7 de março de 2003

7 Mar 2003: Maria da Fonte

Qual Maria da Fonte, Ana Manso armou-se contra todos os que são falsos à ideia de um distrito uno e indivisível, do Douro à Malcata. É justo reconhecer que, desta vez, a líder distrital do PSD surpreendeu pela positiva. Habituados à fala arruaceira e a conferências de imprensa onde debitava monólogos inúteis, vemo-la agora, por fim, mostrar que também sabe dar substância às coisas. O documento que apresentou no início da semana foi a primeira orientação conjunta dos municípios do distrito sobre a criação de comunidades urbanas. Ao tê-lo feito assinar pelos presidentes de doze das catorze câmaras, excluindo apenas os eleitos pelo PS (um porque não quis, outra porque não soube), Ana Manso alcançou o improvável: uniu, à volta do conceito de inviolabilidade das fronteiras do distrito, quem até já se tinham manifestado de maneira diferente. O presidente da Câmara de Manteigas e da Associação de Municípios da Cova da Beira, por exemplo, é o principal promotor de uma reunião marcada para o dia 20 em Belmonte, com as vinte e cinco câmaras dos distritos da Guarda e de Castelo Branco, para defender uma comunidade intermunicipal. O de Aguiar da Beira afirma-se disponível para pertencer a uma futura área metropolitana de Viseu. O de Gouveia e o de Fornos de Algodres também não enjeitam a ideia. E o de Foz Côa declara-se mais transmontano do que beirão. Mas assinaram todos a declaração de princípios que a dirigente do PSD agora exibe como um troféu. Reclamam um distrito unido, na base do qual se formará uma comunidade urbana liderada pela Guarda. Tê-lo-ão feito de ânimo leve, convencidos de que não passava de uma folha inconsequente e condescendendo em ajudar a deputada noutra das suas tropelias contra o PS e a «inimiga»? É possível, sabendo eles de antemão que o município apontado como capital da putativa província foi o único mantido propositadamente à margem da iniciativa. Percebe-se que Ana Manso procurou surpreender Maria do Carmo Borges, tentando chamar a si o protagonismo do processo – não fosse a presidente da Câmara mexer-se e antecipar-se na liderança que a adversária a pode agora acusar, com alguma legitimidade, de não possuir. Ou seja: fica a ideia de que tudo se resumiu à trica partidária, em que nenhum dos intervenientes deixará de pensar e dizer, à primeira oportunidade, da maneira que lhe der na real gana – diferente, se for necessário, da que ficou escrita neste «documento dos doze». No dia seguinte, em Manteigas, viu-se qual era a real valia dos argumentos: o secretário de Estado da Administração Local, autor do esboço da lei que prevê comunidades urbanas e intermunicipais, respondeu que os distritos são coisa do passado, que nada têm a ver com os novos eixos sociais, económicos e afectivas que se formaram dentro do território. Um dos subscritores da véspera era o anfitrião da visita. E não disse que não, antes pelo contrário.
«O Interior»

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