24 de maio de 2002

24 Mai 2002: Alguém os leva a sério?

1. Fernando Cabral já tinha dado voz ao descontentamento do Partido Socialista pela falta de menção expressa, no programa deste Governo, aos projectos que entendia serem vitais para o distrito da Guarda. A seguir revelou-se activíssimo nas interpelações acerca dos efeitos que a cruzada que está em curso pelo saneamento das contas públicas poderá ter na execução dessas obras e no lançamento de outras. Quem diz obras diz também a delineação de «medidas de discriminação positiva», como agora é fino designar. Depois veio com o companheiro de bancada Joaquim Pina Moura dar conta do andamento das coisas. E ambos prometeram continuar a intervir, propor, discutir, aprovar, reprovar, contestar, reclamar, protestar e informar sempre – que para isso foram eleitos deputados pelo povo desta parcela de país real. Deputados de oposição, é certo, mas nem assim menos atentos ou laboriosos. O que confunde as pessoas é que pelo menos um destes diligentes cavalheiros, Fernando Cabral, chegou aonde se sabe no tempo dos governos do PS e nunca se lhe tinha percebido, pelo menos assim em termos explícitos, uma tal fibra. A preocupação que agora demonstra assenta bem ao novel deputado, com certeza. Mas contrasta com a atitude passiva, concordante e reverente que, quer como governador civil, quer como dirigente distrital do partido no Governo, teve sobre os descuidos e as omissões acerca do que agora reclama. Muito do nosso atraso estrutural vem daí: de uma estratégia de aranha que, aos poucos, foi tecendo a sua teia de silêncios, de submissões, de vassalagens, de verdades absolutas em nome de interesses próprios e partidários. Essa teia asfixiou a capacidade crítica e o poder reivindicativo e tentou criar uma lógica de unanimismo mental, de culto da infalibilidade dos líderes, de resignação civil. Numa palavra: mediocridade. Graças a este património (que, infelizmente e como se tem visto, é comum nos partidos que têm disputado a alternância no poder), perdemos tanto e sobrou tão pouco. Por isso precisamos hoje de reclamar as medidas de «discriminação positiva» – porque o imobilismo, o seguidismo e a incompetência da classe política já nos proporcionaram a discriminação na forma pura durante anos a fio. Por isso apetece perguntar aos deputados do PS na sua mise-en-scène: acreditam mesmo, depois de tudo, que alguém os possa levar a sério?

2. Foi talvez uma questão menor. Ou só formal. Mas a verdade é que o invulgar excesso de zelo com que a Assembleia Municipal da Guarda cumpriu a agenda da sessão extraordinária da passada Terça-feira, marcada para votar os estatutos da Plataforma Logística, foi mais um episódio para o longo rol de prestações que faz com que este órgão autárquico se encontre, na essência como no método, a caminho do descrédito. O problema nem está no facto de a mesa não ter dado a abusiva tolerância de espera que por vezes concede, não esperando por boa parte das bancadas da oposição. Nem na celeridade com que o único assunto em discussão foi votado. Nem na validade da aprovação. Está, em primeiro lugar, no facto de umas vezes ser complacente com a balda e outra vezes não, aparentemente sem preceito à vista. E, em segundo, na deplorável peixeirada que não soube evitar. Claro que, chegados aqui, todas – mas todas – as perguntas são legítimas. A começar por esta: haverá coincidências?
«O Interior»

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