21 de março de 2003

21 Mar 2003: Quatro coisas

1. Uma coisa, aceitável, é duvidar dos critérios de preferência assumidos pelo Ministério da Saúde. O terreno escolhido para o futuro hospital da Guarda podia estar no rol dos improváveis lógicos, por uma série de razões. Tem vistas para o cemitério novo (não é, convenhamos, a cercania apetecida) e fica localizado numa zona de duvidosa expansão. E expansão quer dizer acessos, proximidade, integração. Dê-se a volta que se der, o crescimento da cidade é feito no sentido da estação e da Sequeira. Basta levar em conta o erro crasso já cometido com a construção do Instituto Politécnico: quase duas décadas depois, a Quinta do Zambito permanece num gueto, desgarrada da cidade. Maior sentido fará, por isso, que um complexo hospitalar seja projectado para a periferia do núcleo urbano, embora num local de previsível desenvolvimento, com bons acessos e bem servido por transportes públicos. Como se fez, por exemplo, na Covilhã e em Viseu – e como se faz pelo país fora. Porque um hospital não tem que funcionar como uma instituição de bairro, que precise de estar à mão. Aliás, um hospital nunca pertence verdadeiramente à cidade que lhe dá nome, mas a toda uma região que serve. Deve, por isso, estar próximo dos eixos viários de saída, fugindo ao tráfego de centro urbano. Vistas assim as coisas, a Quinta da Maúnça, já que se tornou num elefante branco para a Câmara, podia ter sido a escolha razoável, até pela vizinhança das duas auto-estradas que formarão, não tardará muito, a verdadeira cintura rodoviária da Guarda.

2. Outra coisa, lógica, é achar que, tendo a Câmara terrenos próprios onde só seria necessário construir acessos e infraestruturas, não faria sentido comprar a terceiros. Muito menos por sugestão – ou imposição – do próprio Governo, que exige contenção e proíbe o endividamento das autarquias. Este hospital necessita, dizem os técnicos, não menos de oito hectares. Quando pode custar uma área assim? Escrever milhões será exagero?

3. Outra coisa, conjecturável, é a teia de interesses que já se formou em torno deste negócio. Seria interessante averiguar quantas transacções de terrenos situados nas proximidades do Torrão terão sido iniciadas só desde que o ministro anunciou a localização do hospital. E quantas vezes o proprietário da parcela escolhida já terá usado a divulgação pública da decisão como garantia de “lucros emergentes” junto da banca e de credores. Mais. Seria, até, um acto de utilidade pública apurar quem comprou o quê e quando – bastará ter como referência os últimos doze meses – no perímetro ou nas imediações de cada um dos terrenos apontados como possíveis para a localização do hospital. Este podia ser, aliás, um exercício de lógica aplicável também a outras obras, como a Plataforma Logística ou as estradas projectadas (a variante da Sequeira, a alameda da VICEG e outras). As ilações seriam, provavelmente, embaraçosas.

4. Outra coisa, previsível, é a forma como a Câmara sai mal desta história, acabando vítima do espavento que armou. Seis terrenos para quê? Bastaria reduzir a metade as possibilidades – o Parque da Saúde por opção política, a Quinta da Maúnça por não ter custos e uma terceira, a adquirir, para desempate – e obrigar o Ministério a escolher uma. Mas não. Maria do Carmo Borges foi alargando a oferta e subindo a parada. Ficou célebre a declaração na Assembleia Municipal: a Câmara endividar-se-á, se fosse preciso. Agora, só pode queixar-se de si própria. E por maior que seja a legitimidade do protesto contra a forma como a decisão foi anunciada (num comício do PSD e antes de ter sido dado conhecimento à própria autarquia) a imagem que passa é o rompimento de uma promessa. É como se o anfitrião pedisse aos convidados para jantar que escolhessem o restaurante – e a seguir dissesse que «não gosto desse aonde querem ir e não me consultaram, por isso não pago!». Com estes tiros no pé, que a presidente da Câmara dispara, bastaria a Ana Manso manter-se calada para alcançar aquilo que deseja.
«O Interior»

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