12 de março de 2010

Cidade Rádio (reescrito)

O tango de Francisco Canaro é um adeus sentido às planícies de terra amarela da Argentina. A melodia sentida faz lembrar o nosso fado, o que tem lógica: é provável que ambos os géneros encontrem raízes na tradição celta, supondo-se que os escravos africanos a tenham transportado para lá do Atlântico, de onde regressou à Europa já na primeira metade do século XX como novidade dançável e sensual. «Adiós, Pampa Mia» é de 1946 e também trina o começo de uma aventura que percorrerá o sonho e a esperança. É, apesar de tudo, menos fatalista do que o fado cantado. Talvez esse tenha sido o motivo: a opção pela confiança no lugar do desalento; da ousadia em vez do desengano. A 29 de Julho de 1949 foi este poema de "Pirincho" Canaro com arranjo de Mariano Mores que rodou num vinil de 78 rotações editado pela londrina «The Parlophone» pela primeira vez, oficialmente, na Rádio Altitude. Assim o testemunha a velha placa exposta, juntamente com o disco original, no «Átrio da Memória» da Casa da Rádio. Estudos respeitáveis de Hélder Sequeira, anterior director, mestre em História e Museologia (com tese dedicada, precisamente, à história da Rádio Altitude, que constitui o único documento credível do género) e agora empenhado Provedor do Ouvinte (uma figura inédita na rádio em Portugal, instituída sem obrigação legal, no pressuposto assumido de que cometemos muitos erros mas tentamos não cair no pior de todos, que é nunca reconhecê-los nem corrigi-los), concluíram que as emissões regulares desta Rádio começaram um ano antes, e que mesmo em 1946 a rádio já existia e transmitia, datando de 21 de Outubro de 1947 o primeiro regulamento interno, assinado pelo então director do Sanatório, Ladislau Patrício. A Rádio Altitude é, pois, uma sexagenária e muito respeitável Senhora, com espírito jovem e arejado – tentando sempre surpreender com novas causas, novas abordagens e novos intervenientes. A mais exaltante característica do recente mas intenso percurso da actual Equipa tem sido, precisamente, a constante reinvenção. E os sinais de aceitação, retorno e credibilidade – que surgem continuamente e consolidam a Rádio Altitude como órgão de comunicação social de referência e um dos poucos oásis no deserto da informação que se produz no interior do país – robustecem a nossa responsabilidade e desafiam incessantemente a nossa imaginação. Temos um notável grupo de trabalho. Contamos, a montante, com a confiança exigente e com a solidariedade atenta de uma estrutura empresarial, que assume um compromisso social e afectivo para com a Guarda, numa área que, se fosse vista como mero negócio, não teria viabilidade. Amigos e colegas formam uma Equipa que se destaca pelo profissionalismo e pela vontade de alcançar os objectivos que em conjunto nos propomos. Acrescente-se o inestimável contributo de um grupo de mais de quarenta cronistas, comentadores e autores ou colaboradores de programas temáticos. Alguns também com um lugar merecido na história da rádio em Portugal, como o «Escape Livre», em emissão desde 1973. Poder contar com a participação de tantos cidadãos – de diferentes sensibilidades profissionais, etárias, sociais, cívicas e políticas – é uma distinção para a rádio; cruzar quotidianamente tão plurais pontos de vista acerca das nossas coisas e das nossas causas é um legado para a cidade e para a região. Vivemos aqui um desusado ambiente de auto-estima, é verdade – umas vezes a raiar a hipérbole e outras (tantas, tantas…) a provocar invídia e, por isso, a fazer-nos aturar, não raras vezes, afrontas e desrespeitos. Mas não importa: soubemos erguer uma herança desacreditada e essa é a resposta que temos, e teremos sempre, para dar. Só não desejamos fazer ainda uma rádio perfeita – apenas cumprimos uma aventura na qual sabemos que a etapa actual tem que ser melhor do que a anterior e obrigatoriamente pior do que a seguinte. Tem sido assim, temporada após temporada. Porque também não queremos conformar-nos com a rádio realizável. Nem com a cidade possível. Afinal de contas, a vida não é a feijões. Pelo menos para alguns dos que escolheram cá viver e trabalhar. Entre os quais está esta pequena mas enorme Equipa da Rádio Altitude – a mais antiga estação de radiodifusão local em Portugal, um património que deve ser motivo de orgulho para toda a Região. Hoje apeteceu-me recordar aqui os princípios que o actual grupo de trabalho abraçou há seis anos, pelo menos. Um grupo que integra algumas das (raras?) pessoas que não querem desistir da Guarda. Nos bons como nos maus momentos, como é próprio dos afectos verdadeiros e vividos com intensidade. Há seis anos: uma longevidade inédita de engrandecimento e afirmação, numa história que também já foi feita de consulsões de sobressaltos. É por isso que, no final de cada jornada, quando vamos à nossa vida restante e ao reencontro dos nossos (outros?) afectos primoridiais, deixamos sempre o lugar onde trabalhamos com um sussurro: «Fica bonita, Rádio!». Porque a Rádio Altitude é uma paixão.
(Foto: João Neves)

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