22 de março de 2002

22 Mar 2002: E agora?

1. Ana Manso foi, indiscutivelmente, a vencedora das eleições no distrito da Guarda – e agora? De tanto exaltar, a propósito de tudo e de nada, a «arrogância», a «prepotência», o «abuso de poder» e o «desgoverno» socialista, fica-se na expectativa de um novo ciclo, completamente distinto daquele. Dando de barato que o clientelismo é uma fatalidade da nossa democracia, comum ao PS e ao PSD, resta saber se ao «exército de boys» vai seguir-se um novo «Estado laranja» simplesmente porque é regra – ou se, assimiladas as lições do passado, veremos inaugurada uma nova cultura de poder, em que as nomeações levem em conta o perfil e a competência, em vez do seguidismo e dos laços de família. Mas há outro aspecto em que a nova Senhora estará à prova. Depois de ter reiterado, na noite eleitoral, a promessa de um hospital novo, estaremos para ver se Ana Manso responde à letra à oferta do terreno por Maria do Carmo Borges – ou se eventuais «avaliações posteriores do estado catastrófico das contas públicas» e outras desculpas deitarão tudo a perder.

2. O mais certo é que Pina Moura, independentemente dos «contratos de legislatura» e de outras boas intenções, não deixe passar muitos meses até ser administrador de um grupo financeiro. Fernando Cabral está eleito. E Carlos Santos, neste cenário, poderá retomar a contagem do tempo, visto que lhe faltam só dois anos para a reforma por relevantes serviços à Nação. Um resolveu o problema e o outro está em vias de o resolver, poupando-se ambos ao sobressalto do regresso aos antigos empregos. Que outros desígnios poderá ter a próxima representação do distrito na bancada da oposição? Talvez ainda ninguém no PS se tenha dado ao trabalho de reflectir sobre isso, mas o «Princípio de Peter» também ajudou à derrocada.

3. Pode ser que os factos venham a provar o contrário, mas a ideia que paira é que o novo Governo não durará muito tempo. Com maioria casual e a precisar de braço direito, o que o PSD alcançou foi uma vitória desguarnecida de proveito. Manuela Ferreira Leite resumiu, aliás, a descrença que se instalou nas hostes: «Não se pode dizer que o PSD tenha perdido estas eleições». É que o problema está, precisamente, na forma como as ganhou. Quando Durão Barroso chegou à liderança, em 1999, anunciou que havia de ser primeiro-ministro. «Só não sei quando», acautelou, cheio de razões para tanta prudência. O estado de espírito da maioria das pessoas comuns, no último ano do primeiro mandato de Guterres, era o de que o Governo estava a ser melhor do que o último, ainda fresco na memória, Governo de Cavaco Silva. Tinha feito pouco, era certo, mas fê-lo melhor e mais pacificamente, sem a sobranceria e a insolência do final do cavaquismo. Tinham sido quatro anos de governação tranquila, com um Presidente cooperante, meios financeiros em abundância e paz social. Tudo isto – aliado, na véspera das eleições, à manipulação indecorosa dos sentimentos em relação a Timor e à exploração da morte de Amália – deu o resultado que deu, com o PS a um deputado da maioria absoluta. Como se derrota um Governo assim? Com paciência, selectividade e alguma imaginação. Durão, ex-maoista, lembrou-se do provérbio chinês: «senta-te na margem do rio e espera o tempo que for preciso: um dia o cadáver do teu inimigo passará por ti a flutuar». E assim foi. Sem luta e sem história, o PSD recebeu o poder de bandeja, tendo-se limitado a assistir sentado aos desaires, à má governação e ao desnorte de uma tribo em fim de ciclo – e a esvair-se, abandonada, no pântano que formou.

4. Tudo indica que vamos ter uma AD pós-eleitoral no Governo. E que Paulo Portas irá a ministro. Já se conjectura, inclusivamente, que a pasta da Administração Interna lhe estará destinada. Convém ter presente que este é o ministério que tutela, entre outras coisas, a polícia e as fronteiras. E também o Euro 2004, se o Ministério do Desporto (criado à pressa, sobre os destroços da saída de Fernando Gomes), for extinto. Ora, convém lembrar que jamais algum ministro (nos governos do PS como nos do PSD) aguentou muito tempo no lugar. A ser verdade que Portas será indigitado ministro das polícias, isto revela uma opção ao mesmo tempo inteligente e perigosa, por parte do PSD. Inteligente porque é uma tentativa de meter na linha o irrequieto líder do PP, pondo-o à prova numa área complexa, à qual ele dedicou boa parte do discurso populista. Perigosa por isso mesmo: porque uma coisa é dizer aquilo que o povo gosta de ouvir e outra coisa é querer assumir responsabilidades de modo consequente. Ao adivinhar o «presente envenenado» que está dentro do embrulho, Portas poderá, simplesmente, recusá-lo. Isso fragilizará a sua posição. Mas colocá-lo-á num ressaibo de exasperação, capaz de o fazer usar o braço direito naquilo que é mais característico nele: espetar facas nas costas.
«O Interior»

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