27 de novembro de 2009

A Cidade plena depende de nós

Nem tinha dado conta de que a Guarda já é o local onde moro há mais tempo na chamada idade adulta. Na próxima Primavera completarei uma década desde que regressei. Foi uma decisão tomada sem grandes sobressaltos, oito anos após a partida – período durante o qual transpus sentimentos contraditórios sobre a terra onde nasci e na qual tinha deixado em lista de espera as referências mais marcantes da vida até então vivida. Recém-chegado ao outro lado do mundo, com 23 anos, larguei-me à aventura, à descoberta, à paixão e à ambição. Para o bem e para o mal, devo muito do que sou e do que faço a esta matricial quadratura de sinais. É por isso que não confio na inevitabilidade do destino, não professo fé padronizada, não concebo a acção política nem a intervenção cívica confinadas a agremiações melancólicas e oligárquicas, não alimento «heróis», não tolero meias-tintas, detesto o cinzento e não aprecio aqueles que saltarinham inquietos entre um deus e outro, consoante a conjuntura. Para mim a vida não é um jogo a feijões nem uma acomodação à conquista do possível. O lugar onde vivo também não pode, por isso, confinar-se à indigência do praticável. Ou pelo menos eu não aceito que nos conformemos com por vezes tão pouco. É verdade que naquele tempo iniciático, olhando para a Guarda à distância de oito fusos horários, comecei por fazer votos de não retorno – nem à cidade nem ao país. Gradualmente, porém, fui admitindo voltar – ao país, pelo menos. Depois coloquei a cidade nas opções supletivas – e reservei, previdentemente, o espaço físico onde projectei construir a minha própria base logística entre o passado e o futuro, a memória e as aspirações, o legado de uma vivência marcante e os desafios do recomeço. A ideia acabou por ser, afinal, determinante. E a este calculismo juntaram-se os ensinamentos dos anos intensamente vividos numa encruzilhada de culturas e saberes. Um deles foi o de que, embora acabemos por pertencer ao lugar que pisamos, não é razoável avançarmos pela vida sem raízes, nem referências, nem consanguinidades, nem afectos. O outro radica na noção do espaço: Portugal ocupa um território que se estende por menos de 200 quilómetros do mar à fronteira e por 600 do Norte ao Sul. À escala global isto é quase nada. O discurso regionalista soa a grotesca querela de courela. Os agentes políticos de proximidade insistem na imitação e na multiplicação dos piores vícios do Estado centralista – sonham com a sua própria jurisdiçãoizinha para terem migalhas de poder discricionário – em vez de atacarem a raiz do problema com exigência e concertação que obrigue a estabelecer uma estrutura horizontal capaz de distribuir recursos com equilíbrio e justiça. Era isso que eu imaginava possível, em 2000, quando via aproximarem-se, por exemplo, as auto-estradas, os programas de requalificação urbana e os incentivos ao investimento. Antevia um horizonte de qualidade de vida. Ansiava pelos privilégios de viver numa cidade pequena, estrategicamente posicionada. Planeava transformar a tal base logística também em lugar para habitar, para desfrutar, para trabalhar, para imaginar, para criar. E confesso: cheguei a pensar que em, vá lá, cinco anos a Guarda seria uma cidade completa. Passaram cinco e agora quase dez. Não lamento a opção que tomei, pelo contrário. A qualidade de vida existe, as distâncias encurtaram, concebi o meu próprio espaço e – o mais importante – não tenho encontrado substanciais razões de queixa em matéria de realização pessoal e profissional. Gosto do lugar onde vivo, tenho paixão pela família, sinto orgulho pelo projecto que dirijo e conservo uma enorme admiração por aqueles com quem partilho a aventura e que comigo trabalham. Só que esta ainda não é uma cidade plena. Embora reconheça que está bem melhor do que estava há dez anos ou há cinco – e eu que sou, por defeito, exigente e perfeccionista. Fazer com que, daqui a outros cinco, tenhamos razões de contentamento depende de nós – dos que estamos, dos que viemos, dos que voltámos e dos que ficámos por vontade, sem constrangimento, frustração, ressentimento nem ajuste de contas –, mais do que de qualquer poder instituído ou dos costumeiros «empreendedores» ancorados no regime, que nada criam por conta e risco próprios. A Guarda tem que ser o lugar de nós todos – cidadãos. E todos devemos sentir-nos convocados a servi-la e a protagonizá-la, lutando contra a atrofia tantas vezes fomentada por aqueles que por cá passam apenas com o intuito de dela se servirem.
«O Interior» - Edição especial dedicada aos 810 Anos da Cidade da Guarda

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