29 de março de 2010

Cinquenta anos depois

O segundo maior projecto de aproveitamento hidroagrícola do país teve início há pelo menos cinquenta anos. Recordo a figura bonacheirona do engenheiro Courinha, nos meus tempos iniciáticos no Jornal do Fundão (há mais de duas décadas): ele era o operacional, compartilhado entre a exaltação e a resignação, de uma obra que se percebia vital para o desenvolvimento da região mas que não desencalhava. José Lopes Courinha passava muito tempo no JF, porque tempo era o que lhe sobrava numa estratégia que só estava pronta no papel mas não saltava para o terreno. Falava daquilo com paixão. Mais do que o futuro, era a sobrevivência. Percebi melhor o que estava em causa quando o meu avô paterno anteviu como inútil o esforço que despendera na abertura de canais de irrigação a partir da ribeira e dos três poços da quinta: a água não tardaria a minguar. E minguou, assim que a moda dos furos sem regras anulou recursos. Os meus avós morreram, como tantos outros, à espera do regadio. O meu pai, que se dedicava especialmente ao trato do olival, dizia que aquele seria o lugar perfeito… quando lhe repusessem a água furtada aos poços talhados no xisto. No outro dia passei a manhã, com o meu irmão, a negociar com a Direcção-Geral da Agricultura e do Desenvolvimento Rural. O bloco de rega da Capinha, que integra a última fase do Regadio da Cova da Beira, atravessa-nos a quinta nos Enxames. Leva-nos sete oliveiras e 35 pinheiros. Mas deixa-nos três saídas de água para a nossa propriedade de oito hectares. Água proveniente da barragem do Sabugal. Agora sim, vai ser o lugar perfeito. Quando já não estão vivas as pessoas que o construíram nem as que ainda lá idealizaram um futuro sustentável. Quando já só vivem cinco famílias (de idade avançada) em todo o vale. Quando a paisagem é de abandono. O Regadio chegou na terceira geração: aquela que fez menos e que provavelmente vai ser assediada pelos espanhóis para celebrar um grande negócio, como nos vaticinava um fundador da associação de regantes. É o que estão a fazer outros herdeiros das margens do regadio. Terra e água: uma combinação de rendimento acessível. Que as gerações anteriores construíram com suor e lágrimas. Mas mais vale tarde que nunca: pelo menos neste caso as gerações seguintes não vivem longe, assumem-se gratas depositárias do legado e gostam de passar por ali em busca de um interregno de paz nesta voragem dos dias. Quando calha na companhia de um parente que resiste nas vizinhanças e nos recebe, afectuoso, com aquilo que a terra dá: pão caseiro, queijo queimoso e vinho de uva. Momentos breves que apetece perpetuar num breve sempre. Que bom que é ter um lugar nosso para encontrar o silêncio e recuperar forças para enfrentar o ruído. Um lugar assim: que parece parado no tempo e distante do mundo.

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