3 de julho de 2003

3 Jul 2003: O trivial

À porta de uma escola profissional de Viseu centenas de candidatos improvisam um parque de campismo. Hão-de ficar o tempo que for necessário para garantir um lugar elegível na lista dos novos alunos. Há anos que é assim. Na segunda noite, o número de interessados já triplica as vagas disponíveis. Justifica-se o insólito acampamento pela crescente procura de um ensino profissionalizante de um modo geral e pelo prestígio desta escola em particular. Em Portugal há cursos superiores em excesso, criados à desgarrada e sem fundamento nas necessidades do mercado. Oitenta por cento dos desempregados são recém-formados. Outros sujeitam-se a trabalhos que não têm nada a ver com a especialização na qual investiram tempo e dinheiro. O Expresso publicou, na semana passada, um retrato do ensino superior desenhado por um conjunto de empresários de primeira linha de diferentes sectores de actividade do país. Os «barões» do mercado de emprego concorrem no diagnóstico: as universidades vivem isoladas e não se preocupam com as necessidades reais; a criação de licenciaturas sem estudo do mercado gera frustração pela falta de saídas profissionais; deve apostar-se não apenas no “saber” mas no “saber fazer”. A agravar o cenário surge a prontidão que impera nas «universidades» e nos «institutos superiores» que não têm pudor em aceitar alunos com nota zero, tentando prolongar a própria agonia. Para nosso mal, instituiu-se o anátema de «privadas do interior» para designar estes estabelecimentos, onde o que se pratica é a venda de títulos académicos, mesmo que os candidatos tenham o grau mínimo de qualificação. As quarenta instituições onde isso é possível – de um incrível total de 116 universidades e institutos privados que existem no país – funcionam em maioria nos distritos do interior. A crescente oferta no sector público (que também baixou a fasquia, embora não para níveis tão escandalosos) fê-las ir à busca dos despojos para sobreviver, desfazendo-se de critérios como a qualidade ou a exigência. Temos o exemplo do único instituto superior privado na Guarda. O seu máximo responsável, molestado pelas notícias sobre as notas de acesso (entre zero e 1,5), veio contrapor que um péssimo aluno no secundário pode revelar-se um promissor estudante no superior. É uma teoria demasiado evidente: faltaria que, pagando para frequentar (por impossibilidade curricular de ingressar nos estabelecimentos que exijam nota positiva) e fazendo o favor de ajudar a sustentar o sistema, o discípulo não tivesse pelo menos garantida uma classificação auspiciosa. A imoralidade prossegue até ao termo da carreira académica. Por isso é que vão longe os tempos dos alunos às centenas (e das primeiras «fornadas» moderadamente apuradas): à fase do lançamento seguiu-se fulminantemente a do desinvestimento, na mira do lucro fácil, como aconteceu com outras «galinhas dos ovos de ouro» que a instituição criou. A massa estudantil desse instituto encontra-se reduzida a pouco mais de uma dúzia de maduros que buscam um título académico que os ponha a bem com o estatuto social ou com as exigências documentais da progressão nos serviços – são quase todos funcionários ou dirigentes públicos e, é compreensível, não fazem muita gala em admitir que frequentam um bacharelato em relações públicas.
Não se pode aferir, sem a ter visto a funcionar, a qualidade técnica e pedagógica da gorada Escola Profissional da Guarda. O mercado é que dita a sorte em função do desempenho e dos resultados – foi isso que traçou a agonia do referido instituto e de tantos, semelhantes, no país. Mas o ensino profissional é necessário. Há profissões cada vez mais requisitadas, que não se aprendem nas universidades e asseguram taxas de emprego superiores. E há uma crescente procura, que levou à exclusão de mais de metade dos interessados nos cursos profissionais, no último ano lectivo. É provável que a escola que estava a ser criada na Guarda tivesse êxito, até por ser a primeira na região centro nos últimos seis anos. Falhou, não porque o projecto fosse considerado mau, mas porque lhe foi recusado o financiamento público – exclusiva fonte de rendimento das mais de duzentas em funcionamento no país. O pior é que tudo isto é trivial, parece trivial e acaba por ser considerado trivial. A instalação do Tribunal Administrativo em Castelo Branco (facto que, em rigor, não nos adianta nem atrasa) causou quase um abalo sísmico entre as forças vivas locais. A exigência feita por Viseu para a criação de uma universidade irritou a Câmara, que reclamou também uma (que se afigura racionalmente improvável). Mas ninguém se indigna com o chumbo que inviabiliza a abertura de uma escola profissional que estava pronta a funcionar. Uma de duas: ou os cooperantes – Associação Augusto Gil, Câmara e Associação Comercial – não confiam uns nos outros; ou, sendo de suspeitar que alguém teve influência bastante para travar o financiamento, a principal promotora do projecto não está para levantar grandes ondas porque também já foi do tempo de dogmatizar que «enquanto a Câmara não for nossa, não vai mais um tostão para a Guarda». Pouca coisa mudou, desde esse tempo. Só os políticos: eram melhores, mais atrevidos.
«O Interior»

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