4 de abril de 2002

4 Abr 2002: Amanhã ver-se-á

1. Amanhã toma posse o Executivo de Durão e Portas. De tudo quanto se tem especulado acerca do futuro político imediato de Ana Manso, uma hipótese que perece ganhar consistência é a da nomeação para secretária de Estado do Turismo. A entrada no Governo parece lógica, dado tratar-se de uma figura em franca ascensão no partido. O que pode parecer um paradoxo é que uma administradora hospitalar seja indigitada para tal pasta. Mas isso é possível num partido que, enquanto poder, cultivou e pelos vistos continua a cultivar – veja-se a escolha de Pedro Roseta para ministro da Cultura – a tecnocracia em detrimento do perfil. E Ana Manso é economista, tudo indicando que o Turismo permaneça sob a tutela da Economia. Pareceria mais lógica a designação da dirigente distrital do PSD para uma secretaria de Estado na área da Saúde, que mais não fosse pelo facto de o novo ministro cultivar, ao que consta, boa relação com a deputada eleita – pertencem ambos ao lobby da privatização dos serviços hospitalares. Ou para governadora civil, assumindo-se dona e senhora dos destinos do distrito. Mas há aqui um factor em jogo: Ana Manso não desistirá de ser presidente da Câmara da Guarda, de tão próxima que esteve de o ser em Dezembro passado. Só que ficou exposta de tal modo à promessa da construção de um novo hospital, em duas campanhas consecutivas, que qualquer dos lugares se tornaria num tormento – tendo em especial Maria do Carmo Borges boas razões para lhe cobrar a factura. Enquanto provável secretária de Estado do Turismo, ela sempre poderá demarcar-se do pior sem deixar de colher os louros do melhor, de tudo quanto for decidido sobre o assunto do hospital. Mais fácil será, porventura, desviar para a Guarda as migalhas que permitam, daqui a quatro anos, dar a aparência de obra realizada numa área que constitui a genuína vocação do concelho mas onde está tudo rigorosamente por fazer. E, com essa coroa de promotora turística, alcandorar-se a reinar na cidade. Não será mal visto. E, de facto, uma política de turismo consistente e consequente terá mais utilidade no nosso futuro colectivo do que um hospital novo. Todos sabemos isso, a começar seguramente por ela.

2. Num longínquo dia de Outubro de 1995, acordámos para um país onde uma série de gente já não tinha mando. Para além de qualquer crença no poder que punha fim a dez anos de cavaquismo, o que ficou foi uma sensação de alívio – o poder não é eterno, a insolência não triunfa sempre e a chantagem não resulta para toda a vida. O que não se esperava era que o sistema clientelar e imoral a que chamavam «Estado laranja» desse lugar, tão velozmente, ao triste espectáculo dos boys do PS a exigirem os jobs a que se achavam no direito. Colocado no papel de «padrinho» de um arraial de candidatos a protegidos, Guterres ainda tentou pôr ordem nas tropas. Mas as cúpulas nacionais e distritais tomaram o caso por conta e trataram de fazer a varredela, sem que outros critérios que não os da cor política ponderassem nas substituições. Agora põe-se a mesma questão: se é comum concordar em que os governadores civis e os directores-gerais devem ter a confiança política do Governo, sendo natural que mudem quando este muda, e se é comum aceitar que o mesmo se passe em relação a certos dirigentes e a algumas administrações que primaram pela ostensiva incompetência (já que o próprio partido que os nomeou não teve o decoro de reconhecer o erro), já ninguém de boa-fé achará essencial à política de saúde que se mudem os directores dos centros de saúde ou determinante para a política de formação que se substitua o director do Centro de Emprego por alguém escolhido na reunião do partido – desde que profissionalmente tenham dado provas de saberem o que fazem. Para mais, sendo Durão um confesso adepto dos «valores seguros». Nas próximas semanas veremos como se apresenta o PSD, depois destes seis anos de «cura de oposição»

«O Interior»

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