25 de abril de 2003

25 Abr 2003: Uma no cravo, outra na ferradura

1. Não se percebe se a demora na solução do problema da pediatria foi falta de jeito, ausência de coragem ou azar de conjuntura. Mas por fim o Hospital da Guarda tem o maior número de especialistas que alguma vez se imaginou e pôs a funcionar uma urgência pediátrica durante 24 horas, mais cedo do que o anunciado. É um mérito que não pode deixar de ser reconhecido e que tem no rosto hirto e na voz densa de Isabel Garção a protagonista primária deste sucesso, haja ou não virtudes difusas. Em menos de um ano, a directora do hospital operacionalizou o serviço, sabendo tirar franco proveito do estado de graça que a Administração Regional de Saúde lhe concedeu. Claro que há questões laterais que vão ficando sem resposta. Ninguém garante, por exemplo – nem mesmo as próprias –, que dentro de meio ano algumas das pediatras recém-formadas não regressem a casa, cumprido que estiver o tempo de permanência mínimo num hospital carenciado para obterem vínculo à Função Pública. Mas esse será só o desafio seguinte. O primeiro de todos – o mais difícil – está ganho. E enquanto o pau vai e vem, sobra tempo para abrir as janelas e deixar entrar o ar fresco que limpe o bafio e quebre o enguiço.

2. Ninguém será tão cândido ao ponto de acreditar que o hospital tenha aberto por mera casualidade sete vagas de quadro para auxiliares de acção médica e que também só por acaso seja esse, numa pesquisa a olho nu, o número de candidatos facilmente reconhecíveis das claques do PSD, incluindo primas e conterrâneos de figuras de proa do partido, inócuos dirigentes da jota e o próprio adjunto do governador civil – porventura o mais notório destes aspirantes a assistente de limpezas. Não está em causa, evidentemente, a dignidade de tal tarefa hospitalar. Pelo contrário: muitos dos que concorreram (e parece que passaram a centena) tomam-na como uma profissão honrada e, mais que tudo, anseiam que lhes seja dada uma oportunidade para a cumprirem com zelo e integridade, mesmo que pareça desprovida de relevo social. Mas também não é isto que procuram, certamente. Candidatam-se a auxiliares de acção médica – um silogismo que dissimula os trabalhos mais incómodos que há para executar num hospital – como a tudo o que lhes apareça, sem se fazerem rogados quanto ao conteúdo funcional da tarefa. Quem? Os desempregados de longa duração, os recém-formados sem colocação e os dispensados do sector têxtil, ainda à espera das apregoadas medidas de apoio social e de reinserção no mercado. Queriam um trabalho, um modo de auto-estima, um meio de subsistência. Cruzaram-se todos, na lista dos cento e muitos que concorreram a sete lugares de auxiliar no Hospital da Guarda. A esses devia ter sido explicado, com tangível decoro, que não valia a pena o incómodo. Que primeiro há que cuidar da prole. Que os lugares de nomeação não são eternos nem impermeáveis à incompetência. Que é premente obter para os nomeados, o quanto antes, a carta de alforria que os ponha a coberto da inutilidade futura. Que tudo não passa de um disfarce (bem menos recatado do que presumiriam à partida) para alcançarem, sem esforço e num jogo viciado, o inestimável vínculo ao Estado, de onde se farão requisitar, transferir, deslocar e promover – até que o azar lhes bata à porta, num dos inevitáveis ciclos pendulares da «alternância democrática». Na pior das hipóteses, sempre poderão agarrar-se aos lugares que agora estão prestes a extorquir, sujeitando-se à limpeza e ao transporte de doentes por algo mais do que o salário mínimo, até que cheguem melhores dias. A questão é que alguns deles – mesmo os que já levam larga experiência de serventia – nem a tanto aspirariam, se fossem opositores num concurso a sério. Quem disse que o governo social tinha acabado?
«O Interior»

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