8 de fevereiro de 2002

8 Fev 2002: Bem te tramaram, Abílio

À primeira tentativa, o julgamento do antigo presidente da Câmara e dos alegados cúmplices no caso do ex-futuro matadouro ficou para as calendas. Entre o início do processo e a chamada aos réus passaram seis anos, por factos que remontam ao início da década passada. Três acusados morreram entretanto e os tais dinamarqueses, que alegadamente pagaram luvas a troco de uma obscura adjudicação, vivem descansados e não irão ralar-se com o assunto mais do que se já ralaram desde a concessão da obra, em 1990. Ninguém conseguirá incomodá-los porque o Estado português não pode notificar directamente cidadãos residentes no estrangeiro e o Estado dinamarquês, se alguma vez foi solicitado a fazê-lo, também não soube – ou não quis. O que restou ao Tribunal da Guarda foi promover a separação de processos: Abílio Curto, Custódio Simões, José Luís Terreiro e Walter Gameiro respondem agora; os escandinavos talvez cá voltem um dia. Mesmo assim, este caso está – em tempo decorrido e em número de adiamentos – abaixo da média nacional para o juízo de crimes de colarinho branco. E anteontem, ao primeiro ensaio, já todos presumiam que esta regra vergonhosa não iria ter excepção: fosse pela ausência dos nomes sonantes contratados pelos arguidos no meio forense de Lisboa; fosse pelos compromissos que uma série de gente envolvida no processo já declarava ter assumido para esse dia. Mas aguardava-se, em qualquer dos casos, que o motivo do adiamento fosse algo refinado. Lá porque a Justiça é cega, não tem obrigatoriamente que fazer papel de parva. Se um réu não comparece a julgamento por não sido notificado, é pouco apropriado que surja um advogado a representá-lo e a pedir que quando marcarem a próxima audiência o façam com mais antecipação, porque o seu cliente, agora empresário nas Américas, leva uma vida ocupada e reclama tempo para se organizar e, se tal lhe convier na agenda, vir a Portugal responder por crimes pelos quais foi pronunciado. É desprestigiante para a Justiça – mas foi este «desconhecimento» de Walter Gameiro que ditou a delonga e não, ao contrário do que se esperava, a ausência de Custódio Simões, agora também homem de negócios nas Áfricas, que surpreendentemente se sentou no banco dos réus, aparentemente de livre vontade e, principalmente, sem medidas de coacção que assegurem o seu regresso para a próxima audiência. Mas como nada acontece por acaso e da lista inicial de suspeitos também uns quantos já passaram à condição de testemunhas de acusação, Abílio Curto é bem capaz de ter razões, lá no íntimo, para repetir aquilo que declarou numa entrevista em 1995, logo após a prisão, e que a Rádio Altitude retransmitiu neste dia: «Alguém me está a tramar!»...
PS - Ter uma coluna de jornal é um desmedido privilégio mas também uma aziaga responsabilidade, que mais não seja porque, semana após semana, acabamos inevitavelmente por preceituar, através da nossa opinião, um código de valores e princípios. Esses valores podem não ser sempre os que estão certos mas se tiverem a objectividade na primeira linha de grandeza serão, pelo menos, os legítimos aos olhos de quem os imprime e de quem os lê. É com esse duplo sentido, de privilégio mas de responsabilidade, que assumo este espaço no «O Interior».
«O Interior»

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