29 de novembro de 2002

29 Nov 2002: Felizmente há quem sonhe

1. A intervenção urbanística na zona histórica da Guarda está a tornar-se num mito. Há quem creia ser possível orientar, em equilíbrio e com bom gosto, uma transformação útil na praça e nas vielas do miolo medieval da cidade. Nada autoriza, no entanto, a que se acredite em tal ideia. Quando, há uns anos, se colocou a hipótese de mudar de sítio a estátua de D. Sancho, no encadeamento de uma intervenção arrojada pensada para a Praça Velha, a Câmara não teve a coragem de avançar e pôs o assunto à discussão pública – que é, como se sabe, a forma clássica de fingir que se quer fazer alguma coisa na certeza de que nada terá que ser feito. Formou-se depois um gabinete para a intervenção no centro histórico, desfeito passados dois anos. O que sobrou foram “estudos técnicos” e uma intervenção lamentável em duas ruelas. Ainda ninguém percebeu que o que está em causa não é um mero acto de cosmética localizada mas uma intervenção de fundo em toda a cidade velha, dentro e fora da muralha, que crie novas centralidades, atraia pessoas e ordene para o futuro. Ninguém, salvo seja. De facto, os poderes instituídos já revelaram não ter ânimo nem imaginação para a tarefa. Mas, ao menos, existe massa crítica independente. A última edição de «O Interior» deu-nos a agradável surpresa de um conjunto de visões da “cidade sonhada” pelos arquitectos da Guarda. É um número para guardar. Além de tudo o que se possa imaginar para o centro histórico, a proposta para o jardim José de Lemos é simplesmente notável, tal como a remodelação sugerida para o largo da Misericórdia parece excelente. Agora pergunto: porque é que esta gente não aparece mais e os desenhos que faz são para a gaveta ou a pedido de um jornal? Porque é que se gasta dinheiro e energias em “estudos profundos” e outras tretas, se há pessoas com talento dispostas a pensar a cidade e a intervir? Porque é que nos mantemos tão retrógrados e tão sem audácia?

2. As descobertas sobre a prática de pedofilia na Casa Pia de Lisboa e tudo o que girava à volta não podem redundar na mórbida expectativa acerca dos próximos desenvolvimentos nem nos rumores picantes envolvendo as prováveis identidades das figuras públicas que terão estado metidas na imundice. Ninguém pode deixar de estar inquieto perante a génese dos factos, que assenta num lastimável silêncio e numa deplorável passividade, anos a fio. A ser verdade tudo quanto nos entra pela casa na avalanche de informação destes dias, é a própria integridade do Estado e das suas instituições que está em causa – e, em última análise, a sanidade da sociedade em que vivemos. Como é possível que redes organizadas tenham sido toleradas, que indícios de crime tenham sido negligenciados, que o abuso de inocentes tenha sido silenciado, que alertas sucessivos tenham sido ignorados? Como é possível que um país inteiro viva sob o princípio de que “o que não se noticia não existe” e só uma investigação jornalística origine demissões, detenções e reacções em catadupa? A opção sexual de cada um é um direito absolutamente legítimo e inquestionável. Nem os vícios privados devem, por apreço à liberdade individual, ser chamados a comprometer as virtudes públicas. Mas o respeito pela privacidade não pode justificar a indiferença, se o que estiver em causa for o indício da prática de crimes sórdidos – e a pedofilia é um dos piores. Mesmo que, num passado não muito longínquo, a moldura criminal vigente resumisse essa prática a mero “atentado ao pudor”, punindo-a menos do que ao dano material. Aliás, a lei só foi alterada no princípio dos anos 90, após o julgamento no Tribunal da Guarda de um caso de abusos sexuais sobre uma menina de dois anos, cujo desfecho – uma insignificante sentença de prisão – pôs a cidade em brasa. Hoje é suposto termos maior consciência acerca da violência física e moral infringida num acto dessa natureza e, pior, do horror que representam as redes de pedofilia. A quem abusa comprovadamente da inocência, desculpar-me-ão os activistas da Amnistia Internacional e as pessoas sensíveis, não pode ser concedida complacência: a justiça chinesa, com a sua prática diligente e chocante, dispõe da emenda apropriada, embora – é esse o defeito – irreversível. Ao escrever isto, sei que posso não estar a dar o melhor exemplo aos meus filhos – mas também é por eles que ponho esta excepção à regra da tolerância que procurarei sempre ensinar-lhes.
«O Interior»

Sem comentários: