrevive de mão estendida e quase só à custa do voluntariado e da carolice, num país que não se digna criar corpos de bombeiros profissionais como forças de segurança pública. Quem pode, assim, atirar a primeira pedra?
«O Interior»

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