28 de fevereiro de 2003

28 Fev 2003: Afectos compulsivos

Com o compromisso normalmente associado a actos para inglês ver, a Câmara da Guarda atirou para detrás das costas, na última sessão, os estudos prévios para a construção de um parque de estacionamento debaixo do Jardim José de Lemos, pedindo aos técnicos que continuem a imaginar a melhor forma. A proposta – um tanto voluntariosa – de um engenheiro de trânsito e do vereador do pelouro foi agendada mais por complacência do que por convicção, já que ocupara horas de trabalho de um serviço da autarquia. Mas ao perceber que a ideia suscitava interesse a presidente da Câmara ficou apavorada e propôs arrumar o assunto. Pelos vistos, Maria do Carmo tem «razões afectivas» que a poderão levar, se os técnicos insistirem, a barricar-se no jardim, pondo-o a coberto de qualquer investida de requalificação. É bom que se diga, sem rodeios, duas coisas. A primeira é que, independentemente dos afectos, o Jardim José de Lemos é um espaço feio, incaracterístico e caduco, a precisar de reforma. No Inverno é um lamaçal, no Verão é poeirento e falta-lhe o essencial para assumir a centralidade que o local merece: espaços de lazer, organização e animação. A segunda vem como consequência: onde agora está o jardim podia estar uma praça devidamente equipada, assumida como autêntico – e, de certo modo, majestoso – centro cívico da cidade. Com espaços verdes, desde logo. Mas também com tudo o que falta para lhe dar vida e utilidade. E, é claro, integrado num plano de requalificação urbana que fechasse ao trânsito as ruas que o circundam, que passariam a fazer parte da própria praça. A circulação automóvel seria subterrânea, com acessos em cada extremo, também para entradas e saídas do parque de estacionamento – que podia ter vários pisos abaixo da superfície, dispondo de centenas de lugares. Outras cidades próximas, como Covilhã e Viseu – sempre a ingrata comparação – acabaram por encontrar soluções deste género, resolvendo em boa parte (com fórmulas modernas, engenhosas e úteis) o problema do estacionamento no centro. Na Guarda, pelo contrário, o que vemos é uma enorme falta de coragem e uma medonha ausência de rasgo, disfarçadas de «afectos». Os mesmos afectos que mantêm – e manterão por muitos anos, não vale a pena ter ilusões – fechadas na gaveta outras ideias, como a revitalização do centro histórico, com o encerramento ao trânsito e o reordenamento paisagístico da Praça Velha e das vielas medievais. Por isso não adiantará apressar os estudos para o que quer se seja, no Jardim José de Lemos ou noutra qualquer parte do centro da cidade. O afecto manter-nos-á compulsivamente agarrados às arvorezinhas, aos caminhos de terra batida, aos vendedores de gelados e ao obelisco dedicado à guerra dos avozinhos. Sem esquecer os estratégicos e utilíssimos urinóis subterrâneos, recentemente inaugurados, onde não há, sequer, uma rampa para deficientes. O problema, quando se fala de «requalificação urbana» para a Guarda, é que não existe uma ideia concreta e global do que isso possa significar, tal como não há um grau de exigência muito grande. Veja-se o caso da avenida e do largo da Estação: terminados os trabalhos, o pavimento da estrada tornou-se desigual, o jardim caiu no abandono, o lajedo das imaginadas áreas de lazer ficou irregular, os ladrilhos de balneário com que foram revestidos os dois lagos artificiais já começaram a cair. No fundo, o planeamento desta cidade é como o de uma moradia com dois palmos de jardim ao redor, do qual se cuida quando sobra tempo: hoje um arbusto, amanhã uma roseira, noutro dia um candeeiro. Já nem faltam, sequer, os leões de barro a ladear os portões – basta entrar na Guarda pela rotunda do Torrão para perceber que o conceito foi aplicado, em forma de letra.
«O Interior»

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